“Blackwater”: o episódio mais esperado e ao mesmo tempo mais ameaçado

No último domingo, Game of Thrones exibiu sua primeira grande e impactante sequência de guerra. Após ter desistido do projeto de incluir uma batalha grandiosa na primeira temporada, os roteiristas David Benioff e Dan Weiss, em entrevista à Entertainment Weekly, falam sobre como o episódio “Blackwater”- tão apreciado pelo público, ficou ameaçado de ser excluído do roteiro ou ainda ser exibido apenas como uma batalha em terra firme. Explicam o porquê de “Blackwater” ter demandado gastos extras( cada episódio custa aproximadamente U$$ 6 milhões)e o que fizeram para conseguir os recursos necessários. Falam também sobre as dificuldades de filmar uma batalha e deixá-la como nos foi apresentada( de tirar o fôlego) e sobre a participação de George R. R. Martin como escritor do episódio.
Deixar Blackwater de fora? Bitch, please!
EW: Então, como foi a filmagem da batalha de Blackwater?

Weiss: Essa coisa toda de Blackwater foi tão divertida. Quero dizer, foi uma desgraça. Temperatura de 42º, chovendo e lama até os tornozelos.
Benioff: A história completa de Blackwater remete à primeira temporada porque nós supomos que haveria aquela batalha envolvendo Tyrion e acabamos sem conseguir filmá-la. Sempre prometemos a nós mesmos que teríamos nossa grande batalha. 
Weiss: Sempre quisemos fazê-la e não sabíamos se seríamos capazes de reproduzí-la. Quero dizer, é uma batalha enorme e naval, que envolve muitos efeitos especiais. E no último instante, em consequência de uma emergência pessoal, o diretor teve que nos deixar. Então ficamos sem diretor e cerca de uma semana antes.
Benioff: Nós estávamos lutando. Era como se estivéssemos finalizando a lista de quem estava disponível. E a maior parte disso foi realmente assustador. Mas então, em uma lista saiu o nome de Neil Marshall. Ele fez “Centurion” e “Dog Soldiers”, filmes em que há uma quantidade incível de ação intensiva e impressionante com um orçamento apertado. Ele nunca tinha visto GoT até então. Tivemos que dar um curso intensivo a ele. No entanto, ele é um aprendiz rápido e entusiasmado, além de ter logo se apaixonado, que terminou sendo uma ótima escolha. 
Weiss: Ele era uma criança com uma caixa de lápis gigante e um apontador do lado. Teve que brincar com todos esses brinquedos maravilhosos e construir essa surpreendente batalha fixada no meio da pedreira com 80 pés de altura, com paredes de castelo, portões e tudo mais funcionando perfeitamente. Ele estava trazendo coisas para dentro ao invés de jogá-las fora.

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E eu estou admitindo que você a reproduziu durante a noite para não ter que fazer um background muito elaborado para cada cena? 
Weiss: Foi parcialmente por causa do orçamento. Porém há certos elementos da batalha que sempre imaginamos que de fato pareceriam mais intensos durante a noite.
Benioff: Flechas incendiárias a noite são charmosas. 
Elementos desse tipo de batalha já foram feitos antes, particularmente a sequência de Helm’s Deep em Senhor dos Anéis. Vocês podem nos contar sobre o que fizeram para dramatizar Blackwater de uma maneira inovadora? 
Weiss: Com os recursos que tivemos, você nunca será capaz de competir com aquele nível de espetáculo. Aqui temos realmente que direcionar para o interior dos personagens e suas experiências pessoais do acontecimento mais do que dando a visão do gigante olho de pássaro. 
Benioff: Uma grande vantagem que temos sobre os filme é que quando um dos nossos personagens caminha para a batalha, nós gastamos aproximadamente 19 horas com ele. Você o conhece tão bem que esperançosamente se preocupa com ele. E alguns deles vão morrer. Existe um meio de filmar uma batalha onde você vê um exército de cem mil atacando um de duzentos mil. Há também um ponto de vista em que você é um soldado de infantaria e está correndo com um machado, espada ou algo assim, mas você não está vendo o todo. Você está apenas como que vendo aquilo que está diretamente na sua frente. Essa pode ser uma forma realmente profunda de filmar uma batalha. 
Weiss: Qualquer momento em que você ler algum relato militar da experiência de batalha de um soldado, se foi na Roma Antiga ou por todo o caminho até o Vietnã e além, nunca é: “Então esse flanco moveu-se para cá”, mas sempre: “Estava tão caótico, eu não sabia para que lado estava indo e metade do tempo não tinha certeza de que não estava atirando nos meus próprios companheiros”. É essa névoa da experiência bélica que você pode atualmente replicar sem exibir uma batalha do tipo da enorme Helm’s Deep. 
Você pode nos falar um pouco sobre pelo que você passou para conseguir filmar a batalha?

Benioff: Eu realmente acho que um mês seguido de filmagens noturnas, o que já é difícil para qualquer um- a menos que você seja um vampiro. São noites em Belfast, o que significa que são frias e úmidas. Há uma quantidade incrível de lama. É difícil para a equipe, mas aí quando você vê, de fato, aquilo na tela, percebe quão bom ficou, você percebe a maneira que o clima afeta as pessoas. Você vê o vento balançado o cabelo dos atores e a chuva caindo. Sem que nada disso seja falso. 
Weiss: O cansaço e os olhos ofuscados que você vê nas pessoas na tela parecem reais porque elas são reais. Nós precisamos de uma espécie de bônus salarial porque de jeito algum podíamos encaixá-lo no pacote junto com a maioria dos outros episódios. 
Benioff: Fomos de joelho( até a HBO): “Só dessa vez. Por favor.” Nós estávamos absolutamente nervosos com isso o tempo inteiro, até que finalmente conseguimos superar. O impressionante é que fomos pedir por mais dinheiro, uma soma considerável, para filmar a batalha de Blackwater- não conseguimos nada do que queríamos- porém, os diretores não pediram: “A batalha grandiosa irá atrair mais espectadores? É algo que fará os indicadores bombar?” Esse é justamente o motivo pelo qual essa história precisa dela. “Vocês conseguiram realizar com sucesso a primeira temporada sem batalhas principais e em grande escala, então por que agora precisam ter uma?” E então tivemos uma longa discussão sobre como a segunda temporada é toda construída para Blackwater. Você sabe que ela vem de uma forma bastante livre e de nós todos que a construímos e então temos alguém correndo e gritando: “Os navios estão na baía!” Certamente outros shows teriam cortado isso. Mas pareceu que seria mais barato se fizéssemos assim.
Blackwater atendeu às suas espectativas? 

Benioff: O episódio excedeu dramaticamente nossas espectativas e muito do crédito por isso vai para nosso time super humano de efeitos visuais, liderado por Steve Kullback e Rainer Gombos. Quando você olha para a sombra demônio nascida de Melisandre, ou para os detalhes dos dragões, ou a beleza de Pyke, percebe que está lidando com talentos que podem ganhar um Oscar algum dia. “Blackwater” tem mais efeitos especiais do que qualquer outro episódio que já fizemos. Tentamos evitá-los em excesso na temporada, mas com “Blackwater” não houve alternativa. Steve e Rainer procuraram um grande time de assistentes em tecnologia e o que eles conseguiram é, em nossa opnião completamente imparcial, um dos melhores trabalhos com efeitos na história da televisão. 
Weiss: E não é tudo visual. Uma grande parte de qualquer cena de batalha é o áudio e fomos sortudos por ter uma equipe maravilhosa. Ramin Djawadi, nosso compositor, é igualmente hábil em compôr uma cena de batalha calma, triste ou explosiva. E para esse episódio, demos a ele um desafio a mais, os resultados as pessoas ouvirão no episódio. 
Benioff: E então tivemos os designers de som, que tem trabalhado sete dias por semana, 16 horas por dia nesse episódio. É um episódio monstro, todos sabíamos que seria assim, mas conhecimento prévio não alivia a carga de trabalho. Peter Brown, nosso designer de som, é nosso herói porque ele finalmente nos trouxe o ruído de gelo quebrando que tínhamos em mente quando imaginávamos os Caminhantes Brancos falando em Skroth. Para “Blackwater”, ele teve que orquestrar uma grande batalha naval e uma terrestre. Teve que vir com algo muito grande e alto, o que seria um spoiler se eu explicasse, mas os leitores do livro entenderão. Uma vez Ramin compôs seus sinais de entrada e Peter continuou com um design de som, nós tivemos o magistral Onnale Blank e Matt Waters colocando tudo isso junto na fase de mixagem. “Blackwater” é essencialmente um filme curto, então a habilidade deles de conseguir realizar o trabalho num horário limitado da TV é surpreendente. 
Weiss: E nosso artista plástico Joe Finley, que trabalha em cada cena de Neil e Sam como numa pintura. E quem está mantendo toda essa equipe unida é o nosso pós-produtor Greg Spencer, que é um milagre. Ele trabalha horas incontáveis mantem 10000 bolas no ar de uma vez e nunca deixa nenhuma delas cair. Gerenciar e coordenar o fluxo da pós-produção foi um desafio único aqui e seu perfeccionismo nunca falhou- não nesse episódio, nem em toda a temporada. 
Indo da página à filmagem e à edição, alguma coisa muda sigificativamente no caminho? 

Benioff: Sim. Primeiramente, não havia batalha alguma. Por questões orçamentárias nós ficamos muito, muito próximos de ter toda a ação tirada da tela, de acordo com os roteiros teríamos adiado as cenas de batalha por alguns milhares de anos. A ideia era que nós fixássemos grande parte do episódio em Maegor’s Holdfast. Cersei e Sansa seriam destinadas para lá com as outras damas e crianças, ouvindo ocasionais reportes da batalha. Considerando o quão boas Lena e Sophie são, nós provavelmente teríamos feito um episódio decente, mão não queríamos fazê-lo assim. Ano passado tivemos que cortar uma batalha que desejávamos filmar e a batalha de Blackwater é de longe a mais importante. Em nossas mentes, a temporada inteira é uma preparação para esse embate e se não tivéssemos percebido isto, teríamos mutilado a história e diminuído a audiência. Como já tínhamos mencionado antes, imploramos à HBO por mais dinheiro. Defendemos nossa causa porque precisávamos da batalha e eles nos forçaram a isso. Aquilo nos permitia fazer uma batalha, mas não a batalha de A fúria dos reis. Ainda que dispuséssemos de $ 200 milhões, seria difícil fazer justiça com a batalha do livro. Não tivemos uma chance, simplesmente não havia tempo suficiente na programação ou dinheiro no orçamento( mesmo depois do bônus Blackwater). Houve uma boa negociação de pressão para tornar Blackwater em uma batalha terrestre. A batalha de Blackwater Banks, eu acho. E nós entendemos os motivos técnicos do porque isso ajudaria nossa causa: batalhas em terra firme são muito mais fáceis de filmar do que batalhas navais. 
Weiss: Mas já vimos tantas batalhas em fantasias épicas e relativamente poucas batalhas navais( provavelmente porque a maioria das pessoas que fazem fantasias épicas são mais espertas que nós somos e sabem evitá-las). E a diferença entre o poder do exército e da marinha é fundamental na história de George e toda a dinâmica entre Stannis e Renly( são indiretamente fundamentais para o enredo de Tyrion também). Seguindo exclusivamente a rota de uma batalha terrestre acabariamos tendo de reescrever toda a temporada. Então tivemos que realizar uma triagem na batalha, determinar o que poderíamos salvar e o que seria deixado de lado. Um pouco teve que ir, inclusive algumas coisas que odiamos ter perdido. Mas isso foi para manter o coração da coisa intacto, preservando os elementos centrais que daria ao episódio o impacto que precisávamos. Em nossa opinião imparcial, achamos que nós- a equipe de centenas e centenas de pessoas que trabalharam como cães dentro da madrugada de muitas, muitas noites- nós achamos que criamos uma intensa, dramática batalha. 
O autor de Game of Thrones, George R.R. Martin, escreveu o episódio. Você pode nos falar a respeito da contribuição dele para o episódio e para a temporada em geral? 

Weiss: Sim, quando nós mostramos ao George a realidade dura da produção, ele foi muito esperançoso em nos ajudar a encontrar uma maneira de contornar blackwater. Ele contribuiu com cada episódio de diversos modos. Como por exemplo… inventando todos os personagens e enredos principais para eles.
Benioff: George criou o mundo em que vivemos nos últimos seis anos e meio, então a palavra “contribuição” não abrange tudo o que ele já forneceu para a série. Nós estávamos em Paint Hall com ele durante a primeira temporada, mostrando para ele um dos sets de filmagem e ele disse: “Então aqui é onde eles irão filmar as cenas do meu episódio?” Olhamos um para o outro e dissemos: “George, todos os episódios são seus”. Os personagens saíram do cérebro dele, bem como todas as histórias principais e todos os personagens mais importantes. Nós quisemos dar “Blackwater” para ele escrever por que ninguém escreve tão bem em batalhas de larga escala quanto George. De última hora, tivemos que eliminar alguns elementos do que ele escreveu. Tem alguns instantes maravilhosos do roteiro( e do livro) que desajávamos poder ter incluído. Mas quando você está transmitindo 10 horas de fantasia épica em menos de 2 horas, é simplesmente impossível incluir tudo que se quer. Sempre acabamos voltando para os cavalos ou Stonehenge.

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