Sam Tarly na Cidadela: vidro de dragão e escamagris

Durante o primeiro episódio da 7ª temporada de Game of Thrones, “Dragonstone”, Samwell Tarly rouba um livro da “seção restrita” da Cidadela de Vilavelha, onde descobre (ou mais exatamente, é lembrado) de um local em Westeros onde obsidiana, também conhecida como vidro de dragão, existe em abundância: a ilha de Pedra do Dragão, sede ancestral da Casa Targaryen.

Ocorre que um usuário do reddit atentou-se para os livros que Sam lê, e o conteúdo deles é bastante interessante. No livro que trata do vidro de dragão, há aparentemente menção a um tratamento para a escamagris, doença contagiosa que atingiu Shireen Baratheon e da qual sofre agora também Jorah Mormont, cativo em uma cela na Cidadela. Não é possível ler muito do texto na tomada que foi ao ar, mas pode-se depreender que o método de tratamento incluiria a ingestão de vidro de dragão esmigalhado em um fino pó. O meistre que compilou essa informação, porém, não dá a ela muita credibilidade.

Um possível tratamento para escamagris é descrito na página da esquerda.

Diante disso, faremos uma recapitulação sobre tudo o que se sabe até o momento sobre a escamagris e o vidro de dragão – desta vez, fazendo algo de que não gosto muito, que é misturar os cânones dos livros e da série de TV. No fim, uma menção a outro livro encontrado na Cidadela.

 

Escamagris

A escamagris é uma doença que dá à pele de uma pessoa um aspecto de pedra, quebradiça e rachada, de cor escura ou cinzenta, e deixa a carne rígida e morta. Comum em climas úmidos e frios, é comum em crianças. A patologia tem uma versão mais virulenta, que pode levar à morte, chamada também “praga cinzenta” (na versão brasileira de O Festim dos Corvos) ou “morte cinza” (em A Dança dos Dragões) greyscale, no original, em inglês. A palavra “gris” é um sinônimo para cinza.

A versão fatal da escamagris afeta primeiro as extremidades do corpo, sendo perceptível pelo escurecimento de algum dedo ou perda do tato. A “petrificação” se espalha, então, pelas mãos ou braços do indivíduo, que deixa de sentir os membros, e estes se tornam acinzentados. Se atingir o rosto, lábios e língua podem ser afetados também, além de causar cegueira. É dito que a doença é indolor, mas que todas as vítimas enlouquecem perto do fim. Crianças que contraem a versão mais branda da escamagris e sobrevivem ficam desfiguradas, mas tornam-se imunes a sua forma fatal.

Os roinares confrontam os valirianos. Ilustração de Chase Stone para “O Mundo de Gelo e Fogo”.

A doença é também conhecida como a “Maldição de Garin”, um príncipe roinar que lutou contra Volantis e Valíria na Segunda Guerra das Especiarias (aproximadamente mil anos antes dos eventos das Crônicas de Gelo e FogoGame of Thrones). Garin foi capturado em batalha pelos valirianos, e suspenso numa jaula sobre o Rio Roine, em Chroyane, para assistir seu povo ser escravizado. A lenda diz que ele chamou a Mãe Roine, a deusa principal dos roinar, para destruir os valirianos, o que teria acontecido na forma de uma enorme enchente em Chroyane e uma névoa, com os valirianos morrendo de escamagris.

A região então passou a ser conhecida como os “Sofrimentos”, e permanece em estado perene de névoa, com inúmeros habitantes infectados com escamagris, chamados “homens de pedra”. A comitiva de Aegon “Jovem Griff” Targaryen passa pela região em A Dança dos Dragões, e é atacada pelos homens de pedra, com Tyrion Lannister caindo nas águas potencialmente infectadas e sendo resgatado por Jon Connington. O anão não foi infectado pela escamagris, mas Jon não teve tanta sorte e contrai a doença, mantendo esse fato em segredo de outras pessoas.

Tyrion cai nas águas do Roine. Ilustração de Winona Nelson. © Fantasy Flight Games.

Essa situação, naturalmente, não foi adaptada ipsis litteris em Game of Thrones, uma vez que Jon foi excluído da série. Entretanto, uma situação similar ocorre no episódio “Kill the Boy” (o quinto da quinta temporada), quando Jorah Mormont tem Tyrion cativo e pretende levá-lo, de barco, até Meereen. Em um determinado momento, eles passam pelas ruínas de Valíria (que na TV se parece bastante com Chroyane), e homens de pedra os atacam, com Tyrion também caindo na água. Como nos livros, ele é resgatado e não contrai a escamagris, mas Jorah sim.

Como ocorre com Connington, a doença gradualmente se espalha pelo braço de Mormont, e ele, após reencontrar-se com Daenerys Targaryen, confessa a ela que está infectado. Em “The Door”, Daenerys dá a Jorah a missão de encontrar uma cura e retornar a ela. Finalmente, em “Dragonstone”, descobre-se que ele foi à Cidadela buscar tratamento.

Jon Connington e a escamagris. Ilustração de Daniel Clarke. © Fantasy Flight Games.

A escamagris se alastra pelo braço de Jorah Mormont na 6ª temporada de ‘Game of Thrones’.

Até o momento, entretanto, dentro de qualquer dos cânones, seja dos livros ou da série de TV, não havia um tratamento tido como efetivo para a escamagris. Os meistres diziam que o progresso da doença poderia ser contido com banhos escaldantes ou de mostarda, também sugerindo limões, cataplasmas de mostarda. Acredita-se também que a amputação dos membros afetados pode impedir o avançado da doença, o que não é garantido, porém. Segundo o vídeo “História e Tradição” Greyscale & the Stone Men, presente no Blu-ray da 5ª temporada:

“Aqueles que foram milagrosamente curados da escamagris são poucos e sujeitos a tantos tratamentos que isolar a cura responsável é impossível. Além disso, poucos meistres, sacerdotes ou curandeiros têm a coragem para tais experimentos que provassem uma cura. A escamagris é altamente contagiosa, sendo conhecida por ser transmitida pelo mínimo contato com uma pessoa infectada.”

Figuras conhecidas, no cânone dos livros, que contraíram a patologia e morreram em decorrência dela incluem Harlon Greyjoy (irmão de Balon, Euron, Victarion e Aeron), que morreu quando menino, e Maegelle Targaryen (filha de Jaehaerys I e Alysanne), que se tornou uma septã e tratava crianças que sofriam de escamagris, mas acabou ela mesma contaminada.

Shireen Baratheon, por Sarah Biddle. © Fantasy Flight Games.

Os livros não mencionam como Shireen Baratheon teria contraído a doença, mas a série de TV apresenta sua versão: em “Sons of the Harpy”, quarto episódio da quinta temporada, Stannis revela que a escamagris veio com um brinquedo comprado para Shireen de um navio mercante dornês. O consenso era que a menina morreria da doença, e Stannis foi aconselhado a enviá-la para viver nas ruínas de Valíria, mas ao invés disso levou inúmeros meistres e curandeiros a Pedra do Dragão para tentarem uma cura. Não se sabe ao certo como, mas o avanço da escamagris cessou, deixando apenas a face de Shireen desfigurada.

O cenário descrito no “História e Tradição” é exatamente o que ocorreu com Shireen, sendo impossível estabelecer qual dos tratamentos, se algum, foi o responsável pela cura. Nos livros, essa situação não é mencionada, aparentemente não sendo tão raro que crianças sobrevivam à doença.

A nova informação, porém, se confirmada como efetiva para Jorah na série, pode ser possível também nos livros, sendo coerente com a cura de Shireen. O fato de a menina ter vivido em Pedra do Dragão durante toda a vida pode ter significado que ela foi involuntariamente tratada com o método descrito no livro da Cidadela, estando exposta e ingerindo partículas de obsidiana durante todo o tempo.


Obsidiana

A obsidiana é um material existente no mundo real, mas sua versão nas Crônicas de Gelo e FogoGame of Thrones é um tanto diferente. Os livros nos dizem que ela é popularmente chamada de “vidro de dragão” pelos comuns, que dizem que ela é feita pelos próprios dragões. Os meistres, porém, dizem que vem dos “fogos da terra”. O livro da Cidadela em “Dragonstone” compila muitas informações sobre o material presentes nas Crônicas:

A primeira menção à obsidiana nos livros de George R. R. Martin veio ainda em A Guerra dos Tronos, quando Meistre Luwin mostra a Bran, Rickon e Osha algumas pontas de flecha feitas do material. Osha é a primeira a chamá-lo “vidro de dragão”, e confirma a informação de Luwin de que os filhos da floresta não trabalhavam nenhum metal, sempre utilizando esse material para caçar e em suas armas.

No livro seguinte, Jon Snow encontra no Punho dos Primeiros Homens um pacote com facas, adagas, pontas de lanças e flechas feitas de obsidiana, com as quais presenteia alguns de seus colegas patrulheiros (ainda sem saber de qualquer propriedade do material). Na série de TV, a descoberta é feita por Samwell, Grenn, e Edd Tollett.

Em A Tormenta de Espadas, Sam usa uma das adagas para atacar um Outro montado em um cavalo, e assim descobre essa propriedade do vidro de dragão. Essa cena também ocorre em “Second Sons”, episódio da terceira temporada da série de TV.

A informação do uso do material como espécie de antídoto para a escamagris é uma novidade, mas a outra informação que Sam “descobre” nos livros da Cidadela, não: tanto nos livros quanto na própria série de TV, Stannis Baratheon se interessa pelo fato de que Sam matou um Outro (ou White Walker) com obsidiana, e menciona que em Pedra de Dragão (sua sede), o material ocorre em abundância. A reação dele, porém, é fundamentalmente diferente nos dois meios. Leia a passagem do capítulo 78 de A Tormenta de Espadas:

Stannis, portanto, preocupado em combater o que ele considera “o único inimigo que importa”, os Outros, ordena que o castelão de Pedra do Dragão, Sor Rolland Storm, comece a minerar a obsidiana. Aqui, naturalmente, ocorre mais uma diferença em relação à série de TV, visto que originalmente Stannis não deixou o castelo desabitado, mas populado com uma pequena força. No já mencionado episódio “Kill the Boy”, uma conversa similar tem lugar entre Stannis e Sam, mas o rei apenas diz ao jovem que continue pesquisando sobre o assunto, e não faz qualquer menção a ordenar seus homens que extraiam o vidro de dragão.

Em O Festim dos Corvos, Sam encontra na biblioteca de Castelo Negro a informação de que os filhos da floresta costumavam presentear a Patrulha da Noite com cem adagas de obsidiana a cada ano. Nesse livro, descobre-se também que as “velas de vidro” da Cidadela são feitas de obsidiana.

Um meistre e uma vela de vidro, do ‘Histories & Lore’ da HBO.

Aqui, um parêntese para falar desses objetos, itens mágicos que aparentemente permitem a alguém ver e possivelmente se comunicar com locais distantes. Pate, o novato da Cidadela dono do prólogo de O Festim dos Corvos, menciona que o teste final de um acólito antes de se tornar meistre é passar uma noite em vigília em um quarto apenas com três velas de vidro. Ele deve passar a noite no escuro a não ser que consiga acendê-las (o que não ocorre). Em tese trata-se de uma lição de que nem todo conhecimento adquirido pode realizar algumas coisas.

Ainda no segundo livro, porém, em Qarth, Xaro Xhoan Daxos havia informado Daenerys que as velas de vidro na casa de um certo Urrathon Night-Walker, que não queimavam havia cem anos, recentemente haviam se acendido. Aemon Targaryen, em seus sonhos delirantes no leito de morte sobre Daenerys e ovos de dragão, menciona também “uma vela que não podia ser acendida”. Quando Sam chega à Cidadela, encontra uma vela de vidro queimando no escritório do Arquimeistre Marwyn, por meio da qual, aparentemente, ele e Alleras sabiam que o patrulheiro estava indo a Vilavelha. Em A Dança dos Dragões, a umbromante Quaithe aparece em uma espécie de visão para Daenerys e diz que “as velas de vidro estão queimando”, aparentemente fazendo uso exatamente de uma delas.

Nada disso está na série, porém, e a menção seguinte à obsidiana nesse meio ocorre em “Hardhome”, na quinta temporada, quando Jon Snow dá aos selvagens as armas do material para convencê-los a irem para o sul. Quando os White Walkers e criaturas atacam, porém, a maior parte do estoque de vidro de dragão é perdido.

No quinto episódio da sexta temporada, uma revelação da série em relação aos livros: em “The Door”, Bran Stark, por meio de suas visões, descobre que o vidro de dragão é o material utilizado pelos filhos da floresta para transformar humanos em White Walkers. Na batalha na caverna do Corvo de Três Olhos, a armadura de um Walker o protege de uma lança de obsidiana usada por um filho da floresta, mas quando atingido no pescoço desprotegido com o material o ser se desfaz.

Mais tarde, Benjen Stark revela que após ser ferido por um White Walker e deixado à beira da morte, foi salvo pelos filhos da floresta, que o transformaram em uma criatura aplicando nele o mesmo processo de criação dos Walkers: inserção de vidro de dragão no coração. É possível teorizar que esse seja o mesmo método utilizado para a “ressurreição” do Mãos-Frias da série de livros (que não é Benjen Stark).

Além da menção à possível cura da escamagris com o vidro de dragão e de seu uso pelos Filhos da Floresta, o livro que Sam encontra na Cidadela menciona também várias das informações dos livros que foram citadas aqui (incluindo as velas de vidro e a tradução que Melisandre faz da palavra para designar o material em valiriano):

A lâmina de Mindinho, retratada no livro da Cidadela em ‘Dragonstone’.

Esse livro contém também um desenho da adaga de aço valiriano de Mindinho, utilizada na tentativa de assassinado de Bran Stark ainda na primeira temporada, sendo ela possivelmente um exemplo de arma cuja empunhadura foi incrustada com a obsidiana. Cabe lembrar que em fotos promocionais da sétima temporada, Arya Stark é vista portando a adaga em questão.

A importância crescente do vidro de dragão nesse universo é, portanto, inegável, em todos os âmbitos: mortal quando em contato com os Outros, matéria-prima para artefatos mágicos como as velas de vidro, utilizado para a transformação de humanos em White Walkers ou magias similares (como Benjen) e possível antídoto para a escamagris. George R. R. Martin já foi questionado sobre o “vidro de dragão” (há um bom tempo, em 2005), e disse o seguinte:

(Shaw, Robert. Interview with the Dragon. Fountainhead Quarterly. 2003.)

A adaga de obsidiana da Valyrian Steel.

 

 

Mais informações a respeito do material certamente surgirão, mas enquanto isso os fãs podem se deleitar com as réplicas da Valyrian Steel, fabricante de armas licenciada por GRRM e a HBO, que vende um “kit” de adagas da Patrulha da Noite, feitas com obsidiana de verdade, por 220 dólares. Entre outros itens, eles também fabricam e vendem a adaga de aço valiriano de Mindinho mencionada.

Diversas teorias a respeito do material já foram criadas, incluindo uma que acho das mais divertidas que já surgiram na Internet (e que prova que é possível se conseguir argumentos para fundamentar, pelo menos na aparência, qualquer coisa): a de que o vidro de dragão é, na verdade, cocô de dragão. Brincadeiras à parte, estando relacionada tanto com a magia de fogo quanto com a de gelo e cada vez mais mencionada, a obsidiana parece estar envolvida no “grande mistério” das Crônicas e de Game of Thrones.


Outro livro na Cidadela

Ainda em “Dragonstone”, entre os livros que Sam recolheu da biblioteca, está Legends of the Long Night (“Lendas da Longa Noite”), que é lido por Gilly. A capa do livro parece retratar o Rei da Noite com uma espada, e seu conteúdo é uma cópia exata de uma passagem de O Mundo de Gelo e Fogo:

A passagem, presente no capítulo “A Longa Noite” da seção “História Antiga” do Mundo, diz o seguinte:

Encontrou mais alguma coisa interessante “escondida” no episódio “Dragonstone”? Quer discutir sobre a importância da obsidiana ou a de Jorah Mormont (que deve ter algum papel bastante relevante para ter sobrevivido até essa altura)? A caixa de comentários abaixo está aberta (e moderada).

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