George R.R. Martin: “Em uma saga como Game Of Thrones, o final é a chave para não decepcionar”

Quando criança, George R. R. Martin vivia numa pequena cidade de Nova Jersey chamada Bayonne, devastada pelo furacão Sandy em 2012. Era tão pobre que seu mundo se resumia à casa e à escola. Contudo, através da janela podia ver navios de todo o mundo chegando aos portos de Nova Iorque, com uma enciclopédia de bandeiras em mãos, investigava de onde vinham todos aqueles navios e assim imaginava o mundo. Anos depois, Martin se torna o criador de um mundo fantástico, medieval, que tem encantado milhões de leitores e telespectadores. A trama trata do conflito de poder entre os Sete Reinos de Westeros e é contada a partir das perspectivas das personagens. A estrutura narrativa é complexa e profunda. Há batalhas, intriga política, sexo, violência, cenários de beleza e de terror.
 “Às vezes, os acontecimentos do mundo real são mais bizarros do que qualquer escritor possa imaginar”.
A equipe do Clarín conversou por telefone com George, que se encontrava em um festival de fantasia na cidade de Avilés.
Conta-se que uma visão de sete lobos foi o que desencadeou toda a história. Você pode explicar como? 
Não sei dizer. Foi tudo muito vívido, como se de repente o capítulo inteiro estivesse diante de mim, podia ver os detalhes. Naquele momento estava trabalhando numa novela de ficção científica, planejada há muito tempo. Mas sabia que a visão que tive nada tinha a ver com ela, então a deixei de lado e escrevi o capítulo. Ao terminá-lo, já sabia qual seria o seguinte e assim por diante. Nunca retomei o livro de ficção científica.
Parece-me que a ficção científica e a fantasia tem a obrigação de serem divertidas. Estou equivocado?
Não. Muito disso tem raízes históricas que datam de mais de cem anos, desde a discussão entre Robert Louis Stevenson e Henry James sobre qual seria a temática correta para um livro. Para a maioria do universo literário, Henry James ganhou o debate. O realismo venceu, com ênfase em retratos psicológicos de pessoas do mundo real. Tudo que é aventura e coragem – tradição a que pertencia Stevenson, ficou reservado para as crianças. E é preciso dizer que a audiência estava com Stevenson, não com James, que ainda em vida vendia muito mal. Seu trabalho era difícil e chato. Enquanto Stevenson escrevia contos sobre piratas, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, entre outras coisas assim, James escrevia sobre familiares discutindo em casas cheias de móveis.
Esses dois estilos podem se unir?
Tenho esperanças de que a distância entre eles comece a diminuir. Vejo isso num escritor como Michel Chabon, ganhador de um Pulitzer. Um escritor literário, mas que também escreve ficção científica e fantasia . Ele e outros estão fechando essa brecha que, para mim, foi um erro desde o início. Antes disso cada um escrevia suas histórias e se era ou não literatura, dependia de quão bom era e não de ser ou não realista.
Em quais livros você se inspirou? 
Há coisas muito específicas, como livros sobre histórias de trovadores e saltimbancos; ou sobre torneios medievais e suas regras. Mas também tenho histórias medievais genéricas que são grandes fontes de inspiração. Há coisas que não se pode inventar. Às vezes, os acontecimentos do mundo real são mais bizarros do que qualquer escritor possa imaginar.
Quanto à trama, diversos finais para decidir… Você fará algo parecido com os criadores de Lost?
De forma alguma, todas as séries extensas e intrincadas incorrem nessa situação. E o final é a chave para não decepcionar os leitores.
Os leitores, que agora assistem à serie, devem misturar o mundo que criaram na imaginação com o que veem na televisão. Isso acontece com você? 
Não. Tenho vivido com esses personagens desde 1991 e minhas imagens estão profundamente enraizadas em minha consciência. Seria necessário algo mais do que que um seriado de dois anos para mudar isso.
Quais as dicas para aqueles que querem ser escritores? 
Se estão escrevendo ficção científica e fantasia, lhes digo que comecem com contos. Conheço muitos jovens escritores, talvez influenciados por meus próprios livros, que inventam de criar uma fantasia épica com sete livros aos 16 anos. Isso é uma loucura. Eu comecei escrevendo contos. Esperei anos antes de escrever o primeiro livro. Então: escrevam um conto, vendam-o a uma revista e vão construindo um nome para só então criar o primeiro livro.
O que significa a tartaruga usando chapéu? 
Quando era menino, vivíamos em casas do Estado para pessoas com poucos recursos e não nos permitíamos ter cães ou gatos. Como animais de estimação, só podíamos ter tartarugas e eu tinha meia dúzia dessas meninas que comprávamos em um armazém. Guardava-as em um castelo de brinquedo que ficava sobre uma mesa do meu quarto. O primeiro conto de fantasia que escrevi foi sobre elas. As tartarugas eram reis e cavaleiros. Foi assim que comecei.
Terminar a saga te trará tristeza? 
Creio que sim, tenho estado com essas pessoas há tanto tempo que será muito difícil despedir-me.
A entrevista original (em espanhol) está disponível em: Revista Ñ

Compartilhe:

Ao comentar no site você aceita as regras previamente estabelecidas.

Posts Relacionados