Um Jogo de Rainhas: as mulheres de Game of Thrones

A fã de Game Of Thrones e pesquisadora Paloma Destro nos enviou sua dissertação do Mestrado em Comunicação pela UFJF, cujo título é Um Jogo de Rainhas: as mulheres de Game of Thrones. Nesse trabalho, Paloma realiza uma análise das identidades da mulher representadas em Game of Thrones através de três personagens de destaque da primeira temporada: Cersei Lannister, Catelyn Stark e Daenerys Targaryen. Como este é um tema recorrente aqui no site e também bastante apreciado entre fãs da história, disponibilizamos abaixo, um texto (de autoria da Paloma) sobre o referido trabalho e no final desse post, o link para download da dissertação.

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Cada personagem analisada é peculiar por si só e representa uma das variáveis identidades femininas existentes em nossa sociedade. Cersei Lannister é mãe, amante, esposa, rainha, estrategista, mas, acima de tudo, é o retrato do sujeito individualista presente na contemporaneidade. É uma personagem narcísica: vê a si mesma em tudo o que ama (o irmão gêmeo, seu lado masculino, e os filhos, que representam sua continuidade), sendo que todos os seus movimentos protetores culminam para a sua manutenção na guerra dos tronos.

Cersei

Cersei almeja o poder total, apesar de, algumas vezes, ser freada pelos fatos (como no episódio da morte de Eddard Stark). Ela atualiza Lady MacBeth, sempre trabalhando para deter as cordas do poder disfarçado em amor, sentimento este que ela apresenta como razão de suas ações. Gananciosa, joga sempre para ganhar. Não importa que altere a verdade dos fatos: Cersei, maquiavelicamente, demonstra que os fins justificam os meios.

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Catelyn Stark representa, mais do que a mãe, a matriarca. Inicialmente relegada ao âmbito do privado por sua ocupação social, trazendo à narrativa o estereótipo da mãe-esposa, as condições impostas pela vida e pelos conflitos de Westeros a levam para a esfera do público. É a mulher que sai das cavernas e vai à caça, à luta. Catelyn surge como uma personagem de fundo e acaba, pelo desenrolar da narrativa, se tornando protagonista. A ausência do marido faz com que assuma o papel de mãe e de pai. Ao mesmo tempo, sofre metamorfoses, revelando, a cada virada na trama da narrativa, uma nova identidade, uma nova Catelyn: a mãe, a justiceira, a estrategista, a protetora, a vingativa, a conselheira, a embaixatriz, a negociadora. Ela é o reflexo de muitas mães que conhecemos, múltiplas, que conseguem corresponder a tudo aquilo que a vida lhes impõe e que, à sua maneira, tomam a frente das situações – principalmente quando se veem sozinhas na chefia da família.

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Ao contrário de Cersei, Catelyn é benevolente, altruísta. Suas motivações são os outros, sua família. Porém, por mais que seus motivos e finalidades sejam divergentes, a matriarca dos Stark e a rainha de Westeros acabam, no fim, convergindo para a figura que aos outros protege. Cersei, por ver nisso uma vantagem. Catelyn, por enxergar com olhos de amor – os mesmos que, atrelados a gestos passionais e incalculáveis, a acabam levando a cometer erros.

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Daenerys Targaryen se mostra uma excelente representação do indivíduo contemporâneo. De princesa exilada, se transforma em Khaleesi e, ao fim da temporada, em Mãe dos Dragões. São três vidas diferentes, tomadas, por nós, como três identidades. Contudo, uma não exclui a outra, haja vista os diversos conflitos vividos por Daenerys, em que sua educação westerosi difere da postura de uma Khaleesi. A personagem encarna a metamorfose pela qual todos nós passamos em nossas vidas, com sua identidade se transformando e entrando em crise, na medida em que se vê inserida em contextos e situações diferentes, que vão demandar determinadas reações. Ao fim, surge outra Daenerys, composta por diversas camadas, mas que tentará, certamente, ser e se sentir completa. Em cada momento demonstra aculturação, a qual permite, inclusive, conquistar o marido selvagem. Com ares de heroína, está pronta para dar prosseguimento à sua jornada de reencontro com seu reino, seu povo e, porque não, com o amor, já que ele foi o elemento motivador de suas grandes e profundas modificações. Os rituais pelos quais passa, o apoio encontrado nos ovos de dragão (que constituem o símbolo de um passado longínquo e lendário) e o apelo aos saberes da curandeira demonstram a necessidade do homem contemporâneo em buscar apoio nos amparos místicos e espirituais para tentar compreender o sentido da vida e a missão de cada um.

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Percebemos, então, o poder do amor como força condicionante da narrativa para as três personagens. Em Cersei, é o amor-próprio que intensifica seu caráter narcísico; em Catelyn, o amor materno e pela família, sua motivação superior; em Daenerys, o amor pedagógico e de conquista, já que ela ensina o marido a amar, transmitindo a ele sua sensualidade e permitindo que ambos descubram, juntos, os mistérios desse amor.

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A série, com seus ares medievais, se constitui em uma grande metáfora da sociedade contemporânea, conforme apontamos como uma das hipóteses do trabalho. Isso porque, ao ofertar ao seu espectador tão variadas leituras do “ser mulher”, Game of Thrones cumpre com seu papel midiático de vitrine para que o indivíduo se projete, se identifique, reconheça estereótipos e diferenças, forme seu senso identitário, tudo isso através de sua narrativa. Constata-se, assim, que os produtos midiáticos, como a ficção seriada, continuam buscando na realidade as bases para suas histórias.

Para fazer o download da dissertação, clique aqui.

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  • DihGamer

    E não vai ter Lady stoneheart nem Arianne martell…. -_-

  • Carol BB

    Olha… infelizmente discordo muito do texto da última imagem. Acho que os Reis fariam muito melhor se enviassem suas mães, especialmente Cersei e Cat para uma torre de isolamento. As duas só causaram! Pessimas influencias, pessimas decisões, pessimos aliados. Cat praticamente causou a morte do marido ao prender Tyrion na Eyrie, perdeu a guerra do filho ao soltar Jamie, e causou a morte de Brienne à faze-la jurar que traria suas filhas de volta. Cersei não precisamos nem exemplificar né? Criou um monstro, matou o marido, enlouqueceu, perdeu aliados, fez inimigos… se não tivesse sido trancada numa torre, teria levado os Lannisters ao fundo do poço.

  • Wellington Schettini Junior

    Belo tema a ser abordado, já que é um conto onde as mulheres tem tanta força, pena o foco ter sido apenas na primeira temporada e não no contexto inteiro, poderiam citar as mulheres da casa Mormont, ou a Greyjoy ou até mesmo Arianne Martell… enfim essa história tem muito o que se falar do poder feminino e da força dele para com a sociedade. Belo trabalho.

  • As mulheres que vc citou são destaque nos livros, não na série.

  • Wellington Schettini Junior

    eu sei… Lidiany só quis dizer que no contexto de toda a história existem outras mulheres que também poderiam ser citadas como exemplo.

  • Wellington Schettini Junior

    eu sei, porém minha intenção foi mencionar que em todo o contexto da história contempla várias mulheres de com personalidades peculiares que merecem sempre destaque.

  • Fyama Santos

    Nota máxima, com certeza. rs !

  • Paula Renata Carvalho

    Odeio ter que concordar 🙁

  • Homero

    Catelyn, não fez tanta besteira assim…
    Se Tyrion não a tivesse visto na estalagem ela o teria deixado livre, Não havia como explicar a presença dela longe de Winterfell. Ela o levou para o Vale e teria um ótimo refém para negociar, se a Irmã não estivesse pirada e aceitado o julgamento por combate.
    Acho que o Ned foi bem mais ingenuo do que ela e causou a própria morte… Como já sabendo que a coisa estava estranha. que ia peitar os Lannisters não pediu reforços no norte sabendo que a guarnição lannister era maior que a dele?

    Catelyn que conseguiu o apoio dos Frey e foi o Robb que fez merda ao não casar conforme havia sido combinado.

    Quanto ao Regicida, ela fez besteria mesmo mas acho que a justificativa foi boa… Tola, mas boa.

    Cersei É inteligente, mas louca… Perdida no próprio egocentrismo, seu maior defeito é achar que todos os outros são tolos e inferiores a ela… A paranoia também atrapalhou bastante… Faltou a frieza, objetividade e perspicácia do Pai.

  • Benjamim Oliveira

    Faltou Brienne . Considero Catelyn um desastre , renegou Jon , fez o acordo que levou ao casamento vermelho ,prendeu tyron e complicou a vida do marido em KingsLand , confiou em Mindinho e está para fazer mais besteira no fim do ultimo livro . Ela representa a boa vontade fracassada .

  • Joao Palmadas

    Minha mãe favorita nessa história é a Olenna Tyrell, que aconselhou o filho a ficar de fora dessa confusão de guerra dos reis, mas não foi ouvida.

    Espero que nos contos do Dunk e do Egg apareça a jovem Olenna.

  • Calopes

    Vejo a oportunidade de contrapor a Cersei do seriado à dos livros.
    Creio que a atuação estupendamente imponente e magnetizante de Lena Headey, transcendeu ao personagem literário a tal ponto, que se a Cersei estiver na implacável mira do autor, abatedora de tantos membros da realeza abruptamente , ele terá que fazer uma revisão.
    Parece-me muito difícil imaginar uma temporada sem ela.

  • Anon Anonimo

    o.Ô

  • Patrick

    Gostei do texto mas acho que ela poderia ter escrito algo sobre a tia Mel.
    Nossa querida sacerdotisa vermelha,também é uma mulher de fibra

  • Joao Palmadas

    Isso dela confiar no Mindinho não é tão estupido assim, afinal todo mundo nessa história confia no Mindinho.

    Com exceção do Varys e do Tyrion.

  • Gildo Cravo Batinga Neto

    Sinceramente, não gostei do texto, puramente descritivo e focado na série. Muito além do padrão apresentado em A Guerra dos Tronos e a Filosofia.

    É verdade que todas as três personagens já foram abordadas de várias maneiras. Basicamente, nós temos: Catelyn a moralista, Cersei a egoísta e Daenerys a inexperiente/respeitosa. Cada personagem tem sua índole, a sua propensão natural.

    A depender do momento da trama elas apresentam outras facetas de suas personalidades adquiridas em vida. Perceba, a índole é a característica da personalidade com a qual a pessoa nasce.

  • Carol BB

    Ou seja, ambas tem justificativas, porém fizeram diversas bobagens extremamente custosas para o povo e para suas famílias. E a falta de bom senso delas pode inclusive ser notada na criação dos filhos mais velhos, que em ambos os casos são os mais parecidos com as respectivas mães. Robb e Sansa padeciam dos mesmos erros justificáveis por amor e ingenuidade. Joff do mesmo egocentrismo e loucura de Cersei….

  • Homero

    Quase todos os Starks fizeram bobagens… Nenhum deles estva preparado para o Jogo dos tronos. Acho injusto crucificarem só a Catelyn.
    E O Jofrey tem duas grandes diferenças em relação a Cercei: Era Burro e Sádico.

  • anna paula romano

    Não curti… Achei superficial… Talvez se fosse uma análise de um psicólogo, seria mais interessante…

  • Heitor

    Concordo 100% com você. Cat fez péssimas decisões apesar de boas intenções. Pessoas em posição de poder deveriam ser mais sábias e conhecer política. Milhares morreram por isto.

  • Bruno Lacerda Balbi

    Enquanto lia lembrei de um artigo que tem aqui no gotbr com dicas do Martin para escritores:

    “eu acho que a humanidade que todos os meus personagens compartilham é mais importante do que se são homens ou mulheres, princesas ou camponeses, altos ou pequenos”

  • ferakmi

    Ela tambem é burra, mas não diretamente. As cagadas que ela fez no quarto livro são impressionantes.
    A unica diferença é que ELA acha que é esperta, quando na verdade só consegue afundar a sí mesma.

  • mauricio braglia

    Falou tudo esta sim uma grande personagem que na minha opinião vai ver o final da estoria e sentada na primeira fila.

  • Maquiavel: Monsieur du safadôn

    Eu já acho que nos livros Cersei é muito mais bem explorada do que na série. Concordo que a atuação da atriz seja muito boa. (Ps: se o Martinho não matar a Cersei, eu mato esse véio hehe)

  • Maquiavel: Monsieur du safadôn

    PQ? Concordar é tão legal poxa ^^

  • Devanil Júnior

    Fabuloso. Vi nos comentários alguma galera reclamando dos erros feitos pelas mulheres. Que eu saiba em nenhum momento a série ou a dissertação reivindicaram a supremacia do acerto. Aliás, NENHUM personagem acertou tudo. Isso não tira o mérito e os defeitos de ninguém, seja homem ou mulher. A grande realidade é que ACRESCENTA a representação feminista da série: mulheres são tão profundas e cheia de personalidade como homens, com erros e acertos.

  • Carol BB

    Não acho que só Cat deva ser crucificada por suas decisões. Só disse que discordo da frase do banner acima “all those kings would do a deal better if they put down their swords and listen to their mothers”. Primeiro porque as mães são tão belicosas quanto os filhos. Nem Cersei nem Cat semearam a paz. Pelo contrário, ambas buscaram a guerra. E, nenhuma das duas pode ser considerada uma estrategista sábia. As duas, ainda que com intenções justificadas, fizeram grandes bobagens políticas. Só isso. Acho que os outros starks e vários outros personagens também fizeram várias bobagens. Porém, isso não exime as bobagens da personagem Cat.
    Compreendido?

  • Thiago Lins

    Que feio colocar a culpa do Red Wedding na Cat. Não gostei.

  • Carol BB

    Eu tbm! Adoro a Olenna! Forte e sábia. Essa sim deu bons conselhos e mostrou que sabe jogar como ninguem. Não é qualquer um que mata o rei na frente da corte inteira e sai ilesa. Tbm queria ver mais sobre a história dela!

  • Carol BB

    Concordo! Parem de defender as burradas politicas da cat! Ela pode ser forte, honeste, mãe amorosa… Varias qualidades, menos boa estrategista!

  • RedBeardz LoL

    Meu deus o Ned morreu?