Análise do Episódio 6.07: “The Broken Man”

broken_man_topoO que mais diferencia Game of Thrones de outras populares sagas de fantasia é a importância dada aos aspectos humanos e à política. Claro que também não podemos esquecer das mortes. A série é uma das poucas obras de ficção atual onde nenhum personagem está inteiramente seguro (exceto, talvez, Arya, em sua plot armor fenomenal). Ainda assim, é injusto qualificar um episódio pela quantidade de sangue derramado ou pelos grandes acontecimentos. Não é como se estivéssemos assistindo um casamento dothraki. O jogo dos tronos não é o único que importa, mas também as suas consequências devastadoras que afetam, desproporcionalmente, os mais pobres e os mais fracos dos Sete Reinos. Para cada Jaime Lannister ou Brynden Tully, existem milhares de homens e garotos sem nome que são arrastados para a guerra para morrer. E mesmo aqueles suficientemente sortudos para sobreviver, acabam pagando um preço alto, e retornam para casa como homens quebrados.

Ao contrário do Peixe Negro, muitos desses soldados abatidos nem mesmo tem a chance (ou a vontade) de voltar para casa. Por que continuar lutando, mesmo quando a guerra acabou? Para tentar compensar os seus próprios erros? Por honra? Ou simplesmente por conta do ódio que impulsionou Sandor Clegane a seguir em frente?

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Mal conheço e já considero pacas

“The Broken Man” – dirigido com solidez por Mark Mylod – foi o quarto de toda a série a contar com uma “cold open” antes dos créditos (os outros foram as premieres da primeira, da terceira e da quarta temporada). Nos três primeiros, esse recurso foi usado para ditar o tom da temporada que seguiria. Dessa vez, no entanto, tivemos um motivo muito mais prático:  Rory McCann foi parte do elenco principal da série desde o piloto, o que significa que seu nome sempre esteve na abertura. Por que estragar a surpresa desse significativo regresso antes da hora certa?

O episódio introduziu o carismático Irmão Ray, amálgama carismática do Septão Meribald e do Irmão mais Velho que alguns de nós conhecemos em “O Festim dos Corvos”. Interpretado com maestria pelo admirável ator Ian McShane, o irmão parece um homem que já fez de tudo, e foi bem convincente ao externar seu desejo de transformar o mundo em um lugar melhor; desejo que parecia vir a frente de qualquer pretensão pessoal.

Foi uma pena que Bryan Cogman tenha decidido reescrever o monólogo original do Septão Meribald, que, para muitos, é a síntese perfeita de tudo o que A Guerra dos Cinco Reis e a própria obra representam (e é de onde o título do episódio parece ter sido retirado inicialmente):

Há muitas espécies de fora da lei, assim como há muitas espécies de pássaros. Tanto um borrelho como uma águia marinha tem asas, mas não são a mesma coisa. Os cantores adoram cantar sobre bons homens forçados a sair da lei para combater um senhor malvado qualquer, mas a maioria dos fora da lei são mais parecidos com esse Cão de Caça voraz do que com o senhor do relâmpago. São homens maus, movidos pela ganância, amargurados pela maldade, que desprezam os deuses e só se preocupam consigo. Os desertores são mais merecedores de nossa piedade, embora possam ser igualmente perigosos. Quase todos são plebeus, gente simples que nunca tinha estado a mais de uma milha da casa onde nasceu até que algum senhor veio levá-los para a guerra. Mal calçados e malvestidos, partem marchando sob seus estandartes, muitas vezes sem melhores armas do que uma foice, uma enxada afiada ou um martelo que eles mesmos fizeram atando uma pedra a um pedaço de madeira com tiras de pele de animal.
Irmãos marcham com irmãos, filhos com pais, amigos com amigos. Ouviram as canções e as histórias, e por isso vão se embora de coração ansioso, sonhando com as maravilhas que verão, com as riquezas e as glórias que conquistarão. A guerra parece uma bela aventura, a melhor que a maioria deles alguma vez conhecerá. Então experimentam o sabor da batalha. Para alguns, essa única experiência é suficiente para quebrá-los. Outros resistem durante anos, até perderem a conta de todas as batalhas em que lutaram, mas mesmo um homem que sobreviveu a cem combates pode fugir no centésimo primeiro. Irmãos veem os irmãos morrer, pais perdem os filhos, amigos veem os amigos tentando manter as entranhas dentro do corpo depois de serem rasgados por um machado. Veem o senhor que os levou para aquele lugar abatido, e outro senhor qualquer grita que agora pertencem a ele. São feridos, e quando a ferida ainda está apenas meio cicatrizada, sofrem outro ferimento. Nunca há o suficiente para comer, os sapatos se desfazem devido às marchas, as roupas estão rasgadas e apodrecendo, e metade deles anda cagando nos calções por beber água ruim. Se quiserem botas novas ou um manto mais quente ou talvez um meio-elmo de ferro enferrujado, tem de tirá-los de um cadáver, e não demora muito para que comecem também a roubar dos vivos, do povo em cujas terras combatem, homens muito parecidos com os que eram. Matam suas ovelhas e roubam suas galinhas, e daí é um pequeno passo até levarem também suas filhas.

E um dia, olham ao redor e percebem que todos os seus amigos e familiares se foram, que estão lutando ao lado de estranhos, sob um estandarte que quase nem reconhecem. Não sabem onde estão nem como voltar para casa, e o senhor por quem combatem não sabe seus nomes, mas ali vem ele, gritando-lhes para se posicionarem, para fazerem uma fileira com as lanças, foices e enxadas afiadas, para aguentarem. E os cavaleiros caem sobre eles, homens sem rosto vestidos de aço, e o trovão de ferro de seu ataque parece encher o mundo… E o homem quebra. Vira-se e foge, ou rasteja para longe, depois por cima dos cadáveres, ou escapole na calada da noite e encontra um lugar qualquer para se esconder. Toda noção de casa está perdida a essa altura, e reis, senhores e deuses significam menos para ele do que um naco de carne estragada que lhes permita sobreviver mais um dia, ou um odre de vinho ruim que possa afogar-lhes o medo durante algumas horas. O homem quebrado sobrevive dia a dia, de refeição em refeição, mais animal do que homem. A Senhora Brienne não erra. Em tempos como estes, o viajante deve ter atenção aos desertores, e temê-los… mas também deve ter piedade por eles.

Brienne V, “O Festim dos Corvos”

(O criador da série Deadwood – também da HBO e estrelada por McShane – gravou um vídeo lendo o discurso acima. Vejam aqui.)

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Ao longo da vida, Ray parece ter cruzado o mesmo caminho de Sandor. Como a lâmina forjada pelo ferreiro em um dos primeiros quadros, Clegane foi queimado e usado como uma ferramenta mortífera que, só agora, teve a chance de esfriar. Embora estivesse trabalhando na construção de um septo (bem diferente do coveiro que ele provavelmente se tornou nos livros), o Cão de Caça nunca encontrou muito uso para os deuses durante a vida, mesmo depois de ter presenciado a milagrosa ressurreição de Beric Dondarrion em “Kissed By Fire”. Após sua batalha com Brienne de Tarth, todo o propósito que ele tinha na vida se foi. Embora seja um septão, Irmão Ray admite não conhecer toda a verdade (o que já o coloca acima de outros clérigos como o Alto Pardal ou Melisandre), mas acredita que tudo e todos tem um propósito maior. Talvez o Cão precisasse desse tipo de redenção, mesmo que para nós, telespectadores, ele já tenha se redimido algumas vezes ao salvar as vidas de Sansa e Arya.

Naturalmente, a visão pacifista de Ray acabou matando ele no final do episódio. Para os leitores dos livros que não perceberam: o homem que visitou a comunidade hippie – e muito provavelmente a exterminou – era o próprio Limo Manto Limão, da Irmandade Sem Estandartes. No episódio anterior, ouvimos sobre a Irmandade estar colocando os camponeses contra os Freys. Então por que matar os camponeses? A noite pode ser escura e cheia de terrores, mas Thoros de Myr não é o tipo de homem que manda seus subordinados matarem em nome do Deus Vermelho. Que outra motivação eles teriam? O que podemos esperar é algum tipo de retaliação, e justo quando o Cão estava encontrando um caminho de paz.

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Escondam suas galinhas

A Casa Stark (não) está morta

A cada semana, Arya fica cada vez mais perto de retornar para Westeros. Nesse episódio, até seu cabelo, suas roupas (provavelmente roubadas) e seus modos pareciam mais westerosi. Mais Stark. Convenientemente, a única coisa que faltava no figurino era a Agulha. O que aconteceu com a menina preparada que vimos em “Blood of My Blood”?

A tomada em que ela encara o Titã (e tudo além dele) foi belíssima, como a maior parte do episódio, que foi marcado por uma das melhores fotografias já vistas na série. É claro que esse momento TINHA que ser arruinado pela nossa querida “Criança Abandonada”, que apareceu usando um rosto do Salão das Faces pela primeira vez e, ignorando o pedido de Jaqen, apunhalou Arya repetidamente na barriga.

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Muitos devem ter se assustado nessa hora, mas, por incrível que pareça, a garota sobreviveu. Esse ainda é o mesmo mundo onde Areo Hotah foi morto instantaneamente por uma alfinetada nas costas? Deve ter sido porque ele não sabia responder “hoje não”.

Essa sequência foi tão David Fincher que muita gente afirma ter sido um sonho, ou mesmo uma prova do suposto transtorno dissociativo pelo qual Arya está passando desde que começou seu treinamento. Outra possível evidência apontada pelos adeptos da teoria de que Arya e a Waif são a mesma pessoa foi o rosto da atriz Margaret Jackman, que se assemelha a uma face tocada por Arya no episódio “Unbowed, Unbent, Unbroken”, mas aquela era só a mãe do Barry Gower, responsável pelas próteses e maquiagens da série.

As palavras do irmão Ray sobre como a violência é uma doença que se espalha se aplicaram bem a esse arco. Por medo da Casa do Preto e Branco, os cidadãos de Bravos negaram ajuda à Arya, afastando-se da garota como se ela fosse uma leprosa. Isso mostrou que o mundo é violento, mas não só por causa da maldade que existe nele. Às vezes, como disse o septão, a covardia é a culpada.

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Nesse meio tempo, os outros filhos de Ned Stark tentam formar um exército. Como disse Renly Baratheon na segunda temporada, “um homem sem amigos é um homem sem poder”, e são os amigos de Jon e Sansa que garantem o sucesso parcial da missão. Tormund (e Wun Wun) conseguem convencer os selvagens, enquanto Davos, com sua conversa humilde de sempre, conseguiu conquistar a confiança da jovem Lyanna Mormont, que em “The House of Black and White” respondeu a carta de Stannis afirmando que “a Ilha dos Ursos não reconheceria nenhum rei senão o Rei do Norte, cujo nome é STARK”.

Contudo, nesse episódio, a sobrinha do Velho Urso não pareceu tão entusiástica. Nem mesmo quando o nome de Rickon foi mencionado. Foi necessário um Seaworth, que nunca chegou a ver o Rei da Noite, para convencê-la da importância de tal aliança para a verdadeira guerra entre os vivos e mortos. Não teria sido mais convincente se Jon simplesmente mostrasse a Garralonga, espada ancestral da Casa Mormont, para provar o seu valor? E como diabos TODO MUNDO sabe que o Rei da Noite se chama Rei da Noite? Nos livros, esse nome foi dado para o Comandante da Patrulha da Noite que teria se envolvido com uma Outra. Visto que na série o Rei da Noite foi criado pelas Crianças da Floresta em uma época onde nem mesmo a Muralha existia, é possível que o apelido tenha sido usado para se referir a ele desde o princípio, e que Davos tenha descoberto isso em algum livro de história ou lendas antigas.

Por fim, Lyanna concedeu seus 62 bons homens para os Starks (o que é um bom número se considerarmos que Ramsay precisou de 20 para derrotar o Stannis). Game of Thrones sempre acertou a mão na hora de escolher atores e atrizes mirim, e dessa vez não foi diferente. Em sua breve aparição, a jovem Bella Ramsey conseguiu afirmar a autoridade e as convicções de sua personagem, tomando conta de cena por completo. A Ilha dos Ursos também foi brilhantemente concebida em termos estéticos, com uma incrível tomada externa e soldados que trajavam armaduras parecidas com a usada por Jorah nas primeiras temporadas.

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Em Bosque Profundo as coisas foram um pouco diferentes. Nos portões da fortaleza, Robett Glover escutou o apelo de Jon e Sansa até o fim, mas sua expressão traiu previamente o que ele pensava de tudo aquilo. Depois de ter tido a família brutalizada pelos homens de ferro, e o irmão assassinado no Casamento Vermelho, o homem parece cansado da guerra, e sua resposta ao chamado dos Starks foi dura: “A Casa Stark está morta”.

Ok, Lorde Glover certamente teve suas razões (a união com os selvagens está entre elas), mas está sendo difícil engolir a maneira como os nortenhos estão sendo retratados na série. Enquanto os homens das Terras Fluviais apoiam o Peixe Negro na retomada de Correrrio e o Cavaleiros do Vale seguem seu senhor, um menino fraco, para a guerra, o povo do Norte, aclamados frequentemente por sua honra inabalável, viram a cara para os filhos de Eddard Stark. Robb certamente teve culpa na morte daqueles que marcharam como ele para o Sul, MAS QUEM DE FATO OS MATOU? Lannisters, Freys e… isso mesmo, BOLTONS (!!). Ter ajudado a espantar os Homens de Ferro realmente apagou essa traição? O Norte se lembra, mas tem memória seletiva.

Falando em memória… ninguém lembra que Jon é o Comandante da Patrulha? Como ele pode estar ali juntando homens para lutar por Winterfell? Ninguém sequer menciona isso? Eu sei que, com o final da série se aproximando, existe pouco tempo para esse tipo de coisa (nem mesmo Sansa teve oportunidade de reagir apropriadamente à notícia da ressurreição do irmão). Além disso, a resposta a esse questionamento é potencialmente problemática. Como Jon iria explicar que foi (supostamente) revivido pela magia de um deus do fogo estrangeiro? Até Melisandre parece ter sido esquecida depois de ter cumprido seu papel nessa ressurreição e, de figurante, passou a ser quase um easter egg.

Sophie Turner e Kit Harington perpetram uma boa disputa na tela. Vemos o desconforto de Jon em estar no centro das atenções contra as boas maneiras quase desgastadas de Sansa e sua sede para fazer com que as coisas aconteçam. É essa urgência que a leva a jovem Lannister Bolton Stark a escrever aquela carta. Graças a um usuário do reddit e ao fascinante advento do Photoshop, sabemos a carta foi mesmo escrita para Mindinho, e seu conteúdo é deveras interessante.

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“…[Você prometeu] me proteger… Agora você tem [a chance] de cumprir essa promessa. [Os Cavaleiros] do Vale estão sob o seu comando. Venha para Winterfell. Empreste-nos sua ajuda e eu garanto que você será recompensado. ”

A promessa de uma recompensa me lembrou dos ensinamentos de Cersei na segunda temporada: “Lágrimas não são a única arma de uma mulher. A melhor arma fica entre as pernas”. Ainda assim, por algum motivo, suspeito que a surpresa de Petyr não será tão agradável.

Corpo e alma

Em Porto Real, outro religioso sorri e prega como o Irmão Ray. Se esses dois representantes da Fé fossem uma maçã, o Alto Pardal certamente seria a banda podre. Ele até incorpora em seu discurso um aspecto existente nas religiões no passado, ao afirmar que Margaery não precisa ter desejo por Tommen para cumprir seus deveres matrimoniais, provendo assim um herdeiro para o Trono de Ferro e, consequentemente, outra alma para ser criada sob a “luz dos Sete. Apesar do disparate, também foi do Pardal o melhor sermão do episódio, onde ele falou sobre o verdadeiro motivo pelo qual os mais ricos sentem nojo e medo dos mais pobres.

Enquanto grande parte do episódio foi focada em homens quebrados, as mulheres mostraram que tem, no máximo, algumas rachaduras. A principal delas foi Margaery, que como muitos suspeitaram, está jogando com o Alto Pardal e a Septã Unella, fingindo devoção ao invocar constantemente passagens da Estrela de Sete Pontas. O modo como a rainha revelou a verdade para a avó foi genial. Com o Alto Septão e o rei em suas mãos, Margaery parece estar no controle da situação em Porto Real… ao menos enquanto não é descoberta.

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A demonstração de amor e cumplicidade entre avó e neta foi realmente bela. Olenna afirma que marchou contra a Fé por Margaery, ao mesmo tempo que Margaery tenta persuadir a avó a sair da capital para protegê-la da ameaça explícita do Alto Pardal na cena anterior. Uma vez em Jardim de Cima, a Rainha dos Espinhos pode buscar aliados para, quem sabe, resgatar o coitado do Loras (em sua aparição seguinte, ela já estava escrevendo cartas para alguém). Ou essa deixa pode ser uma desculpa para cortar mais uma personagem da série sem ter que matá-la? Espero que não. Diana Rigg é incrível. Ainda mais quando os roteiristas lhe oferecem um material decente para trabalhar, como vimos no diálogo com Cersei.

Embora a cena não tenha feito muito no sentido de evoluir o enredo, ela foi maravilhosamente interpretada pelas duas atrizes. A desonra de Cersei foi, de fato, a única alegria de Olenna desde que a Rainha Regente decidiu devolver as armas à Fé Militante. Nesse momento, Cersei parece mais indefesa do que nunca. Sem nenhuma resposta as tiradas verdadeiras de Olenna, ela simplesmente aceita aquela surra verbal. Isso lembrou os momentos em que Margaery tentou se aliar a ela e ela reagiu com a mesma hostilidade. Conhecendo Cersei, sabemos que essa humilhação vai, eventualmente, se transformar em violência. Estamos ansiosos por isso.

Desde o começo, o arco de Jaime fala de reconstrução. De um espadachim habilidoso e convencido, ele passou a ser um prisioneiro derrotado de Robb Stark depois da batalha no Bosque dos Murmúrios. Depois de uma série de eventos que custaram sua mão da espada, Jaime passou a sucumbir, chegando a desejar a morte até que Brienne o convenceu do contrário. Desde então, Jaime tem tentado assumir um lugar em sua Casa, mas falhou miseravelmente em Dorne e em Porto Real. Agora, ele ganhou mais uma chance de se reconstruir, mas dessa vez em um campo que conhece bem: o campo de guerra. Ele pode não ser o guerreiro que já foi um dia, mas sua presença ainda impõe algum respeito. O soco na cara do Frey que matou Catelyn foi provavelmente a primeira coisa legal que Jaime fez desde a quarta temporada.

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Lama, piadas, porcos e chapéus engraçados: parecia Monty Python and the Holy Grail, mas era Game of Thrones

Mesmo vestindo a armadura de Tywin, as fraquezas de Jaime saltam à tela durante o embate com o Peixe Negro. Podemos ter visto homens quebrados por todo o episódio, mas Brynden Tully continua pleno a ponto de não hesitar diante das ameaças à vida de Edmure, mesmo quando o sobrinho é a única família que lhe restou depois da Guerra dos Cinco Reis.

O diálogo nessa cena foi bem fiel ao que vimos em “O Festim dos Corvos”, com Brynden despindo Jaime de toda a honra ao declarar que ele falhou no seu dever de devolver as filhas de Cat, chegando à conclusão de que não deveria negociar ou mesmo levar em conta os ultimatos de um notório quebrador de promessas. Nós também estamos desapontados, Brynden.

– Regicida – disse Tully.
Que ele tivesse escolhido aquele nome como a primeira palavra a proferir era eloquente quanto bastava, mas Jaime estava decidido a dominar o temperamento.
– Peixe Negro – retorquiu. – Obrigado por ter vindo.
– Assumo que regressou para cumprir os juramentos que fez à minha sobrinha – disse Sor Brynden. – Se bem me lembro, prometeu a Catelyn as filhas em troca de sua liberdade – sua boca comprimiu-se. – No entanto, não vejo as garotas. Onde estão?
Ele precisa me obrigar a dizê-lo?
– Não as tenho.
– Pena. Deseja retornar para seu cativeiro? Sua antiga cela ainda está disponível. Pusemos palha fresca no chão.
E um belo balde novo para eu cagar, não duvido.
– Isso foi atencioso de sua parte, sor, mas temo que tenha de declinar. Prefiro os confortos do meu pavilhão.
– Enquanto Catelyn desfruta dos confortos de sua tumba.
Não houve participação minha na morte da Senhora Catelyn, ele poderia ter dito, e suas filhas já haviam desaparecido quando cheguei a Porto Real. Estava-lhe na língua falar de Brienne e da espada que lhe dera, mas Peixe Negro olhava-o como Eddard Stark o olhara quando o encontrara no Trono de Ferro com o sangue do Rei Louco na espada.
– Vim falar dos vivos, não dos mortos. Daqueles que não precisam morrer, mas morrerão…
– … A menos que lhe entregue Correrrio. É agora que ameaça enforcar Edmure? – sob suas espessas sobrancelhas, os olhos de Tully eram pedra. – Meu sobrinho está marcado para morrer, não importa o que eu faça. Por isso, enforque-o e termine o assunto. Suponho que Edmure esteja tão farto de ficar naquele cadafalso como estou de vê-lo ali.
Ryman Frey é um maldito idiota. A farsa que encenara com Edmure e o cadafalso só tornara Peixe Negro mais obstinado, isto era evidente.
– Tem com você a Senhora Sybelle Westerling e três de seus filhos. Devolverei seu sobrinho em troca deles.
– Assim como devolveu as filhas da Senhora Catelyn?
Jaime não se deixou provocar.
– Uma velha e três crianças em troca de seu suserano. É um negócio melhor do que poderia esperar.
Sor Brynden exibiu um sorriso duro.
– Não lhe falta descaramento, Regicida. Mas barganhar com traidores é como construir em areia movediça. Cat devia ter tido a sensatez de não confiar em alguém como você.
Foi em Tyrion que ela confiou, Jaime quase disse. O Duende também a enganou.
– As promessas que fiz à Senhora Catelyn me foram arrancadas com a ponta de uma espada.
– E o juramento que prestou a Aerys?
Sentiu os dedos fantasmas se torcerem.
– Aerys não tem nada a ver com isso. Trocará os Westerling por Edmure?
– Não. Meu rei confiou sua rainha aos meus cuidados, e jurei mantê-la a salvo. Não a entregarei para um laço Frey.
– A garota foi perdoada. Nenhum mal lhe acontecerá. Tem a minha palavra quanto a isso.
– Sua palavra de honra! – Sor Brynden ergueu uma sobrancelha. – Sabe ao menos o que é honra?
Um cavalo.
– Prestarei qualquer juramento que me exigir.
– Poupe-me, Regicida.
– Quero fazê-lo. Arrie seus estandartes e abra os portões, e concederei a vida aos seus homens. Aqueles que desejarem permanecer em Correrrio a serviço de Lorde Emmon podem fazê-lo. Os outros ficarão livres para ir para onde quiserem, embora eu lhes exija que entreguem as armas e armaduras.
– Pergunto a mim mesmo até onde conseguirão ir, desarmados, antes que um bando de “fora da lei” caia sobre eles. Não se atreverá a permitir que se juntem a Lorde Beric, ambos sabemos. E eu? Serei exibido em passeata por Porto Real, para morrer como Eddard Stark?
– Permitirei que vista o negro. O bastardo de Ned Stark é o Senhor Comandante na Muralha.
Peixe Negro estreitou os olhos.
– Terá seu pai também organizado isso? Catelyn nunca confiou no rapaz, se bem me lembro, assim como nunca confiou em Theon Greyjoy. Parece que tinha razão a respeito de ambos. Não, sor, acho que não. Morrerei aquecido, se lhe aprouver, com uma espada na mão, rubra de sangue de leão.
– O sangue Tully é igualmente vermelho – Jaime lhe lembrou. – Se não quer entregar o castelo, terei de atacá-lo. Morrerão centenas de homens.
– Centenas dos meus. Milhares dos seus.
– Sua guarnição perecerá até o último homem.
– Conheço essa letra. Canta-a com a melodia de “As Chuvas de Castamere”? Meus homens preferirão morrer de pé lutando do que de joelhos diante do machado de um carrasco.
Isso não está indo bem ,
– Esse desafio não tem utilidade alguma, sor. A guerra acabou, e seu Jovem Lobo está morto.
– Assassinado, em quebra de todas as sagradas leis da hospitalidade.
– Obra dos Frey, não minha.
– Chamo do que eu quiser. Fede a Tywin Lannister.
Jaime não podia negar aquilo.
– Meu pai também está morto.
– Que o Pai o julgue com justiça.
Aí está uma terrível perspectiva.
– Eu teria matado Robb Stark no Bosque dos Murmúrios se tivesse conseguido chegar até ele. Houve uns tolos que se puseram em meu caminho. Importa o modo como o rapaz pereceu? Não está menos morto, e seu reino morreu com ele.
– Além de mutilado, deve ser cego. Erga os olhos e verá que o lobo gigante ainda voa sobre nossas muralhas.
– Já o vi. Tem um ar solitário. Harrenhal caiu. Guardamar e Lagoa da Donzela também. Os Bracken dobraram o joelho, e têm Tytos Blackwood encurralado em Corvarbor. Piper, Vance, Mooton, todos os seus vassalos se renderam. Só resta Correrrio. Temos vinte vezes mais homens do que vocês.
– Vinte vezes mais homens requerem vinte vezes mais comida. Como estão suas provisões, senhor?
– Suficientemente bem para ficarmos aqui até o fim dos tempos, se necessário, enquanto vocês passam fome no interior de suas muralhas – disse a mentira com o máximo de ousadia que conseguiu arranjar, esperando não ser traído pela expressão em seu rosto.
Peixe Negro não se deixou enganar.
– O fim dos seus tempos, talvez. Nossas provisões são amplas, embora eu tema que não tenhamos deixado grande coisa nos campos para os visitantes.
– Podemos trazer comida das Gêmeas – Jaime retrucou – ou do oeste, através dos montes, se se chegar a tal ponto.
– Se você o diz. Longe de mim questionar a palavra de um cavaleiro tão honrado.
O escárnio na voz do outro irritou Jaime.
– Há uma maneira mais rápida de decidir o assunto. Um combate singular. Meu campeão contra o seu.
– Perguntava a mim mesmo quando chegaria a essa ideia – Sor Brynden soltou uma gargalhada. – Quem será? Varrão Forte? Addam Marbrand? Walder Negro Frey? – inclinou-se para a frente. – Por que não você e eu, sor?
Essa teria sido uma bela luta em outros tempos, Jaime pensou, alimento perfeito para os cantores.
– Quando a Senhora Catelyn me libertou, obrigou-me a jurar que não voltaria a empunhar armas contra os Stark ou os Tully.
– Um juramento muito conveniente, sor.
O rosto de Jaime tornou-se sombrio.
– Está me chamando de covarde?
– Não. Estou chamando-o de aleijado – Peixe Negro indicou com a cabeça a mão dourada de Jaime. – Ambos sabemos que não pode lutar com isso.
– Eu tive duas mãos – jogaria a vida fora por orgulho? Sussurrou uma voz dentro de si. – Há quem diga que um aleijado e um velho estão bem um para o outro. Liberte-me do juramento prestado à Senhora Catelyn, e minha espada defrontará a sua. Se eu ganhar, Correrrio é nossa. Se me matar, levantaremos o cerco.
Sor Brynden voltou a rir.
– Por mais que gostasse ter a chance de lhe tirar essa espada dourada e de arrancar seu coração negro, suas promessas não têm nenhum valor. Nada ganharia com sua morte além do prazer de matá-lo, e não arriscarei minha vida por isso… Por menor que seja o risco.
Era bom que Jaime não tivesse trazido espada; caso contrário a teria desembainhado e, se Sor Brynden não o matasse, os arqueiros nas muralhas certamente o matariam.
– Existem alguns termos que aceitaria? – perguntou a Peixe Negro.
– Vindos de você? – Sor Brynden encolheu os ombros. – Não.
– Por que se incomodou em vir falar comigo?

– Um cerco é mortalmente cansativo. Quis ver esse seu coto e ouvir as desculpas que teria arranjado para suas últimas barbaridades. Foram mais fracas do que eu esperava. Decepciona sempre, Regicida (…)

Jaime VI, “O Festim dos Corvos”

Ah, e quase me esqueci de dizer o quanto foi bom ver Bronn novamente, mesmo com as piadas de eunuco que ele provavelmente aprendeu com o Tyrion (ou vice e versa).

Enquanto a maioria dos soldados é quebrada pelo peso da guerra e da violência, Theon Greyjoy teve corpo e alma despedaçados da maneira ainda mais terrível e cabal. Como Jaime, depois de viver como refém dos Starks, Theon teve aquilo que mais o definia simplesmente arrancado por causa dos Boltons. Sua virilidade, sua esperança, seu nome… Tudo desapareceu deixando apenas Fedor em seu lugar. No entanto, também como Jaime, Theon conta com uma mulher guerreira ao seu lado, para resgatá-lo em seus momentos de desespero (na verdade, foram DUAS mulheres se contarmos com a ajuda de Sansa).

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Alguns fãs não gostaram da forma como Yara foi retratada no bordel em Volantis, afirmando que transformar ela em lésbica só porque ela é capitã de uma frota foi uma escolha pobre dos produtores para reforçar um estereótipo (vale lembrar que a contraparte dela nos livros, Asha, não se sente nem um pouco atraída por mulheres). Contudo, em uma entrevista, a atriz Gemma Whelan acalmou os protestos afirmando que a personagem “gosta apenas de curtir”. Eu não vejo nenhum problema com as preferências da Yara. Chavão mesmo foi a maneira como ela tratou aquela escrava. Foi como se tivessem transferido falas do Bronn para um papel feminino sem qualquer tipo de adequação ou congênere. Consigo até a imaginar a voz do Jerome Flynn dizendo que vai “foder as tetas daquela ali”.

Apesar de toda a beleza estrutural, a cena foi meio perturbadora. A cada risada, Theon lembrava o tipo de prazer que ele nunca mais poderá sentir. Yara demora um pouco, mas percebe o erro que foi ter levado o irmão até ali a vê-lo se recolher na presença das prostitutas, quase incapaz de levantar os olhos.  É esse desespero que leva Yara a puxar a trazer o irmão de volta de maneira quase violenta, declarando que a única forma de ambos sobreviverem à loucura de Euron é permanecendo unidos. Como nós imaginávamos, ela pretende mesmo oferecer seus navios à Daenerys em troca do Trono de Sal. Quem sabe Theon não aprende uma coisa ou outra com Verme Cinzento e Varys em Meereen.

Em um forte paralelo com o Cão, Theon foi confrontado com a escolha de desistir ou lutar. Para o primeiro, essa foi uma questão de ser verdadeiro ou não à sua própria natureza. Para o segundo, as opções são ainda mais difíceis: viver uma vida de constante provação e sofrimento, ou cortar os pulsos e acabar de uma vez com tudo isso. Pelo olhar do Greyjoy soubemos que ele escolheu lutar, afinal de contas, o que está morto não pode morrer.

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Em Sandor, Theon e Jaime, temos indivíduos brutalizados que, apesar da longa jornada e dos traumas enfrentados, nunca deixarão de ser o Cão de Caça, o homem de ferro e o Regicida. Assim como Margaery continua fiel aos interesses de sua Casa e Arya nunca deixará de ser uma Stark, enquanto Jon e Sansa precisam se provar dignos deste nome. Em Game of Thrones, não importa o quanto uma pessoa corra, ela dificilmente vai conseguir escapar de quem realmente é. Essa talvez tenha sido a principal lição do episódio.

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