Resenha do episódio 2.04 “Garden Of Bones” [COM SPOILERS]

O episódio já começa com a abertura mais uma vez surpreendendo com a criativa “engenhosidade” de mostrar as diferenças entre cada lugar, explicar a movimentação dos personagens e é claro seguir aquele clima dos mapas que são imprescindíveis nos livros de fantasia em geral. Dessa vez adicionando Qarth e Harrenhall, dois lugares monumentais, com uma descrição complicadíssima nos livros e por conseguinte tão aguardados pelos fãs.

 

Começando com uma piada besta sobre “peido” e terminando com um dos cliffhangers mais inacreditáveis da televisão, o quarto episódio mostrou por que Game Of Thrones é a melhor série da atualidade.
A partir daqui a resenha contém spoilers dos livros 1 ao 3.

O episódio começa com mais uma batalha off screen onde vemos o ataque de Vento Cinzento e a carnificina após a batalha. Cinco Lannisters mortos para cada um dos nortenhos. É mostrado um pouco do que é a guerra através do passeio de Robb, enquanto no livro isso se limita praticamente aos “passeios” de Arya, logo vemos que Robb diferentemente de Tywin preocupa-se com as consequências que pode ter esta Guerra. Somos apresentados simultaneamente a Roose Bolton, que nesta temporada aparentemente não vai ter muita participação e a Jeyne-to-be, Oona Chaplin que se diz chamar Talisa e deixa a  dúvida: ela se chama realmente Talisa e veio de Volantis ou essa é apenas uma jogada dela para despistar Robb? De qualquer forma temos uma ideia de onde isso vai acabar, sendo ela Talisa ou não.
Neste ponto os “puritanos-radicais” provavelmente estavam tendo convulsões no sofá, pois além desta história não estar no segundo livro, não está em livro nenhum. Simplesmente é mais ou menos assim: Robb arranjou uma mulher, casou e morreu. Mas é óbvio que os produtores não iriam deixar Richard Madden ter sua participação na série tão insossa quanto a de Robb nos livros. Mesmo por que, o próprio George R. R. Martin comentou sobre seu desejo tardio em dar um POV para Robb (aposto que ele se contorce de raiva no sofá, pensando em como trazer de volta esses personagens tão bons). Todos que já leram o livro sabem o destino trágico que aguarda o Rei do Norte, porém Richard ainda tem mais uma ou duas temporadas pela frente, é de se imaginar que seu papel não seja ignorado na trama. KING IN THE NORTH!

O próprio Richard, comentou em entrevista ao Vulture o que ele acha sobre seu papel na série:

Claro que há diferenças entre os livros e a série. Exatamente! Existem diferenças. Nós não estamos fazendo os livros, estamos fazendo o programa de TV. Vai ser diferente, então haverá algumas coisas que os leitores de livros não estarão familiarizados com, e isso é excitante. Ele mantém todos nós tentando adivinhar. As histórias mudam, e é engraçado pois o que pode começar como uma pequena mudança, pode realmente acabar sendo muito diferente dos livros – mas tudo deriva dos livros. Nós estamos fazendo um filme de 10 horas a cada ano, e as coisas tem que ser diferentes. Eu acho que os fãs vão realmente gostar do que temos feito nesta temporada.

Cortando para Porto Real, vemos Joffrey mostrando que é filho da rainha sádica que manda matar bebês, e que consegue ser mais sádico ainda que todos os outros Lannister juntos, lembrando que no livro ele é sádico, cruel e frequentemente reclamado por Tyrion e Robbert.
Por não conseguir matar Sansa, apoveita seu tempo humilhando-a perante a corte e acabando com todos os sonhos de nobreza e cavalheirismo que ela pudesse ter. Afinal o único que lhe oferece ajuda para tirá-la daquela situação é Tyrion, o anão horripilante, por quem ela sente repugnância desde a primeira vista. Já o anão por sua vez aproveita o momento para mostrar a Joffrey que ele está ali realmente para governar como Mão do Rei e não obedecer as ordens de um rei louco.
No livro, Bronn e Tyrion discutem a idade do jovem rei e tem uma ideia interessa, a história teve um desfecho na série que certamente chocou os “puritanos-radicais”.

A participação da personagem mais odiada da série, Ros, aquela que não deveria estar ali, sofrendo e causando sofrimento para deleite do rei psicopata. Mas além de mostrar peitos e bundas (ui que coisa feia!), o que estava explícito nessa cena era o prazer de Joffrey em dar o troco para seu tio e mostrar a ele o resultado das consequências de se deafiar um rei louco. Já li vários comentários em defesa de Joffrey e em detrimento dos escritores/produtores, pois Martin não redigiu essa cena e a imaginação está cerceada pela opinião dos fãs, porém Joffrey torturava gatos, mandava bater em Sansa, mandou matar Bran! Por que ele não seria capaz de causar um estrago emocional e físico como aquele? Ainda mais com a pretensão de desafiar e se vingar de Tyrion. Como se este tipo de psicopata não existisse. No próximo episódio veremos as consequências desses atos.

 

Mindinho, aparece subitamente no acampamento de Renly, esta cena tem a clara função de demonstrar um  comportamento bajulador e dissimulado do Mestre da Moeda, com a importância que as suas maquinações tem nos livros, é natural que ele ganhe mais tempo em tela com o objetivo de explicar suas motivações e sutilmente delinear seus planos.
Margaery também faz uma participação maior do que supostamente lhe foi permitida, aparentemente ela tem muito mais história do que Martin já escreveu.

 

Daenerys, que tem pouquissíma coisa pra fazer nesta temporada, decide viajar ao Jardim dos Ossos, após ser convidada como mãe dos dragões para visitar Qarth, como se ela tivesse outra alternativa…
Novamente em Westeros, mais uma Stark passa maus bocados. Arya dessa vez, chegando em Harrenhall (ou nas ruínas…) escoltada pela Montanha (que não é mais Connan Stevens e nem aparece direito). Harrenhall até agora conseguiu bater o record de lugar mais feio, angustiante, horripilante e assustador! CREDO! Tinha que ser mesmo amaldiçoado um lugar daqueles…
Dá pena ver Arya que era tão feliz há uns 15 episódios atrás ter um destino tão triste…

Enquanto isso a lista vai crescendo:  “Joffrey, Cersei, Ilyn Payne, o Cão…” 

Na cena com Mindinho, também considerada “extra”, Catelyn recebe os restos mortais de Ned, ouve uma mentira e uma motivação para suas ações futuras. Mais uma vez, a Tully acreditará em Mindinho. Em minha opinião esse background para a troca entre Jaime as garotas ficou mais claro que no livro, é como se mostrasse o poder de Mindinho em iludir as pessoas e a necessidade de Catelyn em entregar Jaime, que no livro de certa forma é injustificada. Além disso, para quem não leu os livros ficaria difícil compreender os motivos que levaram a mãe a libertar o prisioneiro do Rei do Norte. Por uma carta de Tyrion? Não por causa de uma promessa de alguém que se diz seu amigo de infância. E além disso, mais uma vez é mostrado o poder manipulativo de Mindinho. Tanto em relação a Cat, quanto Renly e Margaery, sempre dissimulando e tentando permanecer amigo de todos enquanto arquiteta suas maquinações;

Stannis e Renly, fazem uma disputa de insultos e mesmo sem a participação da imprescindível fruta amarela, conseguimos absorver o essencial da cena: Renly deve decidir entre reconhecer o direito legítimo de Stannis ou enfrentar a ira de seu irmão mais velho. Mesmo que seu exército seja maior, sabemos que a lista de pecados de Renly é muito grande para que ele dê conta em apenas uma noite. E a noite é escura e cheia de terrores.
Na maior cidade que já existiu foi inserido um pequeno conflito entre Daenerys e os Treze, já que eles não estão nada interessados no khalazar de Dany, mas sim na pequena prole que ela carrega. Nenhum homem vivo já avistou um dragão, ela afirma ter três e não mostra a ninguém, muito egoísmo. Xaro (que pronúncia foi aquela???) fez um pacto (?) jurando vigiar e proteger a cidade da “horda” Dothraki, assim ao invés da paz e tranquilidade com que Qarth aparenta receber a Filha da Tempestade nos livros, na série já sabemos de cara que todos ali tem segundas intenções, porém Daenerys não tem outra alternativa a não ser entrar no Jardim de Ossos. 

Lorde Tywin aparece em Harrenhall, desmascara a farsa de Arya revelando que ela é uma garota, acaba com a diversão de e solicita Arya como sua copeira. Uma clara mudança em relação aos livros, certamente para não introduzir o personagem de Roose Bolton na história e ter que fazer todo um contexto da família, do castelo e das alianças. Assim todo mundo sabe quem é Lorde Tywin e que Arya está correndo perigo. Só me incomoda por que mais tarde você pensa que se Arya tivesse contado a verdade para Bolton, ela teria se dado mal. Ou talvez eles ainda mudem a história depois e coloquem os dois cara a cara.
Tyrion ameaça Lancel, sabendo de seu relacionamento com a rainha e acredita ter ganhado mais um espião.
Finalmente a cena mais “estranha” que eu já assisti em toda a  minha vida. Eu já esperava pelo que ia acontecer, mas ver em cena, aquele Venom saindo das entranhas da Sacerdotisa Vermelha foi algo além da definição de estranho, foi algo meio que indescritível, confesso que fiquei rindo, pensando em quem não leu os livros e não tinha a menor ideia do que ia acontecer ali e nem sabe ainda o que aquilo vai fazer. Melisandre passa o trajeto inteiro pertubando as convicções de Davos, testando seu interesse nela e por fim revela a coisa grotesca que ela carrega em seu ventre. Com relação a mudança entre a morte de Renly e a do castelão de Ponta Tempestade ficou claro que ele será mais um personagem excluído, pois essa parte não foi mencionada e creio que não haverá tempo para continuar com o cerco as tropas de Renly, havendo a necessidade de partir para Águas negras.
Sei que algumas pessoas ficaram chocadas com Jaime atirando Bran pela janela e pararam de assistir a série, mas tenho certeza de que depois dessa cena com Melisandre, quem não largar agora, não larga mais.
Melisandre e suas aparições polêmicas.

Por fim, aproveito a resenha para fazer algumas considerações sobre as milhares de reclamações que recebemos diariamente.
Os roteiristas da série são David Benioff, D. B. Weiss e o próprio Martin. Game Of Thrones teve sua primeira temporada exibida no ano passado, porém a concepção e o desenvolvimento começaram em 2007! O próprio George R. R. Martin comentou sobre o quanto seria complicado transcrever para a tela a história de seus livros:

“Eles levaram 50 anos para fazer um filme com’O Senhor dos Anéis’ antes de Peter Jackson ter sucesso fazendo três”, disse Martin. “Meus livros são maiores e mais complicados, e exigiriam 18 filmes. Caso contrário, será necessário escolher um ou dois personagens.”

Em 1994 ele deixou Hollywood, determinado a fazer o que ele realmente queria: escrever. Apesar de ter feito sucesso na televisão, trabalhando em uma nova versão de “The Twilight Zone” e na série de fantasia “A Bela e a Fera”, o piloto de “Doorways“, uma série que ele desenvolveu, não foi selecionado, e ele acabou se cansado das limitações que tinha. “Tudo que fazia era muito grande e muito caro no primeiro rascunho”. Ele queria castelos, paisagens e exércitos, e os produtores sempre o faziam cortar essas coisas.

Ele se lembra de dizer a si mesmo: “Eu vou escrever uma fantasia e será grandiosa. Eu vou ter todos os personagens que eu quero e todas as batalhas que eu quiser. ” [Entrevista feita por Laura Miller para o New Yorker].

Todos que já leram os livros sabem que essa uma história muito densa e que há elementos demais pra colocar na TV, inclusive vários detalhes tem passado despercebidos, mesmo por quem diz ter lido todos os livros e só agora percebeu um pequeno detalhezinho aqui e ali.

O primeiro comentário que se faz sobre os livros é: fantasia para adultos, não para crianças. Se a série tem sexo demais, nudez demais, mortes demais, violência demais, sangue demais, é por que eles optaram por essa linha e por que acharam que a série faria sucesso e com certeza teve a aprovação de GRRM, afinal foi ele quem escolheu a HBO para produzi-la. Somente no piloto a HBO gastou possivelmente 10 milhões de dólares. Se eles cortassem todo o conteúdo adulto e tivessem censurado a série, certamente haveriam reclamações por causa disso. Mas não é TV, é HBO, esse é o slogan, quem assiste outras séries do canal sabe que esse tipo de conteúdo não é considerado um tabu por lá. Diferentemente do Brasil não há problema em exibir cenas como as de Renly e Loras e basta lembrar que a série é feita pelos americanos (ingleses, irlandeses…) e para o público americano. Se fosse feita pela Globo ou Record (WTF?) certamente nada do que temos visto atualmente seria exibido. Pensando nisso, qual a possibilidade de Game Of Thrones ser exibida pela TV aberta no Brasil?

Enfim, a série vai continuar a mesma linha desta e da temporada anterior. Já que você considera os livros melhores e a série é “ridícula”, “tosca”, “uma me#[email protected]”, “uma bo$%#@”, “uma porcaria”, “uma invencionice”, “totalmente fora do contexto” não se sinta obrigado a assinar a HBO pra ver a série. Basta cancelar a assinatura do canal e esquecê-la. Leia todos os livros e fique aguardando quase uma década pela publicação do próximo, enquanto isso quem entende que a série é uma adaptação, tem várias limitações e diversas possibilidades abertas e tem capacidade de separar uma coisa da outra, aproveitando as duas opções, possa apreciar a série até seu final. Já fiz isso com várias séries e deu certo!

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