Análise do Episódio 6.04: “Book of the Stranger”

Apesar do título, “Book of the Stranger” – dirigido por Daniel Sackheim e escrito por Benioff e Weiss – foi, acima de tudo, um episódio extremamente familiar. E não apenas no sentido literal da palavra. Sim, tivemos momentos familiares tocantes, de esperados reencontros entre irmãos e irmãs. Jon e Sansa; Theon e Yara; Margaery e Loras. Em cada um desses casos, foi a mulher que demonstrou coragem e resiliência – o que também pareceu um tema recorrente no episódio. Apesar da série ainda ter muito a melhorar na maneira como pinta as mulheres (a morte banal da nossa querida Osha e o “presente” de Tyrion aos seus convidados são exemplos disso), em Porto Real e Vaes Dothrak, vimos Cersei e Daenerys tomarem as rédeas da situação.

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Mas quando eu disse que foi um episódio “familiar”, também estava me referindo às situações, que pareceram ecos do já vimos nos anos anteriores. Tyrion usando artimanhas (e pessoas) para reverter as circunstâncias; Ramsey sendo Ramsay; Mindinho mentindo para alcançar seus objetivos (que alcança, sempre com estranha facilidade) e a Mãe de Dragões saindo ilesa – e nua – de uma grande pira, com os dothraki curvando-se diante dela (cena que, propositalmente, remeteu ao season finale da primeira temporada, “Fire and Blood”).

Essas repetições fazem com que todos os arcos da série pareçam cíclicos. E qual é a única coisa que pode quebrar esses ciclos? Morte. Talvez seja aí que o “livro do Estranho” entre na história.

O melhor amigo de um menino é sua mãe irmã
Desde o ano passado, quando Game of Thrones se distanciou definitivamente das Crônicas de Gelo e Fogo, as pessoas costumam rebater minhas críticas com perguntas como “Por que você ainda assiste a série se tudo que faz é reclamar?” e coisas do tipo. Confesso que não sabia a resposta. Meu trabalho no site seria o motivo mais óbvio, mas, nesse episódio, eu tive certeza das minhas razões. Eu posso não morrer de amores por David e Dan ou pelas escolhas deles na adaptação, mas eu amo os personagens. Assistir o reencontro de Sansa e Jon foi algo indescritível. Um presente tão bom quanto o capítulo de Arianne que Martin publicou na semana passada. Nos livros, Alayne Stone está ás voltas com os planos de Mindinho no Vale, a léguas de distância do irmão bastardo (em quem ela pensa muito, já que vive como uma bastarda também). Sabe-se lá quanto tempo vai demorar para que os caminhos desses dois se cruzem novamente. A questionável decisão de transformar Sansa em Jeyne Poole foi quase (quase) justificada por esse momento. E que momento. Que abraço. Que cena!

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A série nunca teve tempo para trabalhar a relação dos dois antes de deixarem Winterfell, e muito pouco foi dito por ambos. Mas isso não chegou a ser um problema. Por onde eles iriam começar? Eles não precisavam dizer nada porque nós, sinceramente, também não sabíamos muito o que dizer. O importante é que os irmãos estão juntos e, graças à obstinação de Sansa (que há três episódios teve medo de atravessar um rio), estão indo para casa.

Já que estamos falando de Game of Thrones, nem tudo são risos, cervejas e tortas de rim. A reunião de Davos e Melisandre para discutir as mortes de Shireen e Stannis foi quase tão esperada quanto a dos Starks. Como imaginávamos, o Cavaleiro das Cebolas estava completamente alheio ao que realmente aconteceu antes da Batalha de Winterfell. Davos sempre foi um homem cético, e começa questionando a súbita devoção de Melisandre a Jon Snow (como nós questionamos a dele). A mulher vermelha, mais uma vez, se refere ao bastardo como “O Príncipe Que Foi Prometido”, dando abertura para que Davos pergunte sobre o homem que um dia carregou esse mesmo título. O modo como a sacerdotisa se esquivou das perguntas faltou pouco para ser cômico, até que ela foi “salva” por Brienne, que se revelou como mais uma ameaça à sua vida.

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Onde está seu deus agora?

Todos sabemos que Melisandre foi a responsável pela sombra que matou Renly Baratheon em “The Ghost of Winterfell”. Brienne estava na tenda quando ele morreu, então é lógico pensar que ela sabia do envolvimento da feiticeira, principalmente depois da confissão de Stannis. Além do Ramsay, nenhum personagem nessa série consegue escapar dos seus atos por muito tempo. Sim, Mel pode ter revivido o cara que muitos enxergam como o herói ou mesmo o protagonista da história, mas ainda precisa responder por alguns dos horrores que cometeu. Se os roteiristas estão fazendo com que ela fuja disso agora, certamente estão guardando esse acerto de contas para mais tarde.

Nessa cena, a Brienne confirma que executou Stannis, matando também as esperanças de todos que insistiam em acreditar que ele ainda estava vivo.

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Um dos enquadramentos mais perfeitos de “Book of the Stranger”

Vamos ao seguimento que deu nome ao episódio: o Alto Pardal é tão astuto e malicioso sob o pretexto de fidelidade ao Sete que sua sombra pairou sobre cada segundo que vemos em Porto Real nesse episódio. O impasse entre a Fé Militante e a Coroa está chegando a um ponto de ebulição. Mais uma vez, o Pardal prega… e nós simplesmente não podemos deixar de escutá-lo. Ele conta a Margaery sua própria história pregressa sobre ser um sapateiro que passou a cobiçar a riqueza e o poder de seus clientes, mas, em um momento de epifania, conseguiu “enxergar a luz” depois de uma noite de bebedeira. O modo como Jonathan Pryce chora ao contar sua história é admirável. Ou esse cara é o melhor mentiroso na totalidade do Westeros e Essos, ou ele realmente é tão piedoso e bom quanto ele quer nos fazer acreditar. Diferente do marido, a jovem rainha parece atenta ao jogo do religioso.

Se a Margaery foi presa e torturada por simplesmente ter presenciado os atos do irmão com outro homem, vocês podem imaginar o que está sendo feito para o próprio Loras? A Caminhada da Penitência deve ser um passeio no parque perto do que o pobre Cavaleiro das Flores está passando naquela cela. A caracterização do ator até lembrou um pouco o Theon, no auge de seus tempos como Fedor.

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Outra reunião familiar inquietante aconteceu nos salões molhados de Pyke. Yara, já se achando a futura Rainha das Ilhas de Ferro (ela ainda não sabe sobre o tio), está cada vez mais parecida com o pai no modo de se vestir e sentar em frente à lareira, e até no modo como confronta Theon, culpando o coitado pelo fracasso da missão de resgate em “The Laws of Gods and Men”. Theon ouve, contrito, todos os absurdos que a irmã dispara contra dele. O momento em que o rapaz admite ter sido “quebrado em mil pedaços” por Ramsay foi de cortar o coração. Os dois atores são extremamente competentes, e o diálogo foi escrito com um refinamento notável.

“O que está morto não pode morrer.” Apesar dos horrores que sofreu, é bom saber que a história de Theon não acabou e que agora ele tem uma nova motivação para seguir em frente: colocar a irmã na Cadeira Pedra do Mar no Trono de Sal (que nome horrível!). Estou verdadeiramente ansioso pela Assembleia de Homens Livres.

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Mantenha seus amigos próximos, e os inimigos mais próximos ainda
Ao contrário de mulheres como Daenerys, Arya e Sansa, que atravessaram altos e baixos de maneira mais irregular, a trajetória de Cersei Lannister foi uma verdadeira queda livre, e ela só percebeu isso quando estava quase no chão. No começo da série, ela era a rainha de Westeros e sobreviveu ao caos da Guerra dos Cinco Reis relativamente intacta se comparada às outras duas (ela perdeu um filho no caminho, mas, convenhamos, não era um filho muito bom). Tudo mudou quando o Alto Pardal pisou seus pés descalços em Porto Real na última temporada e literalmente despiu Cersei de tudo aquilo que ela mais prezava.

Os primeiros episódios dessa temporada mostraram a Rainha Mãe tentando fortalecer sua base, e talvez por isso as coisas tenham parecido tão monótonas por essas bandas. Ela estreitou ainda mais os laços com Jaime e com o filho, e, através de Qyburn, adquiriu uma rede de espiões e o campeão mais amedrontador dos Sete Reinos.

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O Regicida virou “papagaio de pirata” da irmã

Enquanto os episódios anteriores também fizeram questão de mostrar o quão mal vistos os gêmeos Lannisters estão depois dos fiascos da quinta temporada, a ponto de fazer com que eles fossem expulsos do Pequeno Conselho, “Book of the Stranger” deu a eles causa comum para uma aliança com a Casa rival. Utilizar o exército dos Tyrell para libertar Margaery e Loras foi uma ideia inteligente para evitar o envolvimento direto da Coroa. Por que diabos ninguém pensou nisso antes? Seja como for, finalmente é hora de levar a luta aos extremistas da Fé Militante, mas não posso deixar de desconfiar das intenções de Cersei. Ela está planejando algo.

Por falar em planejar, o homem que inspirou a citação de Tyrion sobre “fazer as pazes com o inimigo” não foi Don Corleone, e sim Lorde Petyr Baelish, que agraciou Ned Stark com essa mesma pérola no episódio “You Win or You Die”. Fazia tempo que não víamos Mindinho, e ele parece afiado como sempre. Nesse episódio, ele fez com que todos acreditassem na lorota sobre o sequestro de Sansa e, como se não bastasse, ainda fez com que Lorde Royce se sentisse culpado por uma traição que ele não cometeu (!).

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O Protetor do Vale cresceu bastante desde a última vez que o vimos, mas apenas no tamanho. Além de continuar ruim com o arco, Robin continua se dobrando facilmente às vontades de tio favorito, e facilmente concorda em enviar os Cavaleiros do Vale ao resgate da prima, como se a decisão de fato tivesse partido dele.

Esse arco serviu como um rápido lembrete de como Mindinho opera usando estratagemas e promessas veladas de riqueza ou morte. O cara é bom no que faz, mas o que ele faz não é nada bom.

Passados 45 minutos de episódio, eu estava realmente feliz por não ter visto o novo Senhor de Winterfell e Protetor do Norte, mas eis que ele aparece, descascando sua maçã como ele faz com suas vítimas. Quando Osha entrou naquele quarto, todos sabíamos o que ia acontecer. A glorificação da violência já é mais do que previsível nesse núcleo, e a talentosa Natalia Tena não parecia muito feliz ou confortável com o que estava prestes a fazer.  Trazer a selvagem de volta só para matá-la na aparição seguinte não foi uma maneira muito legal de tratar a personagem, mas os criadores parecem determinados a enxugar o elenco da série nessa temporada. Descanse em paz, Osha.

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Quando nada, a cena serviu para descartar uma possível armadilha dos Umber contra os Boltons, e como gancho para a chegada da infame “carta rosa” em Castelo Negro. Qualquer hesitação que Jon sentia foi se dissipando à medida que as palavras de Ramsay saíam do papel. Além de ameaçar esmagar os selvagens, os patrulheiros e o próprio Rickon, o bastardo ainda faz à Sansa a mesma ameaça que Khal Moro fez à Daenerys. Diferente da sua contraparte no livro, o Ramsay da série parece conformado com a fuga de seu Fedor, e deseja apenas a noiva de volta, para assegurar o domínio sobre o Norte.

A mensagem funcionou como uma declaração de guerra para todos os que estavam sentados àquela mesa. Até Edd Doloroso, cujos votos à Patrulha da Noite permanecem intactos, deve ter se sentido compelido a ajudar os Starks no resgate de seu irmão caçula. Tormund (em um esforço para impressionar Brienne?) ofereceu 2,000 lanças ao homem que salvou seu povo dos Caminhantes, enquanto Sansa pareceu decidida a conquistar o apoio dos antigos vassalos de seu pai.

Assim, o cenário para a anunciada “Batalha dos Bastardos” começa a ser desenhado.

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(Quer saber mais sobre a “a carta rosa”? Come and see.)

O comportamento impetuoso e até mesmo arrogante de Tyrion nesse episódio lembrou muito o Tyrion que vimos há alguns anos como Mão do Rei em Porto Real. Ele finge jogar nos dois times – mestres de escravos e homens libertos – quando na verdade está jogando apenas no seu, e é exatamente isso o que ele fazia para dobrar os conselheiros do sobrinho Joffrey. Eu aposto que esse jogo não vai funcionar por muito mais tempo, especialmente ao lidar com os escravagistas, mas uma coisa é certa: ele continuará jogando.

O compromisso de “paz” proposto pelo anão soou mais como um ardil para neutralizar os Filhos da Harpia, aplacando os mestres para e o suporte deles aos assassinos mascarados até a chegada de Daenerys. Ele sabe que a rainha jamais honraria um acordo onde homens e mulheres continuariam a viver como escravos por mais 7 anos, assim como sabe que não pode acabar com o sistema sozinho. Não foi à toa que a série mostrou, de bem maneira realista, como Missandei e Verme Cinzento discordavam da proposta do Duende – ainda que não tivessem outra saída além de apoiá-lo.

Na minha última análise, eu disse que Tyrion estava se transformando na Daenerys. Nesse episódio ele provou que eu estava errado e fez mais do que beber vinho, saber das coisas e soltar frases de efeito. Como James Poniewosik escreveu para o New York Times, “enquanto Daenerys muda o mundo, Tyrion tenta consertá-lo”. Ela é o coração, e ele, a cabeça.

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Varys ficou tão quieto quanto a mobília durante as negociações

Me perdoe, Tyrion. Você não é a Quebradora de Correntes, não é a Não-Queimada, e certamente não é a Mãe dos Dragões. Mas depois daquela cena final, bem que você queria ser.

Au revoir, Shoshanna!
É errado pensar em Daenerys, a Estranha, como a típica “donzela em perigo”. Sim, ela foi raptada e, sim, existem dois homens – apaixonados por ela, diga-se de passagem – que estão indo ao seu resgate… mas ela realmente precisava deles?

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Se eu fosse Jorah, já teria passado minha escamagris para o Daario

A maior consequência do final de “Book of the Stranger” não foi a mortes dos khals, mas também uma completa mudança de paradigma na cultura dothraki. Como a mudança nos costumes da Baía dos Escravos, esse acontecimento pode não sair barato, mas foi o um começo grandioso para algo que pode tornar-se ainda maior.

Antes do julgamento, Daenerys passa o tempo descobrindo o quanto tem em comum com as viúvas do Dosh Khaleen. A jovem lhazarena capturada e desposada por um khal aos 12 anos, espancada depois de ter tido uma filha mulher e ficou viúva aos 16, foi provavelmente uma das motivações de Dany para fazer o que fez no final do episódio. Ela não pôs fogo no templo apenas pela própria liberdade, mas pela liberdade de todos em Vaes Dothrak.

Quando entrou no templo das Dosh Khaleen, Dany sabia que teria uma vantagem. Os senhores dos cavalos estavam ali reunidos para decidir o destino dela e, por isso, certamente ignorariam qualquer ameaça que ela pudesse representar. Lembram do discurso de Tyrion sobre usar suas próprias fraquezas como benefício? Graças à sua insubordinação, os dothrakis decidiram que Dany seria estuprada por cada khal, companheiro de sangue e cavalo presente na cidade, mas se enganaram ao pensar que essas ameaças seriam proferidas contra a última Targaryen sem nenhum tipo de implicação.

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Nos livros, Daenerys não é imune ao fogo (leia sobre isso aqui)

Toda a sequência foi fantástica. A começar pela cinematografia, a direção, os efeitos especiais, a trilha sonora e, claro, as atuações.  Até Emilia Clarke surpreendeu com seu discurso claramente inspirado em Khal Drogo e a nudez, que por tanto tempo recusou a mostrar de maneira gratuita (e com toda razão). Esses componentes formaram uma poderosa união, provendo a Daenerys um ponto de partida catártico para o próximo arco de sua longa história. Com todos os dothrakis somados ao seu exército de Imaculados, aos Segundos Filhos, e aos seus dragões, ela finalmente tem o poderio militar necessário para desfazer o nó de Meereen e, então, tomar seu lugar de direito no Trono de Ferro de Westeros.

A agência da personagem ficou clara nesse momento, onde ela não só reafirmou sua autoridade como ainda se mostrou como uma verdadeira força da natureza, que não precisou dos dragões porque ela é um dragão. Como disse Quaithe na segunda temporada: “dragões são fogo feitos de carne”. E fogo é poder.

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