Resenha do livro “A Morte da Luz” (1977)

Há 35 anos, George R. R. Martin entregava a editora seu primeiro romance. “A Morte da Luz”, publicado somente no ano passado pela editora Leya aqui no Brasil, é uma ficção científica extremamente bem escrita e rica, podendo ser considerada por alguns leitores lenta e de linguagem difícil de se assimilar. A trama deste livro é intrincadíssima para aqueles que não estão habituados com o clima de romances scifi. Principalmente no começo do livro, onde Martin parece viajar dentro de si mesmo tentando encontrar um lugar confortável para colocar seus personagens. Em A Morte da Luz temos duelos, vôos insanos através do deserto, caçadas sangrentas, amizades estranhas, naves espaciais e equipamentos anti-gravidade muito legais, traição, romance e cidades tristes cantando canções tristes enquanto o mundo desliza devagarinho para uma noite sem fim. O livro foi traduzido pela Márcia Blasques, a mesma professora da USP que teve a responsabilidade de adaptar A Dança dos Dragões para a língua portuguesa no Brasil.

Vikary e Gwen

Vikary e Gwen

Na história conhecemos Dirk t’Larien, um rapaz que vive no mundo de Braque e não faz nada expressivo em particular. Dirk recebe de seu antigo amor, Gwen Delvano, uma jóia sussurrante que ele havia lhe dado anos atrás. A jóia seria um sinal, um chamado para que ele voltasse pra ela. Seja para voltarem e ficar juntos ou por que ela poderia estar em apuros, possivelmente. E então ele descobre que ela está trabalhando como um ecologista em Worlorn, um planeta errante vagando nos limites da galáxia. No passado, Worlon foi palco de um grande Festival, justamente quando o planeta trilhava bem próximo a um sistema solar que aquecia e nutria todo ser vivo daquele lugar. Durante a época do Festival, as cidades de Worlon estavam em seu ápice de desenvolvimento tecnológico. Mas isso foi há muito tempo.  Agora, o planeta está se afastando do sistema estelar, condenado a um inverno eterno e a uma noite perpétua no espaço interestelar. As atrações e cidades construídas para o Festival estão agora fechadas e abandonadas, e apenas alguns loucos, cientistas e estudiosos permanecem no lugar. É o caso de Gwen, seu marido maluco e seus irmão de grupo. Worlorn tem cidades construídas por quatorze diferentes civilizações, e neste livro vemos apenas cinco das cidades e três das culturas. No entanto, a ilusão de profundidade da história real, e parte disso é mérito da maneira com que Martin inventa nomes e expressões. Martin é surpreendentemente bom para nomes de cidades, atrações, planetas, pessoas, e principalmente a maneira que esses nomes podem definir quem você é.

Dirk desembarca neste lugar inóspito para descobrir que sua Gwen é indiferente a sua companhia e, embora sempre educada e misteriosa, não demonstra muito prazer de vê-lo. Pior ainda, Dirk descobre que ela se casou durante os anos que eles ficaram separados e, aparentemente, o convite através do chamado da jóia significaria que ela gostaria de cortar os laços finais com ele de uma forma limpa e definitiva. Mas… horas depois Dirk descobre que seu casamento é infeliz, e a jóia poderia ser um grito de socorro dela para ser resgatada, e que talvez ela ainda o ame apesar de tudo.

Martin mostra através da narrativa deste livro como a cultura pode ser tanto uma prisão e uma fonte de poder, com uma visão de mundo onde cada pessoa é cega para a visão de mundo do outro. Ele é realmente muito bom em criar culturas esquisitas mas completamente plausíveis. Dessa maneira não existe de verdade um herói e vilão, porque o contexto social e histórico é algo muito maior do que o bem e o mal. Alguém lembrou de A Dança dos Dragões?

Levantando mais paralelos com as Crônicas de Gelo e Fogo, vemos bem no começo do livro dois elemento de linguagem extremamente recorrentes na maneira que Martin cria sua narrativa em seus outros livros. Primeiramente, as suas maravilhosas descrições de pratos típicos. Uma das minhas cenas preferidas do livro se dá quando Gwen e Dirk realizam um desjejum na cidade fantasma de Desafio. Dirk escolhe no menu um dragão de areia servido na manteiga e Gwen pede ovos azuis com queijo. E então o robô os servem com pratos quentes de prata e ossos. Depois disso, um café negro e grosso com creme e especiarias. Em cenas como essa onde Dirk e Gwen discutem a relação, tive a impressão de que eu estava lendo algo muito pessoal. Uma história de amor onde esse cara se recusa a ir embora sem levar a mulher que sempre amou. É algo extremamente recorrente e mundano, e por isso parece ser tão pessoal. É a história de uma pessoa que se recusa a ser deixada. Martin estava escrevendo essa história pra… quem? Lembrando que Gwen é a única personagem feminina do livro. Isso é fácil de se perceber através da maneira que a personagem de Gwen é sempre descrita, o que me leva ao segundo elemento importante, que é a demonstração da mulher como um dos seres mais esmagados pelo machismo em diversas culturas. Gwen tem uma relação muito esquisita com seu “marido”. E a maneira como ela vê essa relação também é bastante esquisita. É a maneira que ele encontra de colocar essa mulher em um lugar que ninguém de verdade consegue decifrá-la. Martin dá tudo pra ela: uma profissão muito legal, um carisma espirituoso e beleza. Mas o que a define é justamente sua relação com os homens. Mas era 1977, e ao superar Gwen, Martin nos presenteou com uma infinidade de outras personagens absolutamente maravilhosas.

As histórias das cidades são apresentada em diálogos longuíssimos e bem ilustrados. É realmente bastante atmosférico. Conseguimos sentir o cheiro da destruição, o terror das músicas fantasmas, a textura das refeições e a sensação de guerra e morte que é terrível e sufocante. O magnífico cenário de Worlorn mistura-se com o humor dos personagens sem ser indiscreto, desenhando uma história bastante rica e curiosa. Em certa parte da história conhecemos esse personagem fantástico chamado Bretan Braith que é um desses caras completamente destruídos fisicamente mas completamente elegantes e simples em sua essência. Aliás, George disse certa vez que esse personagem serviu mais tarde para a criação de outros dois personagens que conhecemos: O Cão e Loras Tyrell.

Acredito que o final deste livro seja para a maioria das pessoas um pouco frustrante. Mas é legal ler sabendo que importa o que acontece com um homem quando o planeta está morrendo. Mas olhando bem para o título que o Martin escolheu pra definir a história, a metáfora de seguir para o desconhecido em busca da luta contar algo que está fadado a morrer extremamente nobre.

O livro é triste e bonito e o universo apresentado aqui é abordado em vários outros trabalhos de Martin que contam histórias dentro dos “Mil Mundos”. São elas: Sandkings, Nightflyers, Starlady, The Glass Fower, “The Hero”, “A Song for Lya”, “This Tower of Ashes”, “And Seven Times Never Kill Man”, “The Stone City”, “Bitterblooms” e “The Way of Cross and Dragon”. Ah, e Tuf Voyaging.

Morte da Luz possui 334 páginas. Dá pra ler rapidinho, né garotada? Sabemos que MUITOS de vocês já leram ou já viram os spoilers gerais, mas em 20 dias vamos abrir um post pra comentar apenas os spoilers, como fazemos com todos os livros das Crônicas. Nos encontramos lá?

Livro: A Morte da Luz
Preço: 40 reais em média
Link Submarino: aqui.

Compartilhe:

Ao comentar no site você aceita as regras previamente estabelecidas.

Posts Relacionados

  • wlad_br

    Primeiramente parabéns pela resenha.

    Não concordo que o Vikary seja maluco, ele é apenas um fruto da sua cultura. No livro o Martin deixa muito claro o porque das suas atitudes, bem como das do Garse (que pra mim, é o melhor personagem do livro). Como a cultura de Alto Kavalaan foi mais abordada, fica claro as atitudes deles.

    Agora, o Dirk? Não consegui entendê-lo e o xinguei muito ao longo do livro.

  • Esse eu ainda não comprei, tou lendo “Wild Cards – O começo de tudo” e pra falar a verdade tou meio decepcionado com o livro até agora, não é ruim mas também não é nada “OHHH, QUE MARAVILHA”.

  • Rafael Von Ah Bento

    Eu gostei muito desse livro e, apesar de ter lido já faz um bom tempo, eu sempre acabo lembrando dessa história. Final decepcionante, mas ficou a impressão de que o George iria continuar a saga. Mas enfim, vale muito a pena a leitura. O ponto forte do nosso amigo balofo na minha opinião é na criação e desenvolvimento de personagens, algo que acredito que ele faz melhor do que qualquer ser vivo desse planeta.

  • MarcusVinicius94

    Muito boa a resenha.

    O cenário do livro é sensacional.Achei fantástica a descrição da cidade de Kryne lamiya. Da pra sentir, a melancolia, a tristeza, o clima depressivo do lugar.
    O final do livro também é sensacional.

  • Vitor Neves

    Comprei esse livro assim que lançou no brasil, agora que li a resenha me deu uma saudade do livro… a história é bem interessante, mas eu não gostei tanto assim do final, também fiquei com aquela impressão que haveria uma continuação, talvez o Martin não tenha continuado por não ter feito muito sucesso, sei lá

  • Bruna M.

    No geral eu gostei do livro, apesar do final ser um pouco frustrante.

  • Vitor Vieira

    Parabéns pela resenha! Eu li esse livro a um bom tempo (assim que foi lançado, comprei), quero lê-lo de novo, mas sempre tem outro livro novo esperando…

    O que eu mais gostei foi o plano de fundo galáctico, sempre há alguma menção ao Satã Gordo. Os personagens são únicos ao estilo Martin. O final foi um pouco decepcionante, mas o que podia esperar do avô Martin. Concordo com wlad_br, não acho Vikary louco, ele só é fruto de sua cultura.

  • Bruno Lacerda Balbi

    Bela resenha, Carol. E otina iniciativa. Me apresentou algumas informações novas e esse livro merece ser lido. Pelo visto sou um dos poucos que não me decepcionei com o final. Amei o universo que o George criou. Tantos detalhes fantásticos para um livro relativamente curto. Definitivamente recomendo.

  • MarcusVinicius94

    também achei o final excelente. Acho que é pq a maioria esperava um final mais explicado, mais detalhado, talvez até mais “feliz”.
    Ele deixou pela conta do leitor, imaginar oque acontece depois.

  • Não tinha me atentado pra a idade desse livro, muito antigo!!!
    Ele me lembrou muito a trilogia da fundação, e muitas ideias lembram coisas recorrentes nas crônicas.
    Gostei muito, apesar do final aberto. George descreve tanta coisa que tem história pra uns 7 livros…rsrsrsrs

  • Alyson Henrique

    Livro mais que perfeito esse.. confesso que fiquei mais encantado com as descrições dos povos do festival e seus planetas do que com a cultura dos sete reinos (não que esse livro seja melhor do que ASOIAF)… eu fiquei surpreso ao saber que ele tem outras estorias abordando os planetas da borda externa da galaxia… alguem da organização do site sabe me dizer se esses livros ja foram publicados no Brasil?

  • nenhum deles foi publicado por aqui ainda 🙁

  • Alyson Henrique

    ah que pena! eu fiquei realmente muito interessado… a Leya podia traduzir esses livros enquanto esperamos pelos dois ultimos do martin

  • A Leya só enrola, Alyson.

  • Filipe Melo

    Ganhei de dia dos namorados!

  • Filipe Melo

    Um amigo me deu um livro que se chama Lord of Light – Roger Zelazny
    Parece que inspirou nosso R. Martin, só está disponível em inglês, vocês já comentaram sobre aqui no blog?

  • Marcelo Ferreira

    muito boa vou ler com certeza, se não fosse a Leya, não conheceria esse majestoso gênio George R, R Martin *-*

  • san

    quero saber pq li o livro e gostaria de intender o final dele ?

  • LadyTargaryen

    GRRM que me perdoe, mas achei esse livro uma droga…

  • eu não gostei do final…

  • LadyTargaryen

    Sim, o mundo que ele criou, os povos, as culturas, foi tudo muito foda. Mas a história do personagem principal e o romance foi um saco, e o final… Pelo amor, não sei qual final de livro me deixou mais frustrada até hoje, desse ou The Mockingjay.

  • kkkk eu gostei de Mockingjay…
    Mas acho que esse livro dele teria que ser uma saga enorme tipo asoiaf pra ter sentido, é muita história pra poucas páginas.

  • LadyTargaryen

    Já vi que vc é rato de livros como eu xD
    Mas então Lidi, quanto a Mockingjay, fiquei com o mesmo sentimento de vazio que tive com A Morte da Luz, pois muitos personagens que gostava foram apenas ignorados… O aconteceu com a Johanna? :'(
    E o epílogo de uma folha e meia é tão bobo que nem tive outra reação a não ser rir kkkkkkk

  • Verdade, tb não gosto quando os personagens secundários são ignorados. Odiei a morte do Finnick e achei o final xoxo, mas pelo menos ela explicou mais ou menos no final…

    Sou rata de livros mesmo, esse ano até que dei uma parada, mas li os 3 livros de hunger games faz uns 15 dias pq eu fui ver o filme e engasgou no meio e fiquei sem ver justamente o final. Daí voltei pra casa e comecei a ler os livros. KKKKK

  • LadyTargaryen

    PARA! kkkkkk eu tbm li agora, terminei essa semana! Li os 3 em menos de duas semanas, Mockingjay em um dia! Assisti Jogos Vorazes nos cinemas sem conhecer e não dei nada pela saga, mas depois de Em Chamas sai da sala tipo, “PQP, preciso ler isso agora!”. E agora pq li rápido demais tô frustrada e órfã :'(

    E o que foi aquela morte do Finnick? Muito tosca! Fora a Prim que foi o motivo para toda essa merda começar e depois resolve fazer cosplay de fogo de artifício…

  • Pati

    Acabei hoje de ler esse livro, não gostei do final, e no geral achei o livro todo meio decepcionante…
    O romance muito dramático e (ALERTA SPOILER) quando o Garse morreu, e daquele forma inesperada e infactível, eu não sabia mais o que esperar do final, confesso que a minha teoria era que o Jaan morreria de alguma forma heróica e o Garse acabasse ficando com a Gwen, eu via um ódio nele por ela q nao era ódio, ele a defendia de todos, mas se reservava o direito de ele próprio maltratá-la, parecia amor reprimido, eles transaram mas ele nunca poderia amar ela, teve uma passagem em que ela conta que havia momentos de verdadeira paixão entre eles na cama, e que ela chegou a declarar que o amava… eu imaginei um final em que a ruptura com os seus e a morte do Jaan libertasse ele dos dogmas daquela cultura e ele confessasse amar a Gwen, e que por ela fosse capaz de mudar sua visão de mundo.

    Muito boba minha teoria né? shaushuahhsuahsuah mas acho que o meu final seria melhor do que o que teve, o tio Martin matou o Garse e fudeu com a cabeça do Jaan, o final ficou em aberto mas ficou muito claro que o Jaan nunca mais seria o mesmo, mesmo não sabendo da verdade, e a relação com a Gwen apesar de simbolicamente ter evoluído, na verdade desandou. E o Dirk, bem até gostei um pouco do final dele, fez sentido.