Análise do Episódio 6.05: “The Door”

Para que algumas portas sejam abertas, outras precisam se fechar para sempre. Fazia tempo que eu não ficava tão empolgado com uma hora de Game of Thrones. E já que estamos falando de tempo, a sequência final pode ter enfiado lascas de obsidiana em nossos corações, mas não foi a única coisa que o episódio ofereceu. A segurança de Jack Bender – responsável por alguns dos melhores episódios de Lost (incluindo o inesquecível “The Constant”) – coroou as reviravoltas surpreendentes do roteiro com adornos cinematográficos e uma atmosfera arrebatadora. Juntos, esses elementos (e a total ausência de Ramsay) fizeram dos 56 minutos de “The Door” um dos voos mais ousados e triunfantes da série até então.

Vamos lá?

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Como de costume, o episódio começa em Castelo Negro, onde Sansa costurava novas vestimentas para ela e o irmão. Dessa vez, porém, a troca de figurino pode realmente ter algum significado, como constatamos na cena seguinte, onde Mindinho, assim como as Filhas da Floresta, precisou enfrentar sua criação.

Sei que é cansativo ficar repetindo o quanto os personagens parecem se locomover na velocidade do plot. Na semana passada, o Senhor Protetor do Vale (???) deixou as terras de Bronze Yohn Royce com um exército em seu encalço. Surpreendentemente, ele não só conseguiu chegar a Vila Toupeira no episódio seguinte, como ainda o fez nos primeiros cinco minutos (!). E que história é essa de ter deixado os soldados acampando em Fosso Cailin? Graças à Theon, (ou melhor, Fedor), que enganou seus compatriotas em “The Mountain and the Viper”, a fortaleza estava sob o comando dos Boltons. Ramsay foi estúpido o suficiente para deixar “a entrada para o Norte” abandonada, ou os Cavaleiros do Vale derrubaram sua guarnição? Como diabos ninguém ficou sabendo? Para ser justo, dessa vez, eu realmente consegui sentir que o tempo passou entre os episódios (Daenerys deixou Vaes Dothrak, a Assembleia dos Homens Livres aconteceu, o acordo de Tyrion com os escravagistas deu resultados e etc). Ainda assim, não é de hoje que Mindinho parece dobrar o tempo em suas incansáveis jornadas por Westeros.

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Foi meio poético que o encontro dos personagens tenha acontecido em um bordel destruído. O cenário certamente remete a traços das personalidades de ambos, como a natureza corrupta de Petyr e a inocência perdida de Sansa. Em vez de ordenar que Brienne faça picadinhos do homem, Sansa o ataca com uma lâmina mais violenta, pedindo que ele imagine as coisas pelas quais ela passou nas mãos do marido. Enquanto Mindinho se aventura pateticamente pelas possibilidades, a garota o encara com frio desprezo. Contudo, no fim, Baelish sai na frente com a preciosa informação de que Peixe Negro reuniu um exército para tomar Correrrio, induzindo Sansa a mentir para o meio-irmão momentos mais tarde.

Conhecimento é poder. Mindinho pode ter sido idiotizado pelo roteiro (como D&D parecem ter admitido), mas a sombra de sua influência ainda paira sobre muita gente, Alguns fãs até acreditam que ele escreveu a carta para Jon no episódio anterior. A notícia acerca de Brynden Tully abriu uma porta para que a Donzela de Tarth possa retomar o seu arco dos livros, para a decepção do nosso amigo Tormund.

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Is “Briemund” still a thing?

Impressão minha ou o roteiro ainda sugeriu que, em algum ponto no futuro, podemos lidar com um conflito de interesses entre Jon e Sansa? A existência de Rickon sumariamente ignorada indica que ele está com os dias contados nas mãos de Ramsay? O Norte se lembra? Quando Edd Doloroso vai a derrubar Muralha?

Um servo não faz perguntas.

Quando Arya venceu a “Criança Abandonada” em “Oathbreaker”, achei que tínhamos passado da fase de treinamento com bastões. Ledo engano. A Criança continua sendo uma verruga um pé no saco, e Arya ainda não está pronta para ser ninguém (suspeito que ela nunca estará).

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Durante a colorida apresentação teatral – que foi genuinamente hilária e contou com o toque musical da banda Of Monsters and Men – descobrimos qual é a “versão oficial” dos eventos ocorridos nas primeiras temporadas em Westeros. Boa parte do mundo civilizado parece acreditar que, em vez de lutar pela reivindicação de Stannis ao Trono de Ferro, Lorde Eddard Stark era um bufão ganancioso que queria a coroa para si. Imagino que tenha sido também a primeira vez que Arya ouviu falar do casamento forçado da irmã com Tyrion Lannister, retratado na peça como o “macaco demoníaco” que estuprou a jovem esposa na noite de núpcias (sabemos que esse macaco tem outro nome). A garota até teve que assistir novamente à execução do pai em meio à multidão. Exceto que, dessa vez, tudo era mentira. Ver essas mentiras sobre Ned serem disseminadas deve ter sido tão terrível quanto testemunhar os horrores infligidos à Sansa. Também foi o momento perfeito para que Maisie Williams reafirmasse o seu talento como artista, e ela o fez sem dizer uma palavra.

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Se a verdade dos vitoriosos é sempre a mais aceita mundialmente, quão imperfeita é a história daquele mundo? Quem pode garantir que Jaqen estava sendo honesto quando falou sobre a origem dos Homens Sem Face? Além de servir como reflexo para mentiras desvendadas em outros núcleos (como a verdadeira natureza dos Caminhantes Brancos, ou a desonra por trás de vitória de Eddard na Torre da Alegria), essa sequência foi uma prova de que Arya continua sendo Arya, especialmente quando mostra relutância em matar uma “boa pessoa” e questiona as motivações daqueles que seguem o Deus de Muitas Faces.

Espero sinceramente que a menina se junte à trupe de pantomimeiros e fuja para sua terra natal, e espero que ela faça isso rápido. Afinal, de uma maneira ou de outra, uma face será adicionada à parede.

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“Eu tenho um pau. Eles não.” certamente seria o slogan de Euron em uma campanha eleitoral

Em toda a sua concepção, a Assembleia de Homens Livres funcionou como uma vitrine por onde contemplamos os motivos que fazem dos homens de ferro as ovelhas negras dos Sete Reinos. Embora lembre um processo democrático rudimentar, a reunião não passou de um pretexto rídiculo para que os candidatos pudessem medir seus respectivos membros viris – tarefa lamentavelmente fácil para um cara cujo oponente é uma mulher (e seu irmão eunuco).

Em “O Festim dos Corvos”, a verdadeira Assembleia de Homens Livres é uma tradição grandiosa e milenar que acontece sobre os ossos de uma criatura mitológica, onde cada capitão de navio, tendo ou não vínculo de sangue com o rei anterior, pode lançar sua pretensão à Cadeira de Pedra do Mar (o processo pode ser anulado se os homens de ferro descobrirem que Theon, herdeiro legítimo de Balon, ainda vive). Infelizmente, “os livros são os livros, e a série é a série”, o que significa que não tivemos Cabelo-Molhado apoiando Victarion, Asha com suas pedras, pinhas e nabos, ou Euron com seu berrante mágico que, supostamente, pode controlar dragões.

O modo como Theon abdicou de seu direito ao Trono de Sal em prol da irmã foi admirável, e os atores foram magníficos. Além disso, a sequência ainda serviu para confirmar minhas suspeitas de que a Frota de Ferro, roubada por Yara, será a resposta para os navios de Daenerys, incendiados pelos Filhos da Harpia em “The Red Woman”. Confirmou também que fratricídio e regicídio não significam absolutamente nada na adaptação.

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Nos livros, matar um parente é tão abominável quanto matar um rei. Por isso as leis dos deuses e dos homens condenaram Tyrion impiedosamente depois das mortes de Joffrey e Tywin. Na série, vimos Jaime admitir o assassinato do primo diante do Alto Pardal, Ramsay assassinar o pai friamente em plena luz do dia, assim como Ellaria e as Serpentes de Areia, que extinguiram a Casa Martell em um único bote. Agora, foi a vez de Euron admitir, perante os súditos, que empurrou o irmão da ponte em Pyke. A recompensa dele por isso? Uma coroa grotesca de madeira trazida pelo mar.

Como um dos poucos fãs dos Greyjoys, não pude deixar de ficar desapontado ao perceber que Euron e Aeron não lembram em nada os personagens concebidos por George R. R. Martin. No lugar do enigmático e profano Olho de Corvo, temos um vilão aluado, que provavelmente substituirá Ramsay quando este, enfim, encontrar alguma justiça.

Tecnicamente falando, as cenas foram grandiosas. Direção, atuações, locações, figurinos e efeitos visuais contribuíram para que as Ilhas de Ferro ao menos superassem tudo o que vimos em Dorne (outro provável aliado de Daenerys na grande guerra que seguirá).

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O adeus de Daenerys e Jorah foi o contrário do “rompimento” de Mindinho e Sansa. Os dois encontros partiram de confissões que, eventualmente, resultaram nas separações entre as partes, mas o que vimos em Vaes Dothrak foi uma bela e mútua declaração de amor. A expressão de Dany quando descobriu sobre a escamagris traduziu perfeitamente a preocupação que todos sentimos pelo velho cavaleiro. O comando final da rainha foi mais um atestado do que ela sente pelo amigo, e era tudo que o Ândalo precisava para seguir em frente. Como o personagem trágico que é, Mormont provavelmente morrerá no deserto, enquanto sua amada jamais saberá o que realmente aconteceu. O peso dessa realidade fez da despedida deles tão bonita quanto melancólica. A conexão silenciosa que os dois atores projetam é um lembrete de que eles estiveram juntos por mais tempo do que qualquer outra dupla de personagens na série, mesmo enquanto estiveram afastados.

Enquanto o rei afogado pleiteia uma aliança com a rainha do fogo, outra união duvidosa é forjada pelas chamas em Meereen. Pedir ajuda dos seguidores de R’hllor para levantar a moral de Daenerys durante sua ausência parece uma ideia digna de Cersei, que armou a Fé Militante e agora sofre nas mãos do Alto Pardal. Mas apesar da compreensível oposição de Varys, Tyrion sela mais esse acordo, deixando a porta aberta para que os horrores do fanatismo tomem conta da cidade. Em seu pouco tempo de duração, a cena transmitiu com maestria todo o terror dessa ameaça latente.

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Substituta de Benerro, que é a “Chama da Verdade” em A Dança dos Dragões, Kinvara pode parecer jovem para uma Alta Sacerdotisa, mas fala com uma sabedoria ancestral. A presença do rubi no pescoço pode indicar que ela e Melisandre (agora reduzida à figurante) compartilham mais do que a mesma fé. O diálogo pontual (que já tínhamos escutado nessa audição que vazou) casou perfeitamente com a eloquência da linda Ania Bukstein. Ao contrário de Varys, espero vê-la novamente, e também quero saber quem, afinal, é o tal do “Príncipe Que Foi Prometido”. Daenerys ou Jon? Ambos renasceram das cinzas para “refazer o mundo”, e é realmente apropriado que cada um deles, a seu modo, seja encarado como uma figura messiânica; arautos da salvação.

Enquanto esse mistério não é desvendado, vários segredos se desenrolaram além da Muralha e do tempo com o retorno de Bran (que também foi prometido) à Era da Alvorada, milhares de anos antes dos dias atuais. O próprio lugar que ele visitou parecia fantasia, com um círculo de pedras que, propositalmente, remete aos padrões que os Caminhantes Brancos repetem em suas matanças, e uma árvore coração com um rosto igualzinho ao do Corvo de Três Olhos (!). Foi meio estranho descobrir algo tão grave como a origem dos Caminhantes em questão de segundos. Temendo a extinção, os Filhos da Floresta trouxeram o inverno para o mundo, sacrificando inimigos para criar as armas que seriam sua própria destruição. E não é que os Caminhantes são mesmo um espelho sinistro da humanidade? Eles possuem um exército e seguem uma hierarquia, com a diferença de que seu rei é soberano, e os súditos dele o servem até os limites de seus corpos quebrados.

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O homem sacrificado na cena foi vivido pelo mesmo ator que interpreta o Rei da Noite

Essa revelação foi rapidamente absorvida por um assustado e confuso Bran Stark, que pela desesperadora necessidade de respostas, decidiu encarar o abismo por mais tempo. Só que o abismo o encarou de volta. Literalmente.

No vídeo Inside the Episode, David e Dan afirmaram que o Corvo, ao descobrir que o aprendiz tinha sido marcado, tentou fazer um upload rápido de todo o seu conhecimento, para que Bran possa continuar a viajar no tempo sem sua presença. É assim que veremos o resto do que aconteceu na Torre da Alegria, por exemplo.

A revelação que fechou o episódio foi menor, mais pessoal e menos consequencial, mas nem por isso menos trágica. Descobrir que a vida de Hodor é um circuito cruel no tempo, onde a única palavra que ele consegue dizer é resultado de uma mensagem corrompida pelos equívocos da própria pessoa que ele protege, foi como desvendar um enigma e só depois perceber que não queríamos saber a resposta.

De pouco adianta ficar discutindo que tipo de paradoxo temporal Bran desencadeou com suas intervenções. “Todos são o que são e estão onde estão por uma razão”. Eu acredito no Corvo de Três Olho quando ele diz que “o passado está escrito e a tinta secou”. Seguindo essa linha de pensamento, Bran nunca mudou o passado, porque o passado sempre foi aquele. Wylis precisava virar Hodor para levar Bran a caverna, para que Bran transformasse Wylis em Hodor novamente (e assim por diante). Como Kyle Reese e o Exterminador, Bran voltou no tempo para cumprir seu papel na história, não para muda-la.

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O filho de Craster também foi transformado dentro de um círculo em “Oathkeeper”

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Primeira “obra de arte” dos Caminhantes Brancos na série

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Para ilustrar melhor essa ideia, eu não vou citar físicos como Einstein ou Novikov, mas sim o nosso saudoso Rust Cohle, da primeira temporada de True Detective, que, em referência ao Eterno Retorno de Nietzsche, definiu o tempo como um “círculo achatado”, onde tudo que nós já fizemos ou ainda vamos fazer será feito e refeito infinitamente.

Claro que, antes de considerar qualquer explicação, precisamos desconsiderar o meio que permitiu as viagens de Bran em primeiro lugar: magia. Com ela, quase tudo se torna possível.

A sequência final em si foi mágica, marcada por imagens e atuações memoráveis (e um dos melhores trabalhos de Ramin Djawadi na trilha sonora). A caminhada de Bran em meio ao exército dos mortos, o Rei da Noite e seus cavaleiros atravessando as chamas, a breve aparição de Rickard Stark, o emocionado adeus de Max von Sydow, os wights subindo pelas paredes do túnel e o sacrifício explosivo de Folha certamente estão no hall de melhores momentos da série. Foi como assistir novamente o horror e a grandeza de “Hardhome”, mas em uma escala mais pessoal e, porque não dizer, mais heroica.

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O homem simples e gentil que serviu como as pernas e a força de Bran por cinco temporadas foi destroçado enquanto realizava sua última tarefa. Como os Caminhantes, Hodor era uma ferramenta forjada por magia, moldado de maneira que seu único propósito  na vida acabou virando a sua identidade.

A morte não deixa os bons para trás. Agora Hodor está morto, assim como o Corvo de Três Olhos e as últimas Crianças da Floresta. Até Verão encontrou seu fim, em mais um triste presságio de que os ventos do inverno estão prestes a lamber a face da terra.

Quem poderá segurar a porta contra isso?

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Alguns heróis seguram espadas, outros seguram portas


A maioria dos gifs que ilustram a análises foram tirados daqui. Ouça o Podcasteros do episódio clicando aqui.

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