Análise do Episódio 7.04: “The Spoils of War”

“Fogo e Gelo
Alguns dizem que o mundo acabará em fogo,
Outros dizem em gelo.
Fico com quem prefere o fogo.
Mas, se tivesse de perecer duas vezes,
Acho que conheço bastante do ódio
Para saber que a ruína pelo gelo
Também seria ótima
E bastaria.”

Fire and Ice é um poema do escritor americano, Robert Frost, publicado em 1920, poucos anos após o fim da Primeira Guerra Mundial. George R. R. Martin já se manifestou algumas vezes dizendo que se inspirou na prosa evocativa de Frost para criar o mundo de Westeros. Claro, o poema é apenas um dos elementos que ele utilizou. As Crônicas de Gelo e Fogo, assim como Game of Thrones, lidam com muitos outros ingredientes, gênese de dezenas de outras naturezas. Mas não nesta semana.

Nesta semana, fomos pegos de surpresa com um inspirado desfile de sentimentos primitivos, confusos. A ruína e a dor. A ideia de que vingança não é justiça, raramente explorada pelos roteiristas da série. E o terrível sentimento de que, talvez, seja impossível salvar este mundo sem destruí-lo primeiro.

Dirigido com muita competência pelo “estreante” Matt Shakman, “The Spoils of War” foi um episódio notável pelas suas contradições. De todos os personagens que fizeram parte da narrativa no último domingo, aquele que melhor sintetizou o momento atual da série foi, curiosamente, Dickon Tarly. Ecoando as palavras de Robert Baratheon ao relembrar sua primeira vítima (um garoto Tarly, por coincidência), o herdeiro de Monte Chifre admitiu que a realidade de uma vitória é muito mais difícil de digerir que a fantasia da mesma. Por mais que o termo “espólios de guerra” esteja comumente ligado às conquistas do lado vencedor, ele também pode designar as perdas geradas pelo conflito. Perdas que, nem sempre, são constituídas de bens materiais como ouro ou grãos.

Esse sentimento agridoce também foi reverberado no retorno de Arya, que teve de lidar com mudanças irrevogáveis em sua casa, em seus irmãos e dentro dela mesma.

Não podemos mais dizer que os Starks são a família mais atingida pela Guerra dos Cinco Reis (existem Casas que foram totalmente extintas, afinal), mas os filhos e filhas de Ned Stark, mais do que ninguém, cresceram como produtos do caos estabelecido pelo conflito. Sendo Senhora Interina de Winterfell e tendo que lidar com os entraves de governar bem sob circunstâncias adversas, Sansa parece ter sido a que se saiu melhor entre os irmãos – o que é bem triste e problemático se lembrarmos que sua determinação é fruto mal concebido de um abuso. Abuso não deveria definir força, principalmente a feminina. Na outra mão, temos Jon, que precisou morrer para abraçar seu papel de herói (que veio com o indesejado papel de Rei do Norte e uma questionável ideia de real mudança); Arya, uma assassina fria e treinada, capaz de bater a mulher que venceu seu antigo “mentor”, o Cão de Caça; e Bran, que de tão anestesiado pelas memórias excruciantes de eras passadas, parece apático ante as irmãs e à partida da admirável Meera Reed.

É essa imprecisa mistura de angústia, satisfação e remorso que liga os acontecimentos na Campina e os reencontros dramáticos no Norte, e é o que faz com que sintamos as dores dos Starks mais intensamente que as de qualquer outro.

David e Dan brincam cruelmente com essas emoções ao sugerir que Arya teria ido embora depois de confrontada pelos guardas no portão (em mais um callback da primeira temporada da série). Em vez disso, ela seguiu para as criptas, e preciso dizer que ter a figura esculpida de Eddard como testemunha do reencontro das filhas – que estiveram juntas pela última vez quando seguiram com o pai para Porto Real – foi uma escolha narrativa bem inteligente. Naquele lugar escuro, as diferenças entre Sansa e Arya nunca estiveram tão claras, mas há também uma ligação profunda entre elas que, embora seja conhecida por nós, precisou ser redescoberta pelas duas.

Em uma entrevista recente, Maisie Williams admitiu que, depois de tanto tempo sem dividir o set com a amiga (Sophie Turner), foi difícil encontrar o tom necessário para a cena do reencontro. Esse constrangimento ficou evidente no diálogo entre as irmãs – e, principalmente, na linguagem corporal das atrizes –, que pareciam buscar a todo momento um espaço para aquele relacionamento em suas novas vidas. A história delas ainda não acabou.

Emplacar duas grandes reuniões seguidas entre os Starks (três, se contarmos o encontro com Nymeria) foi arriscado, mas é natural que, a essa altura da história, onde todos os pontos estão sendo ligados sem muita preocupação com a linha que eles formam, nós sejamos bombardeados com acontecimentos deste peso toda semana.

Um dos melhores segmentos do episódio foi a disputa entre Brienne e Arya, ainda que questionável por algumas razões. Por que arriscar um treinamento com armas reais? Sim, Brienne estava usando Oathkeeper para treinar adolescentes, e o fato foi confirmado na sinopse oficial da HBO. O olhar de Sansa, que claramente denotava surpresa e preocupação (fato confirmado pelo diretor do episódio), é uma herança do próprio Ned, vendo Arya treinando com Syrio na Fortaleza de Maegor. Engraçado reparar que, enquanto nos livros, Arya tem dúvidas sobre o que ela está se tornando, na série ela parece estar bem orgulhosa disso. Tal variação pode derivar do fato de estarmos comparando uma mulher a uma criança, ou talvez seja só mais um exemplo da glorificação à violência, comumente vista em Game of Thrones.

Arya sabia que aquilo era verdade. Os cavaleiros andavam sempre sendo capturados e resgatados, e às vezes as mulheres também. Mas e se Robb não quiser pagar o preço deles? Ela não era nenhum cavaleiro famoso, e era de esperar que os reis colocassem o reino à frente das irmãs. E a senhora sua mãe, o que diria? Ainda a quereria de volta, depois de todas as coisas que havia feito? Arya mordeu o lábio e desejou saber.

A Tormenta de Espadas, Capítulo 22, Arya IV

Enfim, o duelo foi interessante por evocar vários outros embates vistos ao longo da série. Posso mencionar aqui as breves sessões de treinamento da Arya com Syrio Forel e, depois, com o Cão; a luta deste último com a própria Brienne e até o inesquecível confronto entre a Montanha e a Víbora.

Em “The Dance of Dragons”, Daario Naharis atestou que devemos sempre apostar no lutador menor e mais ágil quando este enfrenta um maior e mais encorpado, mas os exemplos supracitados (e a própria disputa que o mercenário assistia na ocasião) sugerem o contrário. Os dothraki podem ter levado a melhor contra os Lannisters na Campina, mas, em “Baelor”, Jorah venceu Qhoto mesmo com o peso de sua armadura. Sendo assim, eu seguramente teria colocado meu dinheiro na Brienne em uma luta de verdade (o que não foi o caso). Devemos considerar também outros fatores como a apreensão de Brienne ao enfrentar (com espadas de verdade!) a garota que ela jurou proteger. Em suma, o mais importante aqui foi ver que as duas (e Podrick) encontraram prazer naquele momento, o que tem sido raro ultimamente, ainda mais quando se tem o novo Corvo de Três Olhos por perto. A pobre Meera que o diga.

Como uma das personagens mais maltratadas pela HBO (eles nem deram a ela um novo figurino), eu fiquei realmente triste ao vê-la deixar Winterfell – e, provavelmente, a série – daquele jeito. Sua despedida me fez lembrar que, ao contrário do que foi afirmado nas criptas, nem todos os que conheciam o rosto de Ned Stark estão mortos. O papel de Howland Reed na história, principalmente por ser o último sobrevivente dos acontecimentos na Torre da Alegria (além de Jon), é de extrema importância. O cranogmano aparecerá em algum momento para revelar a verdade sobre a linhagem do Rei do Norte, ou essa tarefa será exclusivamente entregue ao Bran com suas visões?

É curioso perceber, no entanto, que a afirmação de que Bran morreu na caverna do antigo Corvo de Três Olhos não é verdadeira. Os roteiristas esqueceram que Bran ainda tinha uma personalidade quando encontrou seu tio Benjen fora da caverna ou estão simplesmente assumindo que nós esquecemos? Também é falsa a afirmação do Mindinho de que os questionamentos acerca da adaga de aço valiriano começaram a Guerra dos Cinco Reis. Ele começou. O fato de Bran ter mencionado o discurso do “caos é uma escada” mostrou que ele sabe como Petyr Baelish esteve por trás dos eventos que deram início ao confronto que tirou a vida de tantos.

(Para aquele que não lembram, o discurso de Mindinho sobre como o caos traz oportunidades foi destaque no episódio “The Climb”, da terceira temporada).

Na série, a tentativa de assassinato do Bran nunca foi propriamente discutida como nos livros, onde outro personagem já foi apontado como mandante. Dar a adaga de presente ao rapaz e levantar essa discussão mais uma vez depois de tanto tempo é algo que Mindinho dificilmente faria se estivesse, de alguma forma, envolvido no crime… certo? Em contrapartida, se ele não está envolvido, por que mentir sobre não saber quem foi o dono da arma, quando, na primeira temporada, ele levou Tyrion ao seu primeiro julgamento por combate com essa acusação?

O reaparecimento da adaga (que também foi vista em uma ilustração no livro onde Sam descobriu sobre a mina de obsidiana) sugere que, em algum momento, ela será utilizada em alguém. Como alguém que pode enxergar passado, presente e futuro, vocês acham que Bran transmitiu o presente de Mindinho à Arya por acaso? Ser ameaçado por Jon nas criptas não é tão grave visto que, mesmo coroado, o rei continua sendo um bastardo, e Baelish sabe que pode usar isso contra ele de alguma forma. Já os três filhos de Catelyn, unidos, podem derrubar o Senhor Protetor do Vale, e com as novas habilidades letais da Arya, “lutar todas as batalhas na mente” pode não ser o suficiente para salvá-lo.

Muito da sétima temporada tem sido sobre revisitar o passado e, aos olhos da nova geração, reparar os erros do passado para então forjar um novo caminho.

Essa temática se evidencia em Pedra do Dragão, onde o episódio passa algum tempo provocando os fãs com a ideia de Jon e Daenerys como mais do que simples aliados. Depois de anos abrigando Stannis e seu séquito, quem diria que a fortaleza de Aegon Targaryen se tornaria palco dos gracejos de Davos ou dos risinhos de Missandei ao lembrar Verme Cinzento. O lugar mudou, e essa mudança diz algo fundamental sobre a maioria dos personagens ali presentes, algo que nós (e até eles mesmos), talvez, tenhamos esquecido: eles são jovens.

A cena nas cavernas beneficiou-se da inegável química entre os protagonistas.  A empolgação de Jon ao mostrar a quantidade de vidro de dragão encontrada na caverna reflete um diálogo que ele teve com Samwell na quinta temporada, onde ele atestou que seria necessária uma montanha de obsidiana para vencer o exército do Rei da Noite. Os Filhos da Floresta e Primeiros Homens parecem ter chegado à mesma conclusão.

Muita gente criticou os desenhos convenientemente encontrados nas paredes da caverna. Para mim, dada a importância do vidro de dragão no combate (e criação) dos Caminhantes Brancos, é natural pensar que seus inimigos ancestrais se encontraram, em algum momento, na ilha de Pedra do Dragão. Além do mais, o que é mais uma conveniência no meio de tantas outras, muito menos plausíveis? Como vocês devem ter notado, os espirais desenhados pelos Filhos retratam padrões já vistos ao longo da série, na formação de pedras que circulavam o local onde o Rei da Noite foi criado, por exemplo; ou na disposição dos corpos encontrados pelos patrulheiros no primeiro episódio. A pira de Khal Drogo também é uma possível referência, e colocaria gelo e fogo, mais uma vez, na mesma página.

Vale ressaltar que cavernas repletas de segredos dos povos antigos de Westeros foi uma ideia plantada por George R. R. Martin em Os Ventos de Inverno, no capítulo em que Arianne viaja pela Mata da Chuva, nas Terras da Tempestade :

A caverna se mostrou muito mais profunda do que todos haviam imaginado. Para além da entrada rochosa onde a companhia de Arianne tinha montado acampamento e amarrado os cavalos, uma série de caminhos convolutos levava mais e mais para baixo, com buracos negros escapando para ambos os lados. Mais para o fundo, as paredes voltaram a se abrir, e eles se viram dentro de uma vasta caverna de pedra calcária, maior do que um grande salão de um castelo. Seus gritos agitaram um ninho de morcegos, que voaram ruidosamente em volta deles, mas só tiveram ecos distantes como resposta aos gritos. Uma exploração vagarosa pelo salão revelou outras três passagens, sendo que uma era tão pequena que, para avançar, seria preciso se arrastar de joelhos

A passagem que Arianne havia escolhido para si ficou íngreme e úmida depois de uns trinta metros. Seus passos eram cada vez menos firmes. Ela escorregou uma vez e precisou se segurar para não cair. Mais de uma vez, pensou em voltar, mas enxergava a tocha de Sor Daemon mais adiante e o ouvia chamar por Elia, então seguiu em frente. E, de repente, Arianne se viu em outra caverna, cinco vezes maior que a anterior, cercada por uma floresta de colunas de pedra. Daemon Sand apareceu a seu lado e ergueu a tocha.

– Olhe para o formato das pedras – disse ele. – Aquelas colunas e a parede ali. Está vendo? – Rostos – respondeu Arianne. Tantos olhos tristes, observando.
– Este lugar pertencia aos filhos da floresta.
– Há mil anos. – Arianne virou a cabeça.

O antigo pacto foi, sem dúvidas, um poderoso argumento na súplica que Jon fez a sua tia. Os Filhos da Floresta criaram os Caminhantes para combater os Primeiros Homens e, ainda assim, terminaram se unindo aos humanos quando suas criaturas, seres notavelmente inteligentes e perigosos, voltaram-se contra os criadores. Alianças mudam o tempo todo (Davos que o diga), mas o apoio de Daenerys não virá com tanta naturalidade. Pelo menos não deveria. Ou será que deveria?

O discurso da rainha ao demandar, mais uma vez, que Jon ajoelhe-se perante ela, é o mesmo que o próprio Jon usou para tentar convencer Mance Rayder a ajoelhar perante Stannis em “The Wars to Come”.  “A sobrevivência do seu povo não é mais importante que seu orgulho?”. Os dois diálogos se assemelham em diversos pontos, diferente daquele que vimos em “Battle of the Bastards”, onde Daenerys abriu mão das Ilhas de Ferro em prol da aliança com Yara.

De onde vem essa insistência em reinar sobre toda Westeros? Ela teria sido mais receptiva a um apelo de Sansa? O Norte é, de fato, maior e mais relevante que as Ilhas de Ferro e, diferente de Yara, Jon não tem uma armada para oferecer em troca do título. Exigir a lealdade de seus supostos súditos é habitual, mas Dany é mesmo a governante libertadora que Missandei tanto defendeu posteriormente? Aquele discurso de progresso e liberdade não combina muito com o texto que David e Dan prepararam para a mhysa este ano. Por que em vez de disparar um “ajoelhe-se ou morra” a cada cena, ela não tenta provar que merece ser escolhida pelos nortenhos, assim como foi escolhida pelos escravos? Isso me lembra uma das melhores frases de Stannis nos livros: “Estava tentando conquistar o trono para salvar o reino, quando devia estar tentando salvar o reino para conquistar o trono.” (Jon XI, A Tormenta de Espadas).

Quando a Mãe de Dragões descobriu que Jardim de Cima foi tomada e que os navios dos Imaculados foram destruídos pela frota de Euron, ela decidiu seguir o conselho de Olenna, ignorando os “homens sábios” em seu Conselho e voltando-se para um homem que não sabe de nada (afinal, como mulher, D&D jamais permitiram que ela decidisse algo por si mesma). Foi o conselho de Jon que parece ter convencido Daenerys a atacar os inimigos em um lugar onde estes seriam os únicos a sofrer com a devastação nuclear de seu “dracarys”.

Com Daenerys e Drogon queimando soldados em outro lugar, a recepção de Theon em Pedra do Dragão não foi tão calorosa. Em “Home”, o próprio personagem antecipou que Jon o mataria quando o encontrasse (afinal, sua traição resultou nas mortes de Rodrik e Luwin, ambos relembrados no núcleo de Winterfell). Felizmente, não foi isso que aconteceu. Alfie Allen é um muito talentoso para ter sua jornada na série interrompida prematuramente. Espero que Theon consiga resgatar a irmã… mas como ter certeza de que ela ainda está viva? Ele, mais do que ninguém, sabe o que homens como Euron gostam de fazer com seus troféus.

Apesar da recente descaracterização, Jamie sempre foi um dos personagens mais moralmente interessantes em Game of Thrones. Ele é fiel a sua irmã porque ele a ama, mas as dúvidas e respeito dela existem (embora o roteiro escolha ignorá-las) e devem estar crescendo depois do sermão de Olenna na semana passada. No começo do episódio, vimos ele e Bronn garantindo que a remessa de ouro Tyrell siga seu caminho até Porto Real. Foi ótimo voltar a ver esses dois juntos, e curioso perceber como Jaime, mesmo com seus lapsos de bravura e honradez, ainda ilude o companheiro com promessas de uma recompensa maior assim como Cersei fez com Euron.

Falando na Cersei, a menção à Companhia Dourada foi um aceno aos leitores dos livros. Para aqueles que não leram: o bando de mercenários possui um papel importantíssimo no desenrolar da guerra nos Sete Reinos, algo que a série dificilmente terá tempo de abordar. Entretanto, essa não foi a primeira vez que ouvimos o nome da companhia na adaptação. Na quarta temporada, Davos garantiu a Stannis que eles tinham o maior exército nas Cidades Livres, e que seriam uma bela ajuda na conquista do Trono de Ferro. Também foi dito que Jorah serviu com eles antes de jurar sua espada à Viserys. O que Mormont dirá quando souber que seus antigos empregadores foram contratados para lutar contra sua khaleesi?

E quem precisa da Companhia Dourada quando se tem Sor Bronn da Água Negra? Interpretado pelo carismático Jerome Flynn, o mercenário serve duas funções importantes nesta história. Como um dos poucos personagens plebeus, Bronn oferece um ponto de vista único sobre as políticas dos Sete Reinos, constantemente lembrando seus “superiores” da pouca consideração que a maioria tem pela classe dominante. A segunda função é, simplesmente, trazer leveza a uma saga que, de outra maneira, seria apenas fogo e sangue.

Essa leveza só me incomodou quando Jaime e Bronn mencionaram a falta de um Alto Septão, como se a religião tivesse deixado de existir depois da explosão do Grande Septo. O que deveria deixar de existir é a visão maniqueísta que David e Dan têm dos personagens. Só porque cedeu às ofertas de Jaime e traiu sua suserana ou ameaçou matar o filho caso este não se juntasse à Patrulha da Noite, Randyll Tarly PRECISAVA ser retratado como o sádico que gosta açoitar seus próprios soldados em público? Transformar personagens detestáveis em personagens odiáveis é um artifício barato e conhecido dos nossos showrunners, principalmente quando eles querem que a audiência comemore a eventual morte de tais personagens pelas mãos de outros tidos como favoritos, minimizando assim culpa destes últimos pelo assassinato.

Em O Festim dos Corvos, Jaime lamentou ver que os Darry estavam cultivando sua última colheita, e que seria quase impossível para eles se prevenirem contra o inverno vindouro. Aqui, o vemos disposto a colher cada grão de cada campineiro, simplesmente porque Cersei ordenou. Não há dúvidas de que, no inverno e na guerra, vemos o pior lado dos homens, mas Jaime foi, no mínimo, hipócrita ao julgar a violência tirânica de Randyll com seu chicote, se o vemos ali, disposto a fazer o mesmo, deixando pessoas passando fome. Esse tema dos grãos e alimentos, mesmo que levantado tão tardiamente na série, é muito interessante. Impossível deixar de comparar a maneira como Sansa e Jaime lidam com a situação.

Tudo isto alimentou minha tensão no emocionante clímax do episódio. A maior vantagem de ter baixas expectativas é ficar mais surpreso que a maioria quando algo realmente bom é entregue. Por muito tempo, os fãs esperaram que Daenerys soltasse seus dragões e dothraki sobre os adversários, mas a euforia do momento foi minimizada pela “infeliz” presença de Jaime e Bronn no campo de batalha. A inclusão de Tyrion na sequência foi sábia, pois ele traduziu o sentimento de grande parte dos que estavam assistindo às cenas. Peter Dinklage é um dos grandes tesouros dessa série e, mesmo que ele tenha sido instrumental na libertação do lado “fogo e sangue” de Daenerys, é impossível não pensar que ele deveria estar se sentindo um lixo ao observar que não pôde evitar que aquela destruição monumental acontecesse.

Inclusive, a proficiência estrutural do segmento não seria nada sem as pontuais contribuições dos personagens ao longo do caminho. O olhar culpado da Mão de Daenerys, ao ver soldados de sua própria família serem queimados daquela maneira ecoou a reação dele à explosão de fogovivo na Batalha da Água Negra.

Como vimos na cena do primeiro episódio envolvendo Arya Stark e os soldados da Casa Lannister, muitos daqueles homens são apenas pessoas comuns que acabam pagando um preço alto pelos jogos violentos dos grandes senhores. Por outro lado, o Tyrion da série parece sempre estar passeando entre as narrativas do contraditório e terrível Lannister dos livros, e o herói bondoso, sábio e doce de Dinklage. Afinal, ele conseguiu fazer exatamente o que queria. Se aliou a rainha com os melhores ideais, para voltar à sua terra de origem e concluir a traição que planejou contra a própria Casa.

Graças à mão perdida de Jaime, todo o heroísmo da batalha caiu sobre os ombros de Bronn, que foi encarregado de operar o scorpio contra Drogon. Considerando que os dragões são uma das principais esperanças do reino contra o Rei da Noite, posso estar sendo egoísta ao afirmar que, em nenhum momento, eu deixei de torcer pelo Bronn. Um bom personagem interpretado por um ator real é, para mim, mais valioso que um dragão virtual, por mais extraordinário que ele pareça.

A batalha propriamente dita foi uma maravilha narrativa e técnica, com efeitos visuais quase impecáveis e uma cinematografia de cair o queixo. Drogon nunca foi tão grandioso e ameaçador, e o mesmo pode ser dito de sua mãe. O travelling frontal que acompanhou Bronn enquanto ele atravessava a névoa da guerra foi inquietante, mas serviu para enfatizar o desespero e a competência do mercenário, que se manteve fiel à sua tarefa.

Do cenário às carruagens, tudo foi uma grande homenagem aos clássicos western, com os cowboys (Lannisters e Tarlys) enfrentando os indígenas (dothrakis). Na verdade, essa comparação – feita pelos próprios produtores no vídeo de bastidores – é discutível se pensarmos que, na batalha em questão, os Lannisters são os nativos defendendo suas terras dos invasores. Aliás, essa foi a primeira vez na série que vimos os senhores dos cavalos serem retratados com a justiça que eles merecem – ainda que muito pouco humanizados. Como o Rei Robert disse certa vez, “somente um tolo enfrentaria dothrakis em campo aberto”.

Quando Jaime, no auge de sua insensatez heroica, enxergou a oportunidade de matar a filha de Aerys, ele não hesitou em arriscar a própria vida pela chance de acabar com a guerra. Cercado pela destruição, Tyrion observou de longe a investida majestosa do irmão, o que resultou em um grande momento para os dois atores.

O Regicida sempre representou a subversão da cavalaria, uma vítima dos próprios juramentos que por muito tempo escondeu suas falhas sob uma fachada carmesim e dourada. Naquele breve momento ele foi o cavaleiro que sempre sonhou ser. Por outro lado, a cena quase sugere que ele poderia ter acertado Daenerys pelas costas, do mesmo jeito que fez com o pai dela. Seja como for, se não fosse pelo Bronn, o Lannister teria sofrido uma morte digna de canções – embora não das mais alegres.

O quadro de Jaime afundando sob o peso da própria armadura foi simbólico (“Quanto mais você possui, mais você pesa”), e lembrou bastante a passagem por Valíria no episódio “Kill the Boy”, onde Tyrion quase sofreu o mesmo destino do irmão. A estranha calma da última cena encerrou com ar enigmático o episódio mais sólido, terrível e triunfante da temporada até então. 

Daenerys teve provações dificílimas em sua vida. Pessoas queimaram e seus gritos não deveriam ser esquecidos ou celebrados. Mirri, Pyat Pree, Kraznys, os khals, a garota Zalla em Meereen, e todos os soldados da antiga Baía de Escravos, que também eram esmagados pelos aros da roda do poder. Com isso, retomo o questionamento da introdução desta análise. Dragões sempre foram a glória e a perdição do mundo de gelo e fogo. Onde está o limite do nosso deslumbramento ao ver coisas queimando ao pó? Se você escolher queimar tudo para vencer suas batalhas, o que restará do mundo para você?


Notas Finais

✖ Spoilers of WarApesar dos vazamentos, o episódio bateu um novo recorde de audiência. Ainda assim, eu sinto por aqueles que viram o Campo de Fogo 2.0 pela primeira vez em baixa resolução.

✖ História & Repetição: O Campo de Fogo foi a batalha decisiva que fez com que os Lannisters dobrassem o joelho para Aegon Targaryen. A Casa Gardener, que governava sobre a Campina na época, foi inteiramente extinta enquanto os Tyrell, seus vassalos, foram recompensados com a senhoria daquelas terras por terem apoiado o Conquistador.

Para saber mais, assista aos vídeos da série História & Tradição (aqui e aqui).

✖ Canção de Gelo e Fogo: O trabalho de Ramin Djawadi foi, como sempre, a cereja no bolo de vários dos bons momentos que vimos no episódio, com destaque para a trilha que embalou as cenas da caverna. Jon e Daenerys terão um tema específico, e é claro que terão. David e Dan confirmaram que eles começaram a sentir atração um pelo outro ali.

✖  A adaga de Chekhov: A adaga de aço valiriano dada à Bran neste episódio foi vista pela última vez na mesa de Eddard e, na série, NÃO FOI A MESMA usada por Mindinho quando ele traiu o Stark (o que não quer dizer que ele não tenha recuperado o objeto mais tarde).

✖  Caos é uma escada: Na quinta temporada, Mindinho prometeu a Cersei que usaria os Cavaleiros do Vale para tomar Winterfell para si. Me pergunto o quanto dessa promessa era verdade.

✖ Outside the EpisodeNo Inside the EpisodeDavid e Dan afirmaram que o retorno de Arya foi inspirado no de Odisseu, que depois de voltar da sua longa jornada, foi reconhecido apenas pelo seu cachorro, Argos. Que falta faz um lobo gigante nessas horas. Inclusive, é interessante perceber que Arya claramente não precisa mais implorar por abrigo, como aconteceu em Porto Real e na Casa do Preto e Branco.

✖  “Ninguém”: Quando viu Brienne pela primeira vez no episódio “The Children”, Arya perguntou quem ensinou ela a lutar. Nesse episódio, nós vimos o inverso, e a resposta de Arya tornou a referência ainda mais brilhante.

Notável também foi o fato de que a atriz Maisie Williams, destra na vida real, utilizou a mão esquerda no embate para se manter fiel à personagem dos livros.

Arya tirou a mão direita do punho e limpou a palma suada nas calças. Segurou a espada com a mão esquerda. Ele [Syrio Forel] pareceu aprovar.
– A esquerda é boa. Tudo o que seja invertido atrapalhará mais seus inimigos. Mas está na posição errada. Vira o corpo de lado, isso, assim. Você é magro como o cabo de uma lança, sabia? Isso também é bom, o alvo é menor. Agora, o modo de agarrar. Mostre-me.
A Guerra dos Tronos, Capítulo 22, Arya II

✖  “Obrigado”: Aparentemente, o roteiro vazado do episódio confirmou a saída de Meera da série, o que, se for verdade, será um grande problema de continuidade.

✖  Insubmissos, Não Curvados, Não Quebrados e Não Lembrados: A afirmação de que Dorne “foi perdida” é, ao menos em parte, incorreta. Se Ellaria foi capturada a caminho de Lançassolar (o que não ficou muito claro), seu exército ainda existe. As filhas mais novas de Oberyn – previamente citadas na série – poderiam manter o apoio a Daenerys sob a promessa de que sua mãe seria resgatada. Eu duvido que a série forneça qualquer resposta em relação a isso.

✖  Cuspiu fogo no prato que comeu: Se Daenerys está tendo dificuldades para alimentar seu grande exército, por que queimar os carros com suprimentos da Campina?

✖ O primeiro do Robert: Parte da fala de Robert no episódio “Lord Snow” (a mesma citada no início do texto) parece descrever exatamente o que houve entre Jaime e Daenerys:

“Meu cavalo tomou uma flecha, e então eu estava a pé, tropeçando pela lama. Ele veio correndo em minha direção, o burro garoto, pensando que poderia acabar com a rebelião com um único brandir de sua espada”.

✖ Estrada do Ouro: De acordo com a sinopse oficial da HBO, a batalha entre Daenerys e Jaime ocorreu ao longo da Torrente da Água Negra, o que significa que a esta altura, Jaime já estava próximo a Porto Real.

✖  Seje menas: A princesa Shireen pode ter ensinado Davos a ler, mas a gramática ele aprendeu com o Stannis.

✖ Valar Morghulis: Com este episódio, temos cinco personagens importantes portando armas de aço valiriano. As batalhas finais que veremos na próxima (e última) temporada já estão com o line-up quase definido:

  • Jon Snow – com Garralonga
  • Samwell Tarly – com Veneno de Coração
  • Jaime Lannister – com Lamento da Viúva
  • Brienne of Tarth – com Cumpridora de promessas
  • Arya Stark – com a adaga

O Podcasteros do episódio deverá sair em breve.

Compartilhe:

Ao comentar no site você aceita as regras previamente estabelecidas.

Posts Relacionados