George R. R. Martin – Entrevista completa e não editada ao Observation Deck

Durante a Comic-Con de San Diego deste ano, a editora do io9, Charlie Jane Anders, fez essa excelente entrevista com George R. R. Martin. Fã da saga e do autor, Charlie aproveitou para perguntar sobre o começo da saga e a evolução da história para Martin, além da sua relação com a adaptação, com os leitores e sobrou até espaço para saber sobre outros projetos, novos e velhos. Atencioso como sempre, Martin contou um pouco do que foi para ele (e como tem sido) ser o autor dessa saga, ameaçou matar mais alguns personagens e escrever mais do que sete livros…

Confira a tradução do original.

ATENÇÃO: esse post pode conter spoilers de TODOS os livros da série, além de O Senhor dos Anéis e Sherlock Holmes. Você foi avisado!

George R. R. Martin, Esmé Bianco e fãs na San Diego Comic-Con 2013

Então, me passou pela cabeça agora, que você já está trabalhando nesta série há mais de 20 anos.
É meio assustador perceber isso, sim. Mas lembre-se que, vez ou outra, eu trabalhei em outras coisas também, apesar de ter começado a escrever As Crônicas em 1991.

Há cenas que você sonhou em 1991 e que você está finalmente começando a escrever agora?
Sabe, eu bolo um monte de coisas, mas não necessariamente escrevo todas elas. Tenho “arquivos” de ideias sobre livros que gostaria de escrever um dia, mas eu provavelmente nunca vou chegar a escrevê-los. Algumas passagens estiveram nesses “arquivos” por 40 anos. Eu não sei, é sempre o que você está sentindo vontade de escrever em um dia em particular.

Mas há cenas nas Crônicas de Gelo e Fogo que você sonhou há 20 anos, que está finalmente escrevendo agora? Momentos que você estava animado para que finalmente chegassem?
Sim. Eu não sabia no início, em 91, eu ainda não sabia bem o que eu tinha. Eu nem sabia se era um romance ou uma novela (tipo de narrativa geralmente menor que o romance e maior que o conto, geralmente centrada em apenas um núcleo ou em apenas um personagem) ou algo assim no início. Então eu meio que tive que descobrir isso. Mas, no verão de 91, isso veio a mim do nada, e eu comecei a escrever e seguir onde a maré me levava. No final daquele verão, eu sabia que tinha uma grande série. Inicialmente eu pensei que era uma trilogia, mas a coisa foi além. O tamanho é outro e eu acrescentei alguns outros elementos nos livros, com os mesmos personagens de 91.

Quando você pensou que era uma novela, sobre o que você achava que seria?
[ risos ] Oh, cerca de 30.000 palavras. Eu não sei. Eu não trabalho dessa forma. Sabe, eu tinha as cenas, tinha os personagens, eu tinha uma espécie de sequência de para onde isso iria. Em algum momento, eu parei e desenhei um mapa, e nesse momento eu acho que já sabia que tinha que ser pelo menos um romance. Provavelmente, tinha que ser uma trilogia. Em 91, trilogia ainda era o modelo que todos que escreviam sobre fantasia usavam. Jordan foi quem quebrou esse conceito, indo além do conceito de trilogia, e não tenho certeza se isso já tinha acontecido ainda, em 91 (Robert Jordan autor da saga A Roda do tempo que ao todo teve 14 livros).

O que fez você perceber, no meio do primeiro romance, que tinha de ser mais do que uma trilogia?
Foi bem no final, foi por volta de 95 que percebi que tinha que ser mais do que uma trilogia, porque eu tinha 1.500 páginas do manuscrito e eu não estava nem perto do fim do primeiro livro. Então eu disse: “Eu sei que essa história não vai caber em três livros. Eu vou ter que quebrar esse primeiro livro em dois só pra começar”. Foi aí que eu percebi que exigiria uma certa quantidade de reestruturação, mas voltei e fiz isso, tirei cerca de 300 páginas ou mais, foi o que tornou-se o início do segundo livro. E mudei algumas coisa de lugar.

E por um tempo eu dizia, “Bem, é uma trilogia de quatro livros”. Havia precedentes para isso. Gene Wolfe, um amigo meu , escreveu uma série de quatro livros, a ” trilogia de quatro livros”, ele costumava brincar sobre isso. E então, em algum momento no final do processo, quando a mesma coisa que aconteceu com o primeiro livro aconteceu com o segundo, eu percebi “Bem, talvez sejam seis livros”. Eu nunca disse cinco, eu saltei direito de quatro para seis. E então, durante anos, eu diria que era uma série de seis livros. E então Parris, minha esposa, ficava atrás de mim mostrando sete dedos. Então agora eu estou dizendo sete, mas não faço mais promessas.

"Estou falando do tamanho dos livros! Na minha época eram desse tamanho!"

“Estou falando do tamanho dos livros! Na minha época eram desse tamanho!”

Você sempre diz que “o conto cresce enquanto é contado” (do original: the tale grew in the telling).
Essa frase é de Tolkien na verdade, eu roubei isso. Porque O Senhor dos Anéis começou inicialmente como uma sequência de O Hobbit. E inicialmente só deveria ser um livro para crianças, uma pequena aventura de um Hobbit. E isso, obviamente, se tornou algo muito, muito maior.

Existem quaisquer personagens por quem você tenha, tipo, caído de amores? Que você tenha, simplesmente, ficado excitado por mais?
Eu ainda amo todos os personagens. Mesmo alguns que não são muito amáveis. Pelo menos os personagens com ponto de vista. Quando estou escrevendo, no ponto de vista de um desses personagens, eu estou realmente dentro de sua pele. Então, você está tentando ver o mundo através de seus olhos para entender por que eles fazem as coisas que fazem. E todos nós, até mesmo personagens que são pensados para serem maus, que são maus, em algum sentido objetivo, não se consideram bandidos.

Há uma história em quadrinhos, ou algo parecido, em que o Caveira Vermelha (vilão da Marvel Comics) se levanta de manhã e pergunta: ” Que maldade eu posso fazer hoje?” As pessoas reais não pensam dessa forma. Todos pensamos que somos heróis, todos nós pensamos que somos os mocinhos. Temos nossas racionalizações quando fazemos coisas ruins. “Bem, eu não tinha escolha”, ou “É a melhor alternativa entre várias ruins”, ou ainda “Não, foi uma boa coisa, porque Deus me disse isso “, ou então “Eu tive que fazer isso pela minha família”. Nós todos temos racionalizações pelas bobagens que fazemos ou coisas egoístas ou coisas cruéis. Então, quando eu estou escrevendo do ponto de vista de um dos meus personagens que fez essas coisas, eu tento ter isso em mente.

É o que eu faço, por isso há uma empatia lá que me faz amar mesmo pessoas como Victarion Greyjoy, que é, basicamente, estúpido e brutal. Mas ele se sente ofendido e vê o mundo de uma certa maneira. E Jamie Lannister e Theon Greyjoy , todos eles têm os seus próprios pontos de vista. Eu amo todos eles. Alguns eu acho que amo mais do que os outros.

Isso é uma coisa que eu amo sobre sua escrita, você captura esse monólogo interior que as pessoas têm, onde falam a si mesmos em que acreditar, em uma narrativa fixa. Mais ou menos como Sherwood Anderson. Você já leu Winesburg , Ohio?
Não, não li.

É sobre pessoas que ficam obcecadas com uma ideia e decidem que ela é verdade. O que os transforma em uma espécie de monstros.
Bem, é claro que você vê isso na vida real com um monte de pessoas religiosas.

Onde estou tentando chegar é que você teve esses personagens e lugares por 22 anos, e isso é muito tempo para viver com um determinado conjunto de personagens. Você não perdeu o interesse em qualquer um desses personagens durante todo esse tempo?
Veja, não realmente – porque eu não terminei a história que eu quero contar. A história que começei a contar em 1991, ainda não está completa. Acho que se eu finalmente terminar esses sete livros, ou quantos forem necessários, estarei cansado deles. Eu não vou estar necessariamente aberto para voltar e contar mais histórias sobre aqueles que sobreviveram. Aí você tem algo como Sherlock Holmes e as Cataratas de Reichenbach, esse tipo de coisa, “Estou farto de Sherlock Holmes, eu nunca mais quero escrever mais histórias sobre ele”.

Mas eu não terminei ainda. Sejam quantos livros forem, quantas palavras tiver, ainda é a mesma história. Uma história que ainda não terminou. Quero terminar de contar essa história. Aí então eu vou me preocupar com isso.

Agora, eu me distraio com outras histórias. Estou propenso a me apaixonar por ideias e me apaixonar pelos personagens. Então, às vezes eu vou estar escrevendo algo mais, trabalhando em outra coisa. E é um momento de paixão. “Oh, eu queria poder fazer isso”. Mas não é uma rejeição à Gelo e Fogo, é mais um breve período de amor com uma nova ideia, que de repente está em minha cabeça e eu realmente quero escrever sobre essas outras pessoas que estou pensando. “Hum, isso é interessante”.
Eu tenho dado muitas entrevistas, e falado sobre minha ideia de como escritores se dividem entre jardineiros e arquitetos, e como eles abordam o material. Eu sou muito mais um jardineiro. E eu não sei de onde essas coisas vem. Eu não sou um cara espiritual, não creio que se trata de uma musa. Eu não tenho certeza sobre essas coisas de lado esquerdo, lado direito do cérebro, talvez seja algo parecido. Está vindo da minha mente, obviamente, mas não necessariamente vindo do meu consciente, da minha mente prática.

É como se essas ideias, esses personagens, estivessem em uma espécie de bolha dentro de minha mente e um dia eles não estão lá e no dia seguinte eles estão lá. Eles estão vivos e estão sussurrando na minha cabeça, e eu quero escrever sobre essas coisas. Isso é o tipo de coisa que acompanha o que todo escritor diz sobre ter uma musa [ inspiradora ], e eu sei que irrita os meus fãs – alguns deles pelo menos – que eu ainda trabalhe em Wild Cards ou ainda faça outras coisas. Mas amo isso. Eu amo fazer coisas diferentes.

Há um perigo de fazer apenas um projeto, e nada mais, e ficar preso em um entrave criativo ou em qualquer outra coisa.
Tem que haver um nível de alegria no que você está fazendo.

Você realmente disse uma vez que “não gosta de escrever”, mas “gosta de ter escrito”?
Sim. O que não é uma coisa só minha também. Um monte de escritores dizem isso. Mas escrever é difícil. Quer dizer, eu sento lá e trabalho para isso.

Há dias em que eu me levanto e digo: ” Para onde diabos o meu talento foi? Olhe para essa porcaria que eu estou produzindo aqui. Isso é terrível. Olha, eu escrevi isso ontem. Eu odiei isso, odiei isso!” E eu posso ver uma cena na minha cabeça, e quando eu tento coloca-lá em palavras no papel, as palavras são desajeitadas, a cena não está do jeito certo. É tão frustrante. E há dias em que simplesmente flui. Abrem-se as comportas, e lá está. Páginas e páginas chegando. De onde diabos isso tudo vem? Eu não sei.

Eu tive, desde muito cedo na minha carreira, antes mesmo de ser um escritor profissional – vou voltar agora para os meus dias de fanzine nos anos 60 e 70 – eu era muito propenso a histórias que começam e nunca terminam. Eu tinha alguma grande ideia e queria começar uma história, eu ia escrever algumas páginas, cinco páginas, dez páginas, e nunca era tão bom como quando estava na minha cabeça. Era essa coisa incrível, de eu colocar no papel, e nunca ser tão bom quanto eu imaginava que seria. Então eu pensava em alguma outra ideia, e eu dizia, “Sim, esse vai ser realmente mágico!”. E eu colocava de lado o outro feito pela metade.

Um dos grandes avanços, acho que para mim, foi quando li sobre as quatro regras de escrita de Robert A. Heinlein, uma das quais era: “Você deve terminar o que você escreve”. Eu nunca tive qualquer problema com a primeira: ” Você deve escrever ” – eu estava escrevendo desde que eu era criança. Mas eu nunca terminava o que eu escrevia, então percebi que realmente precisava terminar essas histórias. Não me fazia bem ter essa gaveta cheia de fragmentos e estar sempre perseguindo a próxima ideia, que é muito melhor, mais bonita, muito mais fascinante do que a ideia de que você está realmente trabalhando.

Então, eu comecei a terminar as coisas. E eu estou compelido e determinado a terminar As Crônicas.

As pessoas têm essa ideia de que lá atrás, quando as Crônicas de Gelo e Fogo começaram como uma trilogia, uma das partes da história era uma única linha que dizia, “E enquanto isso, os nobres brigam pelo poder em Westeros”. E que essa linha se transformou em algo em torno de três ou quatro livros da série. Há alguma verdade nisso ?
É um exagero grotesco, mas há pelo menos uma ponta de verdade sim. Você introduz personagens, e às vezes eles têm vida própria. Para alguns personagens principais – sim,  eu sempre tinha planos, o arco de Tyrion ia ser sobre isso,  o arco de Arya ia ser sobre aquilo, o arco de Jon Snow seria daquele jeito… Eu sabia quais seriam as principais mortes, e quando elas estavam chegando. Isso seria a coisa mais próxima.

Mas haviam alguns personagens secundários, como Bronn, capanga de Tyrion , [ que ] tornou-se um personagem tão popular. Ele veio do nada. [ Eu pensava ] : “Ok, Tyrion encontrou esses dois mercenários, Bronn e Chiggen, e um vai lutar por ele. Quem é que vai ser? Ok, vamos com Bronn”. Mas, enquanto eu escrevia sobre ele, ele desenvolveu uma personalidade própria. E o seu passado é super misterioso, você não sabe onde ele nasceu, de onde ele vem, mas ele é divertido de escrever. Ele aparece em uma cena – e uma vez que ele foi escalado para o programa de TV, e eles têm um ator maravilhoso interpretá-lo – ele se torna real.

Há personagens na série de TV, que eu sinto que, por causa dos atores que os interpretam, eles têm uma dimensão extra, isso repercurte nos livros? Você pensa sobre os atores? Como Natalie Dormer, por exemplo, o quanto ela é incrível como Margaery Tyrell?
Ela é sim, ela é incrível.

Você pensa sobre o que ela vai fazer com o material que você está escrevendo agora, enquanto atriz?
Em certa medida. Sabe, o exemplo mais extremo disso é Natalia Tena como Osha. Que é um personagem muito menor nos livros, tem uma personalidade de uma linha só, está lá realmente apenas para avançar o enredo e fazer certas ligações. E Natalia Tena a fez tão interessante e vibrante, um personagem vivo, e muito diferente. Natalia é muito mais jovem e muito mais atraente do que a minha Osha, que era dez, quinze anos mais velha, empedernida e vestida de couro…

Como a cena das garotas seduzindo Theon, que não está no livro.
E, com Margaery – minha Margaery é mais jovem do que Loras. Então, ela é realmente como uma garota de 16 anos. E Natalie é brilhante, mas ela claramente não é uma garota de dezesseis anos de idade. Ela é muito inteligente. Ela é quase o que a minha Margaery vai se tornar em dez anos.

Então, essas mudanças têm consequências. [ Além disso ] , há dois irmãos Tyrell esquecidos na série. A família Tyrell tem Margaery e Loras, e há dois irmãos mais velhos, Willas e Garlan nos livros. Nós temos o maior elenco na televisão, por isso não podemos nos dar ao luxo de acrescentar mais personagens, mas eu tenho o maior elenco na literatura, eu acho.

 Alguns estão especulando que poderia haver menos Martells na série de TV.
É possível. Eles não chegaram nesse ponto [da história]. Eu sei que eles estão, nós estamos, trazendo Oberyn este ano, houve aquela enorme controvérsia na internet sobre isso. Assim, definitivamente vamos ter a Víbora Vermelha e seu irmão Doran em algum ponto. E eu acho que teremos Areo e as Serpentes da Areia. Eu não sei. Eu escrevi esses livros, mas nunca sonhei que seriam filmados. Foi quase uma reação ao meu período em Hollywood. “Eu vou fazer algo tão grande quanto eu sempre quis”. Mas eu quebrei um monte de regras ao escrever esses livros, regras que você aprende como um escritor, regras que eu certamente aprendi também. Mas em certo ponto eu pensei: “Para o inferno com essas regras.”

Que regras?
Bem, com tantos personagens, por exemplo. Ter nomes semelhantes. Coisas assim. Lembro-me quando ainda era um escritor iniciante, eu aprendi a não ter dois personagens cujos nomes comecem com a mesma letra, porque as pessoas vão se confundir. Quando eu percebi que ia ter mais de 26 personagens, era mais uma regra que ia pela janela.

E eu também lia muita coisa sobre História. As pessoas diziam: “Talvez nunca se deva ter dois personagens com nomes começados com a mesma letra? Com certeza nunca ter dois personagens com o mesmo nome.” Mas então eu dizia , “Isso é tão irreal!”. Quero dizer, a história Inglesa é inteiramente composta de Henrys e Edwards. Há intermináveis Henrys e Edwards, e sabe, não só os reis, que, pelo menos, tem números (Henry VII, Edward III, etc), mas os caras que nunca se tornaram reis. Eles são príncipes, e então eles morrem. Eles não foram sequer distinguidos por números e é muito difícil manter todos esses caras em linha reta. Mas é assim que a história realmente funciona. Famílias que usam o mesmo nome de novo. E eu gosto desse elemento de verossimilhança, então adotei isso.

Sabe, os Starks têm [o nome] Brandon. Temos Bran, que é o filho, Brandon, irmão de Eddard e há outros Brandons, se você olhar na árvore da família Stark. [Incluindo Brandon o Construtor]. E muitos Brandons entre eles. Como os ingleses com seus Edwards ou Williams. Mesmo que eles não nasçam Edward ou Henry, eles parecem sentir a necessidade de adotar esse nome ao se tornar rei. Como David era o rei que abdicou, seu nome era David, mas quando se tornou rei, ele disse “Eu sou Edward Oitavo agora”. Mas em toda a sua vida ele tinha sido David. Em vez de ser o David Primeiro, ele decidiu ser o Edward VIII. Ser David não era bom o suficiente.

“Rei David” Parece que você está indo lutar contra Golias.
Isso é interessante para mim. Se o príncipe Charles se torna rei, qual seria o seu nome?

Charles III?
Charles III. Mas esse é um nome azarado. Quero dizer, Charles terceiro foi Bonnie Prince Charlie (um pretendente ao trono da Inglaterra que tentou iniciar uma rebelião para restaurar a dinastia dos Stuart, uma tentativa que seria derrotada), supostamente, e é um nome de Stuart – e não houve um Charles desde Charles II (1630-1685). Charles I teve sua cabeça cortada. Charles II era o rei da revolução. Então Bonnie Prince Charlie reivindicou o título Charles III. Então, será que eles realmente escolheriam Charles III, ou ele vai dizer: “Ah, eu sou Edward IX agora? Ou George? George o sétimo?”, eu acho que seria mais ou menos assim.

Quando você criou a personagem Arya, você sabia que ela iria se tornar uma assassina?
Bem, ela não é uma assassina ainda. Você está supondo que ela vai se tornar uma. Ela é uma aprendiz.

Mas ela já anda por aí matando pessoas e ela aprendeu um monte de segredos.
Não só nas Crônicas de Gelo e Fogo,  fiz isso um pouco na série Wild Cards, toda a coisa do soldado criança é uma construção fascinante. Nós temos esta imagem de crianças [ como ] tão doces e inocentes. Eu acho que um pouco da história recente da África e alguns casos da História mais antiga têm demonstrado que, sob as circunstâncias corretas, eles podem se tornar tão perigosos quanto os adultos, e em alguns aspectos mais perigosos. Em algum nível, é quase um jogo para eles.

Qual foi o personagem que mais mudou o rumo da história que você tinha planejado para ele/ela no começo?
Eu não quero revelar o que eu planejei para alguns desses personagens, mas eu ainda estou muito na linha original com a maioria dos personagens principais. São personagens menores, como Bronn que assumem maior importância nesse quesito.

Eu estou obcecada com esse salto de cinco anos que você tinha planejado inicialmente no meio da série. Como isso teria acontecido?
Originalmente, não deveria haver qualquer salto no tempo. Seria apenas uma passagem de tempo, já que a história do livro foi para a frente. Meu conceito original lá em 1991, foi de começar com esses personagens como crianças, e eles envelhecerem. Se você considerar que Arya tinha oito anos, o segundo capítulo seria um par de meses mais tarde, e ela teria oito e meio, talvez nove. Isto aconteceria tudo dentro do espaço de um mesmo livro.

Mas quando eu realmente os escrevo, os eventos têm um certo impulso. Então você escreve um capítulo e, em seguida, em seu próximo capítulo, ele não pode acontecer seis meses depois, porque algo vai acontecer no dia seguinte. Então você tem que escrever o que acontece no dia seguinte, e daí você escreve o que acontece na semana seguinte. E a coisa segue adiante. E muito em breve, você escreveu centenas de páginas e uma semana se passou na história, em vez dos seis meses, ou o ano que você tinha planejado. Então você termina o livro, e você teve uma quantidade enorme de eventos – mas eles ocorreram ao longo de um curto espaço de tempo e a garota de oito anos de idade, ainda tem oito anos de idade.

Então isso realmente tomou conta de mim durante os três primeiros livros. Quando se tornou evidente que isso tinha acontecido, eu tive a ideia da diferença de cinco anos. “O tempo não está passando aqui, como eu queria que ele passasse, por isso vou saltar para a frente cinco anos no tempo”. E vou voltar a esses personagens quando eles estiverem um pouco mais crescidos. É isso que eu tentei fazer quando comecei a escrever O Festim dos Corvos. Então, [ a diferença ] teria vindo depois de A Tormenta de Espadas e antes de O Festim dos Corvos.

Mas o que eu logo descobri – e eu lutei com isso por um ano – é que a diferença funciona bem com alguns personagens como Arya – que no final o de A Tormenta de Espadas zarpou para Bravos. Você pode voltar cinco anos depois, e ela teria tido cinco anos de treinamento e tudo mais. Ou Bran, que foi levado para os filhos da floresta e para a cerimônia verde, para que você possa voltar para ele cinco anos depois. Isso é bom. Funciona com eles.

Para outros personagens, não funciona. Eu estava escrevendo os capítulos de Cersei em Porto Real, e dizendo: “Bem, sim , em cinco anos, seis caras diferentes serviram como mão e não havia essa conspiração há quatro anos, e isso aconteceu há três anos”. E eu estava apresentando tudo isso em flashbacks, e não estava funcionando. A outra alternativa era [ que ] nada aconteceu nesses cinco anos, o que pareceria anticlimático .

Com Jon Snow era ainda pior, porque no final de Tormenta de Espadas, ele é eleito Senhor Comandante. Então coloco ele escrevendo “Bem, há cinco anos fui eleito Senhor Comandante. Nada demais aconteceu desde então, mas agora as coisas voltaram a acontecer de novo” Finalmente, depois de um ano, eu disse: “Eu não consigo fazer isso funcionar”.

Seriam cinco anos e então a chegada do inverno ou esse intervalo se passaria durante o inverno?
Não, não ia ser durante o inverno. O período teria sido a chegada do inverno.

Então, como se fossem mais cinco anos de Outono?
Sim. Há muitos precedentes para isso na forma como eu configurei a série. O Verão durou dez anos. Um Outono de cinco anos não é nada demais.

Eu sei que algumas das coisas que você escreveu para ocorrer após o intervalo de cinco anos está nos livros, inclusive em A Dança dos Dragões.
A Dança dos Dragões e O Festim dos Corvos. Algo disso está lá dentro. Algumas coisas que eu reescrevi. Uma versão do que teria acontecido está lá, mas não a mesma versão original. Algumas coisas apenas saíram, eu simplesmente não consegui fazer funcionar.

Então você teve que alterar a história, de modo que Arya não fosse tão experiente e  Jon Snow não tivesse experiência como Senhor Comandante?
Eu não sei se todos os meus leitores estão felizes com isso, mas eu acho que tomei a decisão certa.

Os leitores ficaram descontentes com você ter deixado de fora o intervalo de cinco anos?
Bem… não, mas com algumas das histórias de O Festim dos Corvos. Eu recebo reclamações às vezes, de que não está acontecendo nada [na história] – mas a definição deles de “nada”, é diferente da minha. Eu não acho que tudo tem que ter e ser sobre batalhas e lutas de espadas e assassinatos. O desenvolvimento do caráter e a mudança das pessoas é bom, e há algumas coisas difíceis sobre isso que eu acho que um monte de escritores se esquiva. Estou contente de não me esquivar dessas coisas.

As coisas que Arya está aprendendo. As coisas que Bran está aprendendo . Aprendizagem não é uma coisa inerentemente interessante de se escrever. Não é uma coisa fácil de escrever. Nos filmes, eles sempre cuidam disso com uma montagem. Rocky não consegue correr muito rápido. Ele não consegue pegar a galinha (no filme Rocky 2, dentre os vários treinamentos do personagem está o de conseguir pegar uma galinha). Mas depois que você faz uma montagem, e edita um monte de cenas juntas agora, só um minuto mais tarde no filme, Rocky é muito mais forte e ele consegue pegar a galinha.

É muito mais difícil [ na vida real ] . Às vezes, em minha própria vida, eu gostaria de poder fazer uma edição. Quero entrar em forma agora . Então vamos fazer uma montagem, e boom – Estarei 20 kg mais leve e em boa forma, e só vai levar um minuto com alguma montagem de mim levantando pesos e correndo, empurrando o prato de bife para longe e pegando uma salada. Mas é claro que, na vida real , você não tem esse recurso. Você tem que passar por isso no dia a dia.

E isso tem sido interessante. Jon Snow como Senhor Comandante. Dany como Rainha, lutando com as regras. Tantos livros não fazem isso. Existe esse sentimento quando você está escrevendo algo no ramo da fantasia, que você está em um diálogo com todos os outros escritores de fantasia que já escreveram. E há sempre a presunção de que, se você é um bom homem, você será um bom rei. Como Tolkien fez em O Retorno do Rei: Aragorn volta e torna-se rei, e, em seguida nos lemos que “Ele governou com sabedoria por 300 anos”. Ok, tudo bem. É fácil escrever essa frase, “Ele governou com sabedoria.” Mas o que significa isso, ele governou com sabedoria? Quais foram suas políticas fiscais? O que ele fez quando dois senhores travaram uma guerra entre si? Ou bárbaros estavam vindo do Norte? Qual foi a sua política de imigração? E sobre igualdade de direitos para Orcs? Quero dizer, ele acabou de vir de uma política genocida, o que vai ser? “Vamos matar todos esses Orcs que ainda estão sobrando?” Ou ele vai tentar redimi-lós? Você nunca vai ver realmente o âmago dessa questão sobre decisões.

Eu acho que há uma parte dos leitores de fantasia que não quer ver isso. Mas eu acho isso fascinante. Vendo alguém como Dany realmente tentando lidar com coisas como a maneira de se portar de uma rainha, e há as facções e guildas e [ gerenciar] a economia. Eles queimaram todos os campos em Meereen, eles não têm nada mais para importar, não estão recebendo nenhum dinheiro. Acho essa coisa interessante. E, felizmente, uma parte significativa dos meus leitores que amam os livros, acha também.

Então vamos falar sobre a polêmica na internet sobre Oberyn. Você tem alguma opinião sobre isso?
Eu comentei no meu blog. Você pode encontrar uma resposta mais elaborada lá (Martin tentando ganhar uns page views :)). Eu fiz alguns comentários sobre o que as pessoas diziam sobre isso. Eu sempre imaginei Oberyn Martell na minha cabeça como um… o que eu chamo de um tipo mediterrânico. Eu sei que as pessoas me atacaram dizendo: “Ele é um ignorante, não sabe que a África é uma região do Mediterrâneo”. Eu sei que a África é uma região do Mediterrâneo. Mas, na linguagem comum , quando você diz Mediterrâneo, você está pensando no grego, no italiano, no espanhol. Quando você está pensando em marroquinos ou tunisianos que é pensamos no Norte Africano. É como as pessoas geralmente pensam sobre isso.

Eu sempre imaginei os Martells e os homens de sal dorneses como mediterrâneos, para o elenco eu acho que é perfeitamente adequado, com o que eu escrevi nos livros. Eu simpatizo, quero dizer, eu entendo.

Algumas pessoas têm me escrito cartas muito sinceras (e eu tentei responder a eles) sobre como eles queriam ver alguém parecido com sua visão dos livros, e como eles tinham ficado decepcionados. Eles tinham desenhos de como seriam os Martells, e ficaram desapontados.

Eu entendo isso, mas mesmo assim não era minha intenção confundir. Mesmo a terminologia aqui é como uma armadilha. Eu nem mesmo sei que palavras posso usar aqui como “preto ” ou “Africano”. Eu costumava usar Africano, uma espécie de Afro-americano, mas, se você usar “Africano” você é culpado por dizer que todos os africanos são os mesmos.

Eu não sei. Estou pintando a partir da História, mesmo que seja uma fantasia. Eu li muita coisa de História, A Guerra das Rosas, A Guerra dos Cem Anos. O mundo naquela época era muito diversificado. Culturalmente talvez fosse até mais diversificado do que o nosso mundo atual, mas viajar era muito difícil naquela época. Mesmo assim pode ter havido muitas raças e etnias e povos diferentes, eles não necessariamente se misturariam muito. O que estou pintando é em grande parte, Inglaterra medieval, Escócia medieval, em certa medida França medieval. Havia uma pessoa ocasional de cor, mas certamente não em grande número.

E enquanto isso, você tem Daenerys visitando mais culturas da Eurásia e do Oriente Médio.
E isso tem gerado sua controvérsia também. Eu respondi a isso no meu blog. Eu sei que algumas das pessoas que estão vendo isso de um ângulo político ou racial parecem apenas ignorar completamente a logística da coisa aqui. Eu falo sobre o que está nos livros. Os livros são o que eu escrevo. O que eu sou responsável.

A escravidão no mundo antigo, e a escravidão no mundo medieval , não era baseada em raça. Você podia perder uma guerra, e, se você fosse um espartano, por exemplo, poderia acabar virando um escravo em Atenas, ou vice-versa. Você podia não conseguir pagar uma dívida, e acabar como escravo. E isso é o que eu tentei descrever em meus livros, esse tipo de escravidão.

Assim, as pessoas que Dany liberta nas cidades escravistas são de muitas etnias diferentes, e isso tem ficado bastante explícito nos livros. Mas, claro, quando David [ Benioff ] e Dan [ Weiss ] e sua equipe rodaram a cena [ de Daenerys sendo carregada por escravos libertos ], eles flmaram no Marrocos, e eles precisavam de pelo menos 800 extras. Um monte de extras. Eles contrataram as pessoas que apareceram. Extras não recebem muito. Eu fiz um extra uma vez, e recebi acho que uns U$ 40 por dia.

Provavelmente pagam até menos no Marrocos desde que você não tenha que pagar a mesma taxa. Se você está precisando de 800 marroquinos a 40 dólares cada, você não vai trazer 100 irlandeses de avião só para equilibrar o fundo racial aqui. Tínhamos bastante dificuldade em atender o orçamento de qualquer maneira.

Eu sei que para alguns leitores, esse tipo de argumento não serve, eles não ligam para as dificuldades. Mas essas coisas são sobre o orçamento e realismo, e as coisas que você pode realmente fazer. Você está filmando uma cena em um dia e você não tem muito tempo para se preocupar sobre isso, e como alguém que já trabalhou em televisão este tipo de coisa é muito importante para mim. Eu não sei se essa é a resposta, ou não. Eu dei essa resposta, e algumas pessoas não ficaram satisfeitos com ela, eu sei. Eles ficaram muito chateados com isso.

As pessoas reclamam que os Dothraki são uma sociedade bárbara unidimensional.
Eu não tive personagens Dothraki com ponto de vista ainda.

Eu acho que é tarde demais para introduzir um agora...
Eu poderia introduzir um personagem Dothraki com ponto de vista, mas eu já tenho uns dezesseis personagens com ponto de vista. Eu poderia matar alguns dos meus personagens com ponto de vista para chegar a sete ou oito como quando eu comecei, ou uma quantidade equivalente. Os Dothraki foram inspirados parcialmente nos hunos e nos mongóis, e em certa medida as tribos das estepes, como os Alvars e Magyars. Coloquei ainda alguns elementos das tribos indígenas das planícies e seus povos, e então joguei alguns elementos puramente de fantasia. Isso é fantasia.

Eles são bárbaros? Sim, mas os mongóis foram também. Genghis Khan – Acabei de ver um filme interessante sobre Gengis Khan, recentemente. Eu li livros sobre Genghis Khan, e ele é um dos mais fascinantes e carismáticos personagens da história. Os mongóis se tornaram muito sofisticados em certos pontos, mas eles certamente não eram sofisticados quando eles começaram, e até mesmo no auge de sua sofisticação eles gostavam de fazer coisas como pilhas gigantes de cabeças humanas. “Entregue sua cidade, ou nós vamos entrar e matar todos os homens, estuprar todas as mulheres, e fazer uma pilha gigante de cabeças cortadas.” Eles fizeram isso algumas vezes, e algumas cidades disseram , “Rendição é uma boa coisa. Vamos nos entregar e vamos pagar os tributos. Sem pilha de cabeças para nós, por favor”.

Então, voltando para algo que você disse antes sobre o tempo se movendo muito rapidamente e os personagens não chegando a idade que você quer que eles tenham, você sente como se fosse um erro ter corvos que podem enviar mensagens tão rapidamente?
Não, não acho. Eu não considerei isso na verdade. Suponho que poderíamos ter abrandado as coisas um pouco mais, com mensageiros [ao invés dos corvos], mas eu queria uma certa velocidade para que as mensagens fossem entregues.

Porque os corvos são como a Internet de Westeros.
Eles são uma Internet que está sujeita à pirataria, com setas e arqueiros atirando-os para baixo, e pessoas matando os corvos e as mensagens não seguindo seus cursos. Eu tento refletir isso nos livros, também. Eu tento trazer essas pequenas coisas que me impressionam na História. Uma deles é a falta de confiabilidade das informações. Sabe, eles não têm CNN. Então eles iriam receber esses relatórios de batalhas atrasados e depois de muito tempo. E mesmo hoje você vê os números de uma mesma batalha e o número de pessoas que participaram, estou falando da história real, e grosseiramente varia de uma pessoa para outra.

A batalha de Agincourt por exemplo (caso real): de acordo com a França tinham 4000 franceses e 5000 ingleses, ou seriam 200.000 franceses e 7 ingleses, todos armados com facas de pão, de acordo com a versão Inglesa. Então, eu deliberadamente faço isso em meus números de exércitos e coisas assim. Que são diferentes.

Recebo comentários dos leitores que me escrevem dizendo: “Oh, você esta sendo  inconsistente aqui. Você disse que o exército dele só tinha 20 mil pessoas neste capítulo, e em seguida, neste capítulo mais tarde, você disse que são 30 mil”. Não, eu não estava sendo inconsistente. Quer dizer, eu estava sendo inconsistente, mas eu estava sendo deliberadamente inconsistente, para mostrar que essas coisas acontecem [porque] a sociedade não tinha informações precisas. Nós ainda não temos informações precisas. As pessoas ainda bagunçam essas coisas. Pergunte a qualquer repórter. Quantas pessoas apareceram no Occupy Wall Street? De alguma forma , as multidões são muito maiores na MSNBC do que são na Fox. As multidões nas Tea Party são sempre maiores na Fox, já a quantidade de pessoas na Occupy Wall Street é sempre menor pra eles.

Então, você falou muito sobre os romances históricos que você tem lido. Você teve influência de Eu, Claudius, Imperador de Robert Graves?
Em certa medida. Eu li Eu, ‘Claudius, Imperador’ e ‘Claudius, o Deus’ muitos, muitos anos atrás. E claro, eu amei a série de TV. Eu acho que a série de TV é uma das melhores séries já feitas. Há uma conversa de que a HBO pode querer refilma-lá. Essa é uma ideia perigosa.

E você tem um acordo de desenvolvimento com a HBO.
Sim, eu tenho.

Tem alguma coisa vindo por aí desse acordo?
Eu estou trabalhando em algumas ideias para lançamento. Eu não posso realmente criar uma outras série, eu ainda tenho os livros para escrever. Mas eu estou trabalhando com vários outros escritores, produtores, parceiros, e assim por diante. Eu posso criar a ideia e, como Game of Thrones, talvez escrever um roteiro por ano. Tipo fiscalizá-lo. Mas outras pessoas vão ter que ser os David Benioff e Dan Weiss, os reais showrunners no dia-a-dia que são os principais caras nisto.

Parece que o desenvolvimento da HBO é muito lento. Eles colocaram algumas coisas em desenvolvimento e leva um longo tempo.
É verdade, mas eles não desenvolvem tantas coisas como as redes de televisão, que normalmente encomendam 20 scripts de piloto de séries diferentes, vão escolher 10 desses 20, e vão realmente filmá-los. Desses 10 pilotos vão colocar três séries no ar e assim por diante. A HBO não faz isso. Quando eles resolvem desenvolver alguma coisa, eles são muito sérios a respeito disso. E eles têm alguns programas interessantes em desenvolvimento. Deuses Americanos vai ser legal. E se chegarem a refazer Eu, Claudius, será uma coisa difícil de fazer, porque o original é tão grandioso. Como você se iguala a um elenco que teve Derek Jacobi, John Hurt, Brian Blessed e Sian Phillips? Uau, que elenco!

A HBO poderia ir mais longe, obviamente, porque Eu, Claudius foi uma produção da BBC. Foi feita por um dólar e cinqüenta (cinismo mode on). Os sets são telas pintadas. Você pode ver as colunas de “mármore” sacudindo quando alguém passa por elas muito rápido. Era só uma pintura, mas você não se importava. Tinha uma espécie de marca registrada naquela série. Os efeitos especiais podem ser bons, mas é a escrita, a atuação e o roteiro que fazem uma grande história. E o diálogo e os personagens, e eles eram brilhantes, uma série brilhante.

O que havia de errado com o piloto original de Game of Thrones que teve que ser descartado?
Eu não acho que havia alguma coisa errada com episódio em si. Haviam algumas partes que eles queriam reformular. Eu também acho que eles queriam fazer algo maior. Gastaram um monte de dinheiro no piloto, mas talvez não houvessem muitas cenas épicas ou com aquele sentimento de estar vendo cinema. Mas eu gostei do piloto original, é claro: Eu estou no piloto original. Eles cortaram minha participação. Muito triste. Eu carregava bolas gigantes e um chapéu realmente grande. Eu acho que esse pode ter sido o problema. Os chapéus.

Você já assistiu Sliders? E o que você achou? [Sliders foi uma série exibida entre 1995 e 2000, que especula-se ter sido baseada em um piloto que não vingou de uma série que se chamaria Doorways de 1992, cujo argumento era de Martin]
Doorways, que era minha série, tinha basicamente a mesma ideia, mas era melhor escrita, tinha melhor elenco, melhor em todos os aspectos. O único episódio de Sliders que eu já vi foi o piloto. Eu assisti o piloto, e eu achei terrível. Mas isso é preconceito, eu reconheço o meu preconceito. Vamos falar sobre isso apenas se você for escrever sobre Sliders aqui ok? Eu percebo que eu não tenho como ser objetivo sobre isso porque eu trabalhei para lançar aquele piloto por mais de um ano.

 Mas eu sei um pouco da história subseqüente de Sliders e por isso ocorreu-me que eu posso ter escapado de um grande problema com [o cancelamento de] Doorways. Porque eu não acho que eu teria sido capaz de fazer uma série tão boa quanto o que eu queria fazer. A concepção de Doorways era para uma série sobre mundos alternativos (um mundo alternativo na mesma época da série – no caso, 1993 – mas onde algum fato importante do passado havia sido alterado), e toda semana eles iriam para um mundo diferente e teriam uma aventura lá. Então, nós teríamos visto todos esses mundos alternativos maravilhosos. Eu desenvolvi umas 40 ideias diferentes para os mundos, e tinhamos seis scripts já prontos.

 

Mas para realmente fazer isso direito, você tem que criar um mundo inteiro. Se você está em um mundo onde o Império Romano nunca caiu, que era uma das nossas ideias, ainda estaríamos em 1993. Não é um programa de viagem no tempo. Então você tem que pensar sobre isso, você tem que pensar em todo o visual para a produção. Isso é muito exigente para os cenógrafos e figurinistas. Ok, é 1993, quanto a tecnologia evoluiu a partir do Império Romano? Será que teria havido uma Revolução Industrial? O que eles estão usando agora? Eles ainda estão vestindo togas, como se usava em 44 a.c? Mas eles não podem estar vestidos como os americanos do século 20 moderno, tampouco com alguma toga equivalente como seria 2.000 anos mais tarde. Você tem que pensar em cada questão como essa.

Mas o que eles estão dirigindo? Bem, eles não estão dirigindo Buicks e Chevrolets. Eles estão dirigindo… e eles têm carros? Será que eles têm carros que evoluíram com base em bigas? Sabe, os carros seriam diferentes, os trens seriam diferentes, por isso requer muito trabalho. Mas, então, você tem que construir isso. E no momento em que eu pensei que Doorways iria funcionar, quando eu estava virando um showrunner, eu estava olhando para os orçamentos padrão, e eu estava tendo uma sensação horrível de que não ia ser capaz de fazer isso nesse orçamento. Nós íamos ter um orçamento equivalente a qualquer outro na televisão naquela época, um milhão e meio por episódio. Você não pode construir um mundo inteiro por esse preço.

E, claro, isso é o que aconteceu com Sliders. Eles não foram para um mundo onde o Império Romano nunca caiu, ou qualquer desses mundos – eles foram para um monte de mundos [bobos] onde, “Meu Deus, é como o nosso mundo, mas Pete Best ainda faz parte dos Beatles”. Assim, as roupas foram as mesmas e os carros eram os mesmos. Eu sei que eles tiveram uma grande coisa em um mundo: os semáforos eram diferentes, vermelho significa avance e verde parar. E essa foi a grande diferença.

E sabe, eu zombo disso, porque é ficção científica ruim e é estúpido. Você não quer fazer um programa sobre mundos alternativos, se isso é o melhor que você pode fazer. Mas eu poderia ter sido forçado a fazer exatamente a mesma coisa, simplesmente por causa de razões orçamentárias. E então eu teria rodado essa série, que teria sido um  ruim, e estaria no meu currículo. Então, talvez eu tenha desviado de uma porrada bem grande lá atrás, pelo o piloto não ter sido escolhido.

Dito isto, tivemos uma excelente elenco. Eu acho que a nosso roteiro teria sido melhor. Nossos personagens eram muito melhores. Mas ainda teríamos enfrentado os mesmos limites de orçamento para contar a história. O que eu estava tentando fazer naquele tempo era dizer ao canal “Nós temos que criar arcos [de história]. É o único jeito de fazer este trabalho. Eles têm que ir para o mundo romano, e eles têm que ficar lá por uns seis episódios. Você não pode criar um mundo de uma semana. Eles têm que ficar, porque então podemos amortizar o figurino e a arquitetura”. Você tem que construir sets e podemos ter arquitetura grega para o mundo romano, ou um mundo Árabe, ou qualquer que seja o mundo para onde eles vão. Mas os canais não gostam de fazer arcos, especialmente na década de 90. Eles estão mais abertos para isso agora. Mas naquela época, eles queriam séries estritamente episódicas, que você pode transmitir e repassar em qualquer ordem. Você sempre vai voltar ao status inicial ao final de cada episódio.

E sobre o filme de Wild Cards?
Melinda Snodgrass é a roteirista do projeto. Ela criou dois rascunhos, e a última vez que ouvi, eles estavam conversando com diretores. Então nós teremos um diretor para assinar, e espero que o projeto siga em frente.

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  • Messinho’

    Ufa! Entrevista gigante, mas sensacional. Martin é gênio. Deal with it.

  • Fernanda

    Eu sou a favor de lançarem Doorways! Imagina só como ficaria com os recursos de hoje? *-*

  • Paulo Frank

    Mto bacana a entrevista! Adorei!
    Obrigado por traduzirem TODAAAAA essa entrevista!

  • Vitor

    ”Spoilers de todos os livros”

    WHY GOD? Queria muito ler agora )=

  • Juliana Ribas

    Puts mas querendo ou não é sempre decepcionante ver o Tio Martin envolvido em tantos projetos e revelando que tem dias que a escrita dos livros não rendem nada… fico pensando em como estará meu saco e minha curiosidade daqui uns 6 anos quando eu ainda estiver esperando pra ler o último livro, ou o penúltimo… Esse negócio de nos envolver tão profundamente numa história fantástica nos deixou reféns dele, coisa que eu amo e odeio ao mesmo tempo…

  • Gabriel Licastro

    Da onde é a 4º foto?

  • Eduardo Amorim

    muito boa a entrevista e vai saber como ele disse q não faz mais promessas não tenhamos mais de 7 livros acho dificil mais vai saber ‘-‘

  • Eduardo Amorim

    cara pode ler eu li e não acho q tenha tantos spoilers assim só se não for novidade pra mim q ja li os livros e tenha deixado passar mais creio q não msm.

  • primeira temporada

  • Roberto

    Espero que que nosso querido escritor esteja gozando de boa saúde, pois se ele bater as botas antes de terminar a saga, eu mato ele!

  • Joao Palmadas

    Teve spoilers, sim, mas a maioria não tem muita importância. Saber que a Arya matou gente, por exemplo, não é muito importante – quem, quantos, porque e como ela matou, isso sim interessa, e isso não foi dito.

  • Luciano gonçalves dos santos

    Martin se apega a paixões , escreve sobre elas, Dunk e Egg por exemplo, poderia ser em outra hora mas veio a ideia na cabeça e ele escreveu e publicou, sinceramente ,estou preocupado com o rumo da saga, será que o Martin vai conseguir concluí-la se envolvendo em tantos projetos?A HBO talvez possa ser um elemento de pressão para o grande Martin terminar a saga ,vida longa ao Martin

  • Vitor

    Ah, valeu. Eu tô no começo do 4° livro e tô com medo de ler algo significante. Parece que spoilers de GoT chovem em cima de mim.

  • José Filho

    Por favor Martin,eu te suplico, não morra antes de ter terminado a saga!

  • Pablo Diego

    “O que a Margaery vai se tornar daqui a 10 anos” Hmmm

  • Emanuele Delmondes

    Minha admiração por esse cara aumenta a cada palavra que leio. Como disse Luciano em um dos comentários: vida longa ao Martin!