Análise do episódio 6.10: “The Winds of Winter” (Season Finale)

LEIA: Muitos provavelmente questionaram o atraso desta análise – que não foi escrita por George R. R. Martin –, mas o motivo, nas verdade, é bem simples: não houve atraso. Depois de alguns comentários decepcionantes que li na semana passada, resolvi desistir desses textos, como disse em resposta a alguns leitores, que aparentemente me ignoraram e continuaram pedindo. Enfim, graças aos pedidos incansáveis e encorajadores dessas pessoas (e aos prints que meus amigos me mandavam de todos eles), decidi voltar atrás e, pelo menos, terminar essa temporada. Sem mais delongas, vamos lá. Espero que gostem.

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Desde 2011, todos os finales de Game of Thrones serviram, principalmente, como uma preparação para o ano seguinte, o que nas primeiras temporadas significou episódios nove que eram puro fogovivo, enquanto no útlimo, os sobreviventes recolhiam os cacos e as peças eram movidas ao longo do tabuleiro. No entanto, com o tempo, esse processo tornou-se mais dramático e menos regular. Na quarta temporada, enquanto o nono episódio foi totalmente centrado na Batalha de Castelo Negro, o season finale foi cheio de reviravoltas, como a morte de Tywin, a prisão dos dragões, a chegada de Bran à caverna do Corvo de Três Olhos e a partida de Arya para Bravos. No ano seguinte, por mais inesquecível que tenha sido a morte de Shireen e a chegada de Drogon na Arena de Daznak, os momentos mais impactantes foram distribuídos entre o último episódio e o oitavo, “Hardhome”, conduzido primorosamente pelo meistre Miguel Sapochnik.

Falando nele, o diretor provou mais uma vez que é, de longe, o melhor no time de David Benioff e D. B. Weiss – e certamente um dos melhores na televisão. Depois de ter quebrado recordes (e a internet) com “Battle of the Bastards”, o cara nos presenteou com o espetacular “The Winds of Winter”. Enquanto o primeiro foi majoritariamente focado na figadal violência da Batalha de Winterfell, o segundo se expandiu, cobrindo quase todos os núcleos da série, fazendo excelente uso de seus 67 minutos.

A longa duração aliada à direção e roteiro eficazes culminaram nesse grand finale que foi grande em todos os sentidos. Porém, em vez de mover as peças de lugar no tabuleiro, “The Winds of Winter” simplesmente removeu boa parte delas, reorganizando as que restaram para a nova (e última) jogada. Ao longo da temporada vimos muitos arcos se mesclarem, reduzindo a história ao essencial. De uma forma ou de outra, todos os personagens foram arrastados, se debatendo e aos gritos, para onde quer que eles precisem estar, mesmo que os atalhos escolhidos para isso fossem, muitas vezes, questionáveis.

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Esse não é bem o caso de Cersei, então vamos começar por ela.

O episódio iniciou em Porto Real, com um mini filme de 20 e poucos minutos que, literalmente, abalou as estruturas dos Sete Reinos. Além de atuações impressionantes, vimos as técnicas de luz e câmera, coroadas pelo majestoso som de “Light of the Seven” construírem lentamente a tensão apropriada para o clímax implacável. Em outras circunstâncias, eu até concordaria que piano e corda, assim como o vestido de Cersei, não fazem muito o estilo de Game of Thrones, mas com essa sequência, Ramin Djawadi ultrapassou todas as barreiras. A maneira como a música evoluiu de um tema melancólico (como as melodias compostas por Max Richter ou Philip Glass) para algo mais enérgico e nefasto (que lembrou Toccata and Fugue do Bach, exemplo clássico de uso do órgão) foi fenomenal! Uma verdadeira obra-prima!

Seguindo o exemplo de figuras como Don Vito Corleone Maegor, o Cruel, Aerys Targaryen e o próprio Tywin Lannister (em quem sua vestimenta parece ter sido inspirada) Cersei detonou uma adega de fogovivo escondida sob o Grande Septo, eliminando, com esse único movimento, seus principais opositores: a Fé e os Tyrell. Isso sem falar do próprio tio, Kevan Lannister, que tinha se apropriado do poder na corte, e do primo, Lancel, que foi seu amante na primeira temporada. Com isso, Tyrion e Varys são as únicas pessoas vivas que sabem da infidelidade de Cersei (?), podendo revelar esse segredo a Jaime em algum momento no futuro (algo que já aconteceu a essa altura dos livros).

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Confesso que fiquei bem triste ao ver Margaery partir em meio a outros personagens como Loras, Kevan, Mace, Lancel e o próprio Pycelle – que claramente não passavam de nomes a serem riscados da lista de D&D no primeiro momento oportuno. Além de ser uma beldade, Natalie Dormer era realmente uma das melhores atrizes no elenco. Em um piscar de olhos, todos os planos e esquemas promissores da rainha viraram cinzas. Contudo, essa maneira cruel de matar personagens, sem nenhuma consideração por suas ambições, é uma das marcas de Game of Thrones. Como Tarantino disse certa vez: “You don’t go to see Metallica and ask the f***ers to turn the music down. ”

Mesmo sem Natalie, a falta de boas atrizes está longe de ser um dos problemas da adaptação. Lena Headey que o diga. Assim como Sapochnik, essa mulher merece um Emmy desde o ano passado. A própria Cersei teve um crescimento absurdo dos últimos anos para cá, passando de uma personagem detestada para uma com um grande número de torcedores. Mas ao contrário do irmão gêmeo, que se tornou um “favorito” por meio da redenção, a Rainha Louca Mãe só precisou de um inimigo que o público odiasse mais do que a ela. E que inimigo. Jonathan Pryce foi firme no papel até o fim. A forma como as câmeras filmavam ele de baixo, colocando-o no mesmo patamar das estátuas dos deuses presentes no Septo, mostra que, talvez (talvez), o líder religioso fosse mesmo aquilo que dizia ser.

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No entanto, a vingança de Cersei não se restringiu ao Alto Pardal. Enquanto a explosão de fogovivo foi uma jogada política, a tortura de Unella foi pessoal, como o roteiro destacou. Em uma entrevista recente, Headey deixou escapar que o verdadeiro destino da Septã foi muito pior do que aquele exibido. Cersei prometeu que seu rosto seria a última coisa vista por Unella antes dela morrer, então é possível que ela tenha mandado Gregor Clegane arrancar os olhos da mulher. Graças a um certo príncipe dornês, sabemos o quanto o Montanha é bom nessa tarefa.

Embora Tommen tenha sido chamado de rei, ele foi um mero peão, vítima de jogadores maiores que ele. Na verdade, tirar a própria vida deve ter sido uma das poucas escolhas que o rei fez por conta própria – o que não torna sua morte menos triste. A forma como ele se atirou da janela (no que parece ter sido uma referência ao filme “Ida”) foi chocante. Pobre rapaz. Ele certamente não tinha muito mais a oferecer como personagem, mas tudo que desejou, em vida, foi fazer o certo para todo mundo, unindo a Fé e a Coroa numa tentativa tola de trazer paz à capital e seu povo.

Essa aliança forma um paralelo simbólico com o suicídio do rei, que tira a coroa da cabeça antes de encontrar seu destino, enquanto o Grande Septo de Baelor, maior símbolo da fé, queima ao fundo. Como “os dois pilares que sustentam o mundo”, um dificilmente conseguiria aguentar esse grande peso sem o outro.

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(Assim como a explosão do Septo de Baelor parece ter sido concebida a partir da queimada do Septo da Memória, o suicídio de Tommen lembrou bastante as mortes de Helaena Targaryen e da própria Ashara Dayne.)

Finalmente, depois de um arco que todo mundo provavelmente esqueceu, Samwell, Gilly e Júnior chegam a outro grande pilar da sociedade westerosi: Alexandria a Cidadela, núcleo de treinamento dos meistres, onde todo o conhecimento dos Sete Reinos fica concentrado… exceto, aparentemente, o conhecimento acerca da Patrulha da Noite, que é basicamente o que Sam foi procurar. Como diabos os caras não sabem da morte do Velho Urso quando até Jorah, a meio mundo de distância, já ficou sabendo? “A vida é irregular”. Sim. Claro.

Enquanto a cena funcionou mais como alívio cômico e uma introdução para o que veremos ano que vem, o interior da grande biblioteca, decorada com astrolábios dentre os quais está aquele que vemos na abertura da série, foi de cair o queixo. Um tanto megalomaníaco e anacrônico talvez (alguém disse steampunk?), mas extraordinário. Os produtores poderiam ter empurrado o fim dessa jornada para o primeiro episódio da sétima temporada, mas fiquei feliz em ver que não o fizeram. Por mais curta que a sequência tenha sido, eu a recebi como um presente, que serviu também para nos manter interessados nesse arco até 2017. E quem não ficou admirando aquela maravilha com a mesma surpresa no olhar do Sam?

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A menção ao arquimeistre também me fez gelar. Será que veremos Marwyn, o Mago, e, quem sabe, uma versão simplificada da famosa “conspiração” dos meistres? Como fã desse plot nos livros, mal posso esperar para ver como ele será abordado na série. Uma mistura de ansiedade e medo.

Voamos para Winterfell nas asas de um dos corvos brancos que deixaram a Cidadela. Lá, o antigo Senhor Comandante de Sam, já livre do seu juramento à Patrulha, conversa com Melisandre sobre o tratamento que recebia como filho bastardo de Ned Stark. Bons tempos. Então, os dois são interrompidos por sor Davos, que FINALMENTE confronta a Mulher Vermelha sobre a morte de Shireen. Antes tarde do que nunca, nós esperamos 10 episódios por esse acerto de contas, e valeu a pena. Liam Cunningham é bom no que faz, e aqui ele mostrou o seu melhor. Que ator! Carice van Houten também. Quem não sentiu pena de Mel quando ela confessou, quase chorando, que estava errada em relação à Stannis. Por mais que a morte de Shireen tenha sido cruel, eu fiquei feliz que Jon tenha concedido misericórdia à sacerdotisa.

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Enquanto Jon assistia à partida da mulher que o ressuscitou episódios atrás, a mulher que salvou sua vida no episódio anterior se aproximava. Depois de tanto tempo separados por fatores externos, os Starks jamais deveriam ser colocados um contra o outro. Ainda assim, é exatamente isso que deve acontecer, como o próprio enquadramento da cena evidenciou, mostrando os dois irmãos separados por um muro de pedra. É difícil imaginar o que está se passando na cabeça de Sansa em cada uma de suas cenas. Nas ameias, ela se desculpou por não ter sido sincera quanto aos Cavaleiros do Vale, fazendo as pazes com o irmão e duas referências ao pai quando menciona a chegada do inverno e o fato de que “só os tolos confiam em Mindinho”. Essa doeu, Ned. Doeu quase tanto quanto o gelo que ela deu em Lorde Baelish no Bosque Sagrado.

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Como eu já disse, se considerarmos tudo o que Sansa passou, ela tem todo o direito de desconfiar daqueles à sua volta. Principalmente os homens. Sabemos que Jon é um dos “mocinhos”, mas isso garante que ele poderá protegê-la? Ela pode ter ficado com a chave para o quarto dos pais, mas, no final, quem ficou com a chave para o Norte foi o bastardo, mostrando que Mindinho não estava inteiramente errado quando tentou puxá-la para o lado negro da Força ao revelar sua ambição de conquistar o Trono de Ferro. Depois de tudo isso, não dá pra dizer se Sansa estava realmente feliz com a aclamação do meio-irmão ou se ela ainda pensa em ter um exército que seja leal a ela.

Diante de ameaças como os Caminhantes Brancos no norte e as loucuras de Cersei no sul (ou será que ela esqueceu a traição de Mindinho e Sansa?), os homens do Norte e do Vale precisavam de um novo líder. E ninguém melhor para elegê-lo sem levantar questionamentos do que a nossa favorita Lady Lyanna Mormont. Após um discurso digno de roteiristas ganhadores do Emmy, que consistiu basicamente de uma série de colagens de frases impactantes como “O Norte se Lembra” e “…será meu rei, deste dia até seu último dia e blá, blá, blá” (até a carta que ela escreveu para Stannis foi enfiada no meio da pregação), a pequena Senhora da Ilha dos Ursos escolheu Jon, imediatamente ganhando o apoio dos nortenhos, que ecoaram a cena do episódio “Fire and Blood”, onde Robb foi coroado de maneira semelhante.

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Existem vários motivos pelos quais eu preferia que Sansa fosse escolhida Rainha do Norte nessa cena. Mas de que adianta usar argumentos baseados no cânone quando, no universo paralelo de D&D, existe um reino inteiro que é governado por bastardas? E porque não seguir Jon quando até Ramsay foi seguido cegamente por alguns? Além disso, como um mero bastardo, Jon jamais seria um consorte adequado para o casamento político prenunciado para Daenerys.

Mais importante que tudo isso foi a revelação proporcionada pelo novo Corvo de Três Olhos.

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De volta à Torre da Alegria, que visitamos pela primeira vez no episódio “Oathbreaker”, vimos Bran seguir o pai pelas escadas que levavam ao aposento onde Rhaegar Targaryen manteve Lyanna durante a Rebelião de Robert Baratheon. Notaram o foco na espada que Ned colocou sobre a “cama de sangue” da irmã? Era Alvorada, espada de Arthur Dayne forjada do precioso metal de uma estrela caída. Segundo a profecia de Azor Ahai, o salvador renascerá “quando a estrela sangrar” – o que pode significar que, na série, Jon é, de fato, O Príncipe Que Foi Prometido… ou pode ter sido um simples indicativo de que veremos a espada novamente.

Enfim, foi confirmado. R+L=J. Confesso que quase chorei depois de ter assistido algumas vezes essa mesma cena. Não por Jon ou por Ned, mas por Lyanna. O medo que ela sentia por si e pelo filho foi de cortar o coração. Se Robert soubesse da existência de outro filho de Rhaegar, ele certamente o mataria, assim como quis matar Daenerys e Viserys na primeira temporada. Honrado como sempre, e conhecendo a fúria do amigo, Ned manteve sua promessa e guardou esse segredo até da própria esposa.

Parabéns ao departamente de casting, que encontrou um bebê com a mesma carinha de quem não sabe nada do Kit Harington.

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A vitória dos lobos continuou com a aguardada chegada de Arya nas Terras Fluviais, destino que eu previ na análise do episódio “No One”.  Walder Frey certamente mereceu ter a garganta cortada daquela maneira (um espelho claro da morte de Catelyn), mas confesso que sentirei falta de David Bradley. Por mais bem escrito que tenha sido, o diálogo com Jaime jamais seria o mesmo sem a brilhante atuação do velho.

Em “A Dança dos Dragões”, onde o Norte realmente se lembra, Wyman Manderly (que foi visto na cena da aclamação de Jon em Winterfell), supostamente mata alguns Freys como forma de vingar o assassinato do filho no Casamento Vermelho e, supostamente, serve tortas recheadas com a carne dos mortos aos seus parentes, que estão em Winterfell para o casamento de Ramsay e Jeyne Poole. Essa é uma teoria antiga e, embora muito provável, ainda não confirmada nos livros. Talvez a cena tenha sido pensada como um agrado aos leitores, assim como o “fogo e sangue” de Varys e a própria presença do Lorde Wyman, mas, para torna-la possível, foi necessário que, mais uma vez, nossa suspensão de descrença fosse às alturas. Considerando a grande quantidade de Freys perambulando pelo mundo, é difícil acreditar que ninguém viu a servente fatiar dois filhos do Senhor da Travessia na cozinha.

Além disso, quantas etapas da jornada de Arya foram sacrificadas para que ela pudesse riscar esse nome da sua lista? Um reencontro com Nymeria, por exemplo, seria um final igualmente impactante para a personagem esse ano. Por que não deixar a caçada aos Freys para depois? Teria sido muito mais interessante ver Arya planejar a invasão das Gêmeas com a ajuda da Irmandade sem Estandartes (cozinhar a torta poderia ter sido uma ideia do nosso saudoso chef, Torta Quente). Até Gendry poderia se juntar a festa, e não iriam faltar oportunidades para o Cão fazer suas piadas com galinhas. Também queria saber como diabos Arya adquiriu aquele rosto. Ele pertencia a uma garota morta ou a alguém que a própria Arya matou? Sua saída da Casa do Preto e Branco foi justificada pela relutância em matar pessoas inocentes?

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Pelo visto, o que conta mesmo é o CHOQUE™ e o desejo de VINGANÇA™ saciado, independente das circunstâncias. Basta lembrarmos da sorte de Brienne, que estava no local exato, na hora exata, para acabar com a vida de Stannis.

Não precisam me esfaquear como se eu fosse um Gran Meistre em um porão: o momento em si foi vibrante, e a ligação da Torta Frey com a história do Cozinheiro Ratazana (que conhecemos por meio de Bran em Fortenoite) foi bem aproveitada. Contudo, para mim, desembarcar em Westeros e matar Walder Frey logo de cara foi como começar um jogo pelo estágio final.

De acordo com a lenda, o homem, que mais tarde seria conhecido como Cozinheiro Ratazana, era um simples cozinheiro em Fortenoite. Ele se tornara infame quando servira a um Rei Ândalo um empadão, que era feito de bacon e, sem que o Rei soubesse, do próprio filho do Rei. O Cozinheiro matara o filho do Rei, um Príncipe, para vingar-se de um erro que, supostamente, o Rei fizera com ele. O Rei, ignorante do fato, elogiou o sabor e pediu para repetir. Os deuses, mais tarde, brabos pelo cozinheiro ter assassinado um hóspede sob seu telhado, amaldiçoaram-no, e transformaram-no em uma monstruosa ratazana branca, que só podia comer os próprios filhos.

Segundo a estória, ele é uma enorme ratazana branca, e todos os outros ratos que habitam Fortenoite são seus descendentes.

(Trecho retirado da nossa wiki)

Ah, e enquanto se dirigia à Walder em seu disfarce, Arya usou a expressão “my lord” em vez de “milord”, o que lembrou a lição de Tywin na segunda temporada, sobre como fingir ser uma pessoa de baixo nascimento.

O que Arya fará em seguida? Ela partirá para a capital a fim de riscar os dois últimos nomes na sua lista, ou ficará nas Terras Fluviais, para reencontrar os personagens que já cruzaram seu caminho (incluindo nossa querida Melisandre)?

Uma coisa é certa: se a noite é escura e cheia de terrores, Arya Stark de Winterfell agora é um deles.

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No vídeo Inside the Episode, os showrunners explicaram que Arya estava direcionando o olhar para Jaime, mas não por qualquer interesse em deitar-se com ele (como Bronn, obviamente, teve que apontar). Ela estava decidindo se o mataria, mesmo ele estando fora de suas orações.

Seja lá qual tenha sido o motivo de Arya para deixar um Lannister escapar com vida das Gêmeas, a deixa foi necessária para que ele retornasse a capital e visse a ruína causada por Cersei. A última tomada, onde vemos Cersei passar pelas pessoas no Salão (rima visual com a Caminhada da Penitência?) em direção ao Trono de Ferro foi tremendamente impactante. A troca de olhares entre ela e Jaime disse tudo, e foram olhares bem diferentes daqueles que vimos quando ele e Brienne se despediram, em Correrrio. Olhares de medo, talvez? Como alguém que já matou um governante incendiário, o Regicida tem toda a razão de se preocupar ao ver sua amada irmã ocupando a mesma posição.

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De certa forma, a leoa conquistou tudo o que queria, ainda que, para isso, tenha perdido tudo (exceto Jaime). A cena anterior em que ela encarou o corpo de Tommen foi uma das mais comoventes do episódio. Eu sinceramente duvido que ela consiga tirar alguma felicidade desse reinado. Apesar da aparente conquista, Cersei parecia tão arrasada pelo luto que vai governar com punho de ferro para se sentir menos morta por dentro, até o momento em que Jaime, inevitavelmente, cumprirá seu papel de valonqar e matará a rainha.

Se Jaime não der conta do serviço, temos um dragão e uma loba que teriam grande prazer em realizar a tarefa. Isso sem falar no “pequeno irmão”, ou nos milhões de seguidores da Fé dos Sete que podem se revoltar contra a destruição do Grande Septo. Aquilo precisa ter uma consequência, certo?

Enquanto Cersei aproveita o início de seu reinado, outra rainha, mais jovem e mais bela, se aproxima do Leste para derrubá-la e roubar tudo o que lhe é querido.

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Em Meereen, a Mãe de Dragões, Quebradora de Correntes, deu um fora em Daario Naharis e ninguém, em nenhum lugar do Mundo Conhecido, deu a mínima (nem a própria Daenerys). Se essa foi realmente a última vez que vimos Michiel Huisman em cena, ele deixou a série com um grande e vazio “meh”. Quando Naharis sofreu recast, muita gente comemorou o fato de terem escolhido um ator que, fisicamente, lembrava mais o personagem dos livros, mesmo sem a barba e cabelos azuis. No final, foi Ed Skrein que realmente conseguiu transmitir a essência do personagem: um patife que não é nada bom para Dany, mas que ela deseja teimosamente. Eu não acho que, enquanto atores, um seja necessariamente superior ao outro, mas enquanto mercenários, a diferença é clara. O personagem de Huisman era só um cara ameno que, às vezes, tinha uma chance bem forçada de demonstrar suas skills, mas que na maioria do tempo ficava lá parado como um figurante barbudo padrão westerosi.

Cortar um ator mediano da folha de pagamento da HBO não é o único motivo pelo qual a decisão de Daenerys foi sábia. Como a própria khaleesi destacou: ela precisa estar aberta para um casamento político nos Sete Reinos de Westeros, e ter um amante ao seu lado seria um empecilho aos olhos da família tradicional nobreza westerosi.  Além disso, mercenários não juram suas espadas, eles vendem. Parte da queda de Stannis deveu-se à deserção dos Corvos Tormentosos minutos antes do confronto com os Boltons. Com milhares de dothraki e Imaculados leais a sua causa, os Segundos Filhos seriam apenas um peso extra na grande comitiva de Daenerys rumo ao oeste. Sem falar que, como antigo lutador das arenas de Meereen, Daario saberá cuidar da Baía dos Dragões melhor do que qualquer outro conselheiro da rainha.

A cena ainda marcou um contraponto interessante com a adorável despedida de Jorah no episódio “The Door”, onde Dany diz que precisa do velho cavaleiro ao seu lado quando conquistar o Trono de Ferro. Quem é que não consegue “montar o dragão” agora, Daario?

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A promoção de Tyrion a Mão da Rainha também foi bem emocionante. Peter Dinklage não teve muitas oportunidades de mostrar seu talento nessa temporada, especialmente nas intermináveis bebedeiras com Missandei e Verme Cinzento. Mas sua atuação nesse episódio foi comovente, e mostrou bem o que a posição de Mão significa para o Duende. Ele amava esse cargo, e agora serve à única governante em quem realmente acredita. Esse número deve crescer uma vez que ele reencontrar Jon Snow como novo Rei do Norte. Aliás, sou capaz de apostar que ele será o próximo aliado da Casa Targaryen.

As alianças com os homens de ferro e os dorneses foram previstas por mim desde a análise do primeiro episódio. Mesmo a aliança com Olenna não foi difícil de antever visto que, historicamente, foram os Targaryen que elevaram os Tyrell a Senhores da Campina. Ver a Rainha dos Espinhos calar as Minhocas de Areia foi hilário e achei criativo o modo como transferiram o discurso de Doran em “O Festim dos Corvos” para Varys e Ellaria. Essa última cena nos Jardins de Água pode não ter servido para compensar o terrível embrólio que foi o plot dos Martell na adaptação, mas ao menos deu a eles alguma importância dentro do plano maior – por mais irônico (e triste) que seja Ellaria ostentar o estandarte da Casa que ela mesma ajudou a extinguir.

– Foi para lá que Quentyn foi? Para Tyrosh, a fim de cortejar a filha de cabelos verdes do Arconte?
O pai pegou uma peça de cryvasse.
– Tenho de saber como chegou ao seu conhecimento que Quentyn estava no estrangeiro. Seu irmão partiu com Cletus Yronwood, Meistre Kedry e três dos melhores jovens cavaleiros do Lorde Yronwood numa longa e perigosa viagem, com um resultado incerto no fim. Foi para nos devolver aquilo que é desejo de nosso coração.
Ela estreitou os olhos.
– O que é o desejo de nosso coração?

– A vingança – a voz dele era baixa, como se tivesse receio de que alguém estivesse ouvindo. – A justiça – Príncipe Doran pressionou o dragão de ônix contra a palma da mão dela com seus dedos inchados e gotosos, e murmurou: – Fogo e sangue.

 (O Festim dos Corvos, Capítulo 40: A Princesa na Torre)

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Deixando para trás toda a política da Baía dos Escravos (cuja complexidade a série fez questão de ignorar), Daenerys finalmente partiu para Westeros. É meio estranho que, em uma série onde supostamente não existam protagonistas, quatro das seis temporadas tenham terminado com a Mãe de Dragões. Ainda assim, esse momento catártico foi esperado por anos e certamente mereceu a última cena. E que PINTURA foi aquela cena! Foi impossível não sentir certa satisfação (e arrepios) enquanto Drogon, Viserion e Rhaegal sobrevoavam navios com Imaculados, dothrakis, Martells e Tyrells (mostrando que aquilo se passava meses depois da jornada de Varys). Todos unidos sob o dragão de três cabeças, vermelho sobre negro. Mais uma vez, a contribuição de Ramin Djawadi na trilha sonora foi pontual com a épica faixa intitulada “The Winds of Winter” (??), que unia os temas de Daenerys com o dos Greyjoys.

Tanto Daenerys quanto Cersei e Jon terminaram a última temporada no fundo do poço. Perdidos, humilhados, mortos. Agora, com seus principais inimigos devidamente fora do jogo dos tronos, esses três personagens voltaram-se uns contra os outros, assumindo posições de real liderança e estruturando suas respectivas ascensões ao poder.

Claro que não podemos deixar de considerar alguns últimos empecilhos como Euron Greyjoy e Mindinho, mas dada a crucial velocidade com que as coisas terão de acontecer daqui para frente, tenho certeza que esses dois coringas logo serão descartados, sem muita cerimônia, pelo temível Deus de Duas Faces.

Como Qyburn declarou, “às vezes, para introduzir o novo, o velho tem de morrer”.

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Embora o nome do episódio tenha sido “The Winds of Winter”, não tivemos vislumbre do Rei da Noite e seu famigerado exército dos mortos. Talvez o título tenha sido uma referência ao livro que deveria ter servido de base para a temporada. No final, os ventos do inverno trazem mais do que a tempestade e os perigos que espreitam além da Muralha. Eles também carregam o futuro.


Clique aqui para escutar o Podcasteros do episódio.

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