Entrevista do compositor Ramin Djawadi para a ‘Film, Music & Media’

Traduzimos a entrevista em áudio que o compositor de Game of Thrones cedeu à equipe do ‘Film, Music & Media’ semanas atrás. O papo foi bem interessante e a gente destacou as partes que  eles falam exclusivamente sobre o processo criativo na série. Ramin tem 38 anos e já tem em seu currículo trabalhos desenvolvidos para produções como Homem de Ferro, Medal of Honor, Prison Break e muito mais. Como o seu trabalho mais expressivo definitivamente está em Game of Thrones, ele basicamente só falou disso…

Film, Music & Media: A gente já se falou um tempo atrás eu eu já sei a sua história, então vamos falar diretamente sobre Game of Thrones. Quando você começou a série (embora a gente já esteja chegando a 3ª temporada agora), como foi que você concebeu a maneira que aquele mundo de ficção iria soar, e como você encontrou um som ambiente para esse universo?

Ramin: Hum… bem, os produtores obviamente fizeram muito parte nisso, eles têm uma visão tão incrível para o que eles querem na série e, é claro que sendo uma fantasia de um período específico (seja lá como você queira chamar) eles tinham uma certa ideia do que eles não queriam fazer,  e isso já me ajudou porque algumas coisas já foram eliminadas. Por exemplo,  eles disseram “nós não queremos flautas, ou solo de vocal”, coisas que eram muito comuns no gênero como em O Senhor dos Anéis ou Gladiador, e que foram feitas com tanto sucesso. Então eles disseram que queriam tentar achar o nosso próprio som para um solo e… o que poderia ser? Então um dos grandes instrumentos que conseguimos é o cello que, óbvio, foi incluído por toda a série, incluindo a música de abertura. Então foi assim, tentando achar nosso próprio som, até mesmo com batidas orgânicas e eletrônicas menores e elementos de percussão. Foi definitivamente um desafio. Em em cima disso, é claro, existem tantos personagens e tramas e pra achar uma boa estrutura pra isso foi muito confuso, muito desafiador, mas muito divertido.

Film, Music & Media: É como você disse… eu não quero dizer que é uma “série densa”, mas é muito intricada e muito involvente. E há muito diálogo, sabe, não é uma série cheia de cenas de ação. Isso é desafiador para um compositor? Fazer com que todo esse material faça sentido e transformá-lo em música?

Ramin: Bom, definitivamente. Essa série é sempre difícil de achar espaços. É muito perigoso e difícil achar espaços, principalmente nos primeiros episódios porque a série tem dez episódios, mas do jeito que eu olho, é como um filme de dez horas. Então você tem que ter o controle daquilo e construir, construir, construir. Por isso que sempre tem menos música do começo, e os episódios 8, 9 e 10 sempre têm muita música. Mas o começo é sempre muito difícil e, como você disse, tem tanto diálogo que às vezes não é necessário música. Às vezes achamos um espaço e daí eu vou lá e escrevo algo, eles fazem uma revisão, testam e falam “hum… acho que é melhor tirar”. (risos). E isso já aconteceu muitas e muitas vezes. Quando você está encarregado da música você tem que estar consciente de não atrapalhar os diálogos e mesmo assim ajudar a contar a história. É bem desafiador.

Film, Music & Media: Você disse que aborda isso como um filme de dez horas, e eu conversei com alguns compositores que trabalharam em algumas séries e mini-séries da HBO. Estou falando de Geoff Zanelli especificamente, e eu perguntei pra ele se ele fazia episódio por episódio ou se ele tentava criar um arco para uma temporada inteira, dando perspectiva para a temporada toda…

Ramin: Isso meio que depende da maneira que eles organizam a pós-produção. Eu me lembro que na primeira temporada… eu assisti aos dois primeiros episódios… e comecei a trabalhar em cima do que eu tinha visto e com a direção que os produtores me diziam que a série estava indo e tal. E na segunda temporada eu já tive mais episódios disponíveis, então eu vi o que realmente estava acontecendo e onde estávamos indo, então eu pude planejar bem, na verdade. Foi muito bom porque eu pude ver “bem nesse episódio terá um grande evento, então eu preciso ajeitar isso”. (…)

Film, Music & Media: Certo. Eu acho que um dos momentos mais memoráveis de Game of Thrones, quando eu vou assistir aos domingo a noite é a faixa de abertura. Você trabalhou em muitas série como Prison Break e Person of Interest e foi nomeado duas vezes como melhor abertura nos Emmys. Qual a importância de uma faixa tema para um programa de TV?

Ramin: Bem (risos)… eu gosto de pensar queo tema de um programa serve para te buscar em qualquer que seja o lugar que você estiver em casa. Quando um programa começa quero que as pessoas pensem “Oh! Meu programa começou, eu tenho que ir para a sala, sentar e assistir”. Acho que ele tem que ser a essência de um programa, aquele momento que indica “esse é o meu programa, e eu vou apreciá-lo agora”.

Film, Music & Media: Há muitas diferenças… em séries como Lost em que o tema dura apenas 8 segundos por exemplo. Você prefere temas longos ou depende do programa?

Ramin: Definitivamente depende do programa, você falou sobre Lost e ele é um grande exemplo de algo que pode ter outra abordagem sem precisar de um tema com um minuto e meio. Mesmo assim pode-se dizer que esse pequeno tempo já indica: “Lost começou, eu preciso ver”. Seja o que for que peça a sua atenção, é o correto, não importa a duração. É claro que como compositor eu prefira um tema longo, pra que eu possa inventar algumas notas (risos). Mas no caso de Game of Thrones foi maravilhoso, eu tive esse grande visual no qual eu pude me basear. Eles me mostraram antes e eu fiquei embasbacado com os gráficos que eles estavam trabalhando e fiquei inspirado em escrever essa peça.

Film, Music & Media: Nessa série eu percebi que você sempre faz referência a essa melodia, e eu sei que às vezes compositores referenciam o tema principal na partitura das outras músicas, e outras vezes eles ignoram isso, fazendo cada música sua própria entidade. Como você faz isso? Como o tema principal se encaixa na série?

Ramin: Hum, eu acho que… eu tento encaixá-lo como um tema global, é o carro chefe da série. Então acho que é uma boa ferramenta para usar em certos momentos. Em Prison Break por exemplo, durante a primeira temporada inteira nós não usamos o tema principal até o último episódio, quando eles fugiram da prisão. A gente pensou: Ok, esse é um momento especial, vamos usar o tema principal. E a gente fez isso em Game of Thrones também, eu uso o tema principal durante o desenvolvimento da trama e nos temas de personagens diferentes, às vezes usando algumas das notas principais, o tema sempre está lá. Nos episódios 8, 9 e 10 é quando isso acontece, e eu coloco como algo especial.

Film, Music & Media: E quando eu vejo o resultado penso: “sim, sim!”

Ramin: (Risos).

Film, Music & Media: Você está trabalhando agora em uma série de TV a cabo e em uma de TV aberta com Person of Interest. Quais você diria que são as principais diferenças das duas, com fluxo de trabalho e agenda?

Ramin: Hum… com Game of Thrones eu tenho um pouco mais de tempo, por não ser uma série que vai ao ar toda semana. Eu tenho cerca de duas semanas pra trabalhar na trilha de um episódio, às vezes mais, às vezes menos. Mas definitivamente tenho mais tempo porque é a maneira como eles organizam a pós-produção. Eles gravam todos os episódios do ano antes. Quando começamos a trabalhar eles já tem todos os 10 episódios bem encaminhados, tirando os efeitos especiais é claro. É como eu disse antes, eu sempre tenho alguns episódios prontos pra assistir. Já em Person of Interest são sempre alguns poucos episódios a frente, então quando eu estou trabalhando no episódio 5 eles estão mais ou menos filmando o nove ainda. Então é bem apertado, semana a semana.

Film, Music & Media: Quanta música é feita por episódio? Como em Person of Interest, por exemplo? É mais ou menos do que algo como Game of Thrones?

Ramin: Hum… varia. Deixa eu pensar… acho que Person of Interest deve ter entre 25 e as vezes 45 minutos. Muitas vezes tem uma música no final mas acabamos sempre com 35 minutos em média. Em Game of Thrones nos primeiros episódios temos em média 20 minutos de música, mas é uma série de uma hora, não é nem uma série de 45 minutos com comerciais: é uma série de uma hora sem intervalos. Parece pouco mas é como conversamos antes, é tanto diálogo que você deixa a música de lado e, quando você coloca, realmente causa impacto.

Film, Music & Media: O seu processo de trabalho muda muito? Na TV aberta você tem intervalos comerciais e tem que dividir tudo em atos, e Game of Thrones é inteira. Isso muda sua abordagem?

Ramin: Na verdade não. É claro que os atos são coisas que você precisa organizar criativamente pensando nos comerciais, mas eu trato todos os projetos de maneira igual: os temas, os temas de personagens e os temas das tramas. O grande lance sobre Person of Interest é que, por ser uma trama semanal, os personagens pedem temas que rendam suspense para que você possa esperar pelo outro episódio, e com a música você pode manter isso. O que é ótimo.

Veja a entrevista completa em áudio a seguir:

Eu estou definitivamente muito empolgada pra ver o que ele está preparando para a 3ª temporada, já que a “Tormenta…” é um livro tão tragicamente musical. Bom, resta esperar. Faltam 86 dias…

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