Entrevista com Neil Marshall, o homem que comandou a Muralha

Quando Game of Thrones vai para a batalha, os produtores chamam Neil Marshall. O diretor que comandou o ótimo Blackwater na segunda temporada voltou domingo à noite para dirigir a sequência de guerra mais ambiciosa da história da série até aqui: A Batalha de Castelo Negro.

Neil-Marshall

 

Foram mais de 100 figurantes, dois gigantes (reais!), E toneladas de efeitos especiais para montar a batalha épica entre A Patrulha da Noite e as legiões do Povo Livre em Game of Thrones, quando os selvagens, incluindo a arqueira Ygritte, finalmente avançaram em Castelo Negro. Traduzimos para vocês as entrevistas que ele deu aqui e aqui quando o diretor contou sobre como foi trabalhar com gigantes reais, o efeito especial que ele guardou apenas para Jon e Ygritte, e sobre soltar a fera de Kit Harrington.

Jon Snow no topo da Muralha

Jon Snow no topo da Muralha

 

Kit Harington disse que “The Watchers on the Wall” foi o episódio mais caro da série até aqui. Como isso se compara a “Blackwater”, que supostamente custou US $ 8 milhões para filmar?

Ninguém nunca me contou os orçamentos de verdade. Eu acho que esse episódio pode ter sido mais caro sim. Tivemos muito mais efeitos visuais, desta vez, efeitos visuais muito mais complicados. Tivemos que construir a mesma quantidade de sets eu acho. Provavelmente é mais caro, mas ninguém me diz os orçamentos. Eles só me dizem quanto tempo eu tenho para filmar.

Alguns de seus filmes anteriores provavelmente custaram menos que isso.

Oh, sim, muito. Dog Soldiers  e The Descent foram muito menos caros do que isso. É provavelmente par a par com Centurion. [Nota do editor: O orçamento de Centurion é listado em US $ 12 milhões.] A quantidade de extras, etc. Mas todos os meus filmes ficaram prontos em cinco ou seis semanas.

Quantos dias você teve para filmar esse episódio?

Tivemos cerca de quatro semanas no total. Pelo menos uma semana disso foi gasto em um estúdio de tela verde fazendo o trabalho de captura de movimento, filmando os gigantes e coisas assim, que foi muito complicado logisticamente.

Você tinha gigantes e mamutes. Isso era tudo CG?

A única coisa que não é real é o próprio mamute, que é 100 por cento de CGI. Os gigantes são ambos interpretados por atores. Um deles tem tipo 2,30m e o outro devia ter perto de 2,50m, ele é tipo, o homem mais alto da Europa. Eles vieram para o estúdio de tela verde onde filmamos eles e o que fizemos foi dobrá-los de tamanho, basicamente. Eles são 100 por cento reais, apenas maiores que o normal.

Gigantes

Gigantes

E quando eles estão montando o mamute?

Ele é real, mas tivemos uma espécie de touro mecânico. Tivemos um dispositivo que era assim, mas construído sobre a sela para um mamute. Ele iria ficar em cima disso e contra o fundo verde. O touro simularia todos esses movimentos de equitação e eles adicionariam o mamute debaixo do ator. Isso é o que a tornou tão complexa. Parece bastante simples, mas é muito tempo e logística consumidos.

Os produtores disseram que, obviamente, não existe uma muralha, então como foi ter toda a ação baseada em algo que não existe?

Temos um segmento da Muralha. Há um pouco da parede de gelo no estúdio que usamos para algumas cenas e há outra parte da Muralha na parte de trás do cenário de  Castelo Negro. Mas tudo é fabricado, CG, ou pinturas foscas. Então nós temos um conjunto em estúdio novamente para o topo da Muralha. Então, tudo o que envolve a Muralha é CGI em algum lugar. Tivemos que construir todo um novo set para o topo, e foi um set enorme. Tivemos o maior cenário na Europa criado para este set. É absolutamente enorme. Tenho certeza de que tem as dimensões em algum lugar, mas eu não tenho aqui comigo. É bem mais de 30 metros de altura, mas eu não poderia dizer com certeza qual a altura. Eles fizeram isso no Pinewood Studios, em Londres e é o maior set único que eles provavelmente já fizeram. O conjunto em si teve que ser construída 6 metros acima do chão para que pudéssemos obter bons âgulos de todos que estavam no topo. Era uma espécie de um ambiente perigoso, muito difícil de trabalhar – havia trincheiras de gelo e coisas assim. Mas parecia espetacular.

O tempo estava melhor do que esteve quando você dirigiu “Blackwater”? Lembro-me de ler sobre a lama e chuva nessas filmagens noturnas.

Não mesmo. Todas as cenas eram noturnas e foram no mesmo local que gravamos “Blackwater”, na pedreira. Tivemos alguma chuva torrencial. Uma noite, o cenário literalmente inundou. Em um momento eu estava em pé sobre uma caixa de maçã no que parecia mais um rio do que o set, tentando assistir em um monitor para ver como as cenas ficaram. Nós apenas tivemos que continuar.

Eu sempre ouvi durante as entrevistas, e notei quando estava no set em Belfast, o quanto chove durante as cenas. E a menos que seja muito pesado, você não percebe a chuva em um filme. Os fãs não percebem quantas cenas na série são realmente feitas na chuva.

Há um momento em Blackwater onde Tyrion faz o seu discurso para os homens, e você pode claramente dizer que foi um aguaceiro naquela noite, e que tinha sido nos últimos dias. Neste episódio, Alliser Thorne deu o seu grande discurso e os céus se abriram e começou a chover. Eu acho que o que eles fizeram é limpar a chuva [digitalmente], o que é surpreendente, considerando o quão pesado era. Na época, eu pensei, “Oh, não, as pessoas vão pensar que é minha marca: grandes discursos na chuva. Mas não podemos fazer quase nada sobre isso.

Há uma sequência quando Jon Snow desce do topo da Muralha e vemos toda a luta em 360 graus em torno do castelo. Como fizeram isso?

A primeira vez que entrei no set Castelo Negro, notei que é um conjunto de 360 ​​graus. Quando você está no pátio, você tem o cenário inteiro ao seu redor. Pensei imediatamente que eu queria fazer uma cena de 360 ​​graus do campo de batalha. E então percebi que essa imagem deveria estar ligando todos os personagens juntos em uma única cena, mostrando onde todos eles estão em uma parte individual da batalha. Nós ensaiamos por uma hora, todos os extras e os dublês e o movimento da câmera. A câmera na grua estava girando ao redor com tal velocidade que se tivesse atingido alguém poderia tê-los matado. Nós fizemos isso em sete tomadas, e não há nenhum truque lá, é tudo um corte só. Tivemos uma grande equipe técnica e uma grande equipe de dublês e eles trabalhavam em pontos específicos. Cada seção tinha um número e, conforme a câmera se aproximava gritávamos o número e quando ouviam eles começavam a ação. Quando você divide assim, torna-se muito mais simples, mas ainda assim, há sempre o fator X de alguém dar um passo para a esquerda e a câmera acerta-los ou algo desse tipo.

Também foi incrível quando um dos gigantes atira uma flecha a partir do solo e atinge o homem da Patrulha da Noite em pé na Muralha.

Essa foi uma idéia de vincular todos os três locais em conjunto, de um lado da Muralha para o outro. E nós filmamos em três locais diferentes! Filmamos o gigante atirando a flecha em um campo em frente a uma tela verde. O cara em cima do muro estava no set. Ele é açoitado para fora da Muralha, e depois fizemos uma terceira parte em Castelo Negro, onde ele cai. Então, ligamos os pontos.

Fale sobre administrar todos esses extras como eles estavam prestes a avançar na Muralha. Quantos eram?

Entre 100 e 200, e eles foram muito bacanas. Trabalharam com algumas condições miseráveis. Se vamos passar a noite em um cena muito molhada, temos capas de chuva e coisas assim. Mas se eles estão vestidos com peles e couro, eles simplesmente se encharcam. Mas todos eles continuaram voltando para mais, porque todos amam tanto participar. Então, quando você começa uma cena como essa e você tem uma centena de homens e mulheres todos gritando e gritando e agitando espadas e realmente entrando no papel, é bastante fenomenal.

Por que você decidiu enquadrar Jon e Ygritte em câmera lenta, o que não é algo que você vê muito em Game of Thrones.

Eu queria separá-los da batalha. Se estivesse em velocidade normal, sem som, pareceria estranho. Você faz isso em câmera lenta para colocá-los em uma pequena bolha. É muito sobre o que está acontecendo na mente de Jon. Ele não está pensando sobre a batalha agora, por isso não devemos estar lá. É raro usamos câmera lenta no show, reservei isso para essa cena e só para ela.

Como foi sua experiência atual comparada com “Blackwater”, em que você foi chamado meio que no último minuto para fazer?

Bem, eu tive muito mais tempo de preparação, com certeza. Eu só tinha uma semana de preparação em “Blackwater”. Nesse sentido, eu fui muito melhor preparado. Mas é muito similar. Estavamos tentando chegar a formas novas e interessantes para manter a ação fluindo, manter as pessoas envolvidas para que não se torne repetitivo, mas também incidir sobre os personagens e sobre o drama deles não deixando que esses elementos maiores afoguem isso. Game of Thrones é sobretudo sobre os personagens. Honestamente, porém, era basicamente o mesmo. Da última vez, eu tinha uma grande barco que não existia. Desta vez eu tive mamutes.

Você também trabalhou com um elenco diferente de personagens dessa vez. Harrington é muito o âncora do episódio.

Ele trabalhou muito duro. Ele esteve fazendo coreografias de lutas e ensaios há semanas. Depois de três temporadas, foi como deixá-lo fora da gaiola, pela primeira vez. Nós vimos o seu potencial, pequenos vislumbres do que ele é capaz de fazer. Mas era como se de repente tivéssemos libertado a fera.

Thorne foi bastante fodão também, o que foi outra surpresa – você acaba torcendo por esse cara que você não gostava há muito tempo.

Quando se trata de crise ele é da Patrulha 100%, e ele vai lutar até a morte para proteger Castelo Negro. Ele pode não ser um cara legal, mas ele sabe o que dizer.

Qual foi o último dia de Rose Leslie no set?

Muito triste. É sempre triste. Há alguns personagens que eu matei. É triste quando você está dizendo adeus. Ela derramou algumas lágrimas.

Houve alguma coisa que você não pode filmar – que estivesse nos livros ou no roteiro original – por razões orçamentárias? Algo que você precisou reconfigurar?

Não que eu saiba. Acho que havia coisas como a foice. Eu nem sei se isso é dos livros ou não. Houve um pouco de pressão para cortarmos isso, pois estávamos presos em como fazer e vi uma forma de faze-lo. E estou muito feliz que mantivemos, porque ficou incrível.

A ceifadora era dúvida?

Tratava-se de como ela funcionaria, de onde veio aquilo, como você solta, com o que se pareceria, todas essas coisas tinham de fazer sentido e é isso que eu trabalhei. Havia segmentos da corrente que eram reais. A corrente era enorme, cada elo tinha quase um metro e meio de comprimento, porque a boca da lâmina é feita para ser de quase cinco metros de altura ou algo assim. A lâmina nunca existiu na realidade, mas uma grande parte do resto estava lá.

Notei que dessa vez não havia o aviso de nudez no início deste episódio que normalmente aparece antes da maioria dos episódios da série. Dois anos atrás, você mencionou um executivo no set representando o “lado pervertido” da produção. Você não teve isso desta vez. Olhando para trás, acha que isso foi necessário em “Blackwater”?

Eu não acho que eles são gratuitos com a nudez em Game of Thrones. É uma parte muito importante do mundo. Há muito disso, mas esse é o mundo em que eles vivem. A nudez nunca está lá para distrair da cena ou os atores ou história. Eu acho que no momento em que parar a história para se concentrar em nudez então, sim, eles estarão fazendo ao show algum dano. Mas, enquanto ele é parte integrante do mundo, isso é bom. Esta é a Patrulha da Noite, por isso não houve nada acontecendo aqui. Eu tenho que focar no caos e na carnificina.

Quando dirigiu “Blackwater”, você não tinha lido os livros. Você já pegou os livros desde então ou assistiu a série toda a série?

Estou assistindo a série conforme ela passa. Acompanhei  essa temporada avidamente. É a primeira temporada que eu assisto em uma base semanal, que é uma espécie de punição. No passado, eu só pegava o Box de DVD assitia a coisa toda. Vê-lo semana após semana é difícil, mas vale a pena esperar.

Você estará de volta no próximo ano?

Não na próxima temporada. Mas se eles precisarem de mais uma batalha, espero que me liguem!

 

Só falta mais um episódio galera! Usem e abusem do espaço de comentário, mas sem spoilers! Ah e pra quem não viu, como o Rafael Comentou, o diretor fez uma pontinha como arqueiro no episódio, no momento em que Jon Snow manda disparar:

Neil Marshall ajudando a Patrulha

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  • Eduardo Soares

    Muito legal.

  • Tassio Luan

    A Muralha é sua, Neil!

  • Thaynan Galhardo

    Que legal essa entrevista. Adorei!! Obrigada pela tradução galera!!

  • Bruno Lacerda Balbi

    Com certeza!

  • Bruno Lacerda Balbi

    consigo pensar em uma cena no futuro onde poderemos te-lo de volta…. 🙂

  • Thales Quintiliano

    Ele é o cara!!!!Espero que chamem ele para a próxima temporada!!

  • Don Ramon

    Grande diretor que merece alguma chance em HW

  • Nymeria Sand

    Excelente entrevista! Mesmo sabendo que cada segundo na tela equivale a horas de trabalho, ainda me surpreendo com a complexidade que é fazer cada cena.

  • Giovanna Givoni

    vou sentir saudades de assistir a Rose Leslie

  • Raquel Oliva

    usaram tanto orçamento com cgi que faltou pra contratar figurante e até diretor entrou na brincadeira haha