A dublagem de Game Of Thrones na HBO Brasil – parte I

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Game of Thrones foi exibida na HBO Brasil, a partir do dia 08 de maio, com a opção de legendas ou dublada em português brasileiro. Apesar de muita gente preferir assistir as séries legendadas, incluindo eu mesma, acredito que seja importante fornecer as duas opções, tanto por conta da acessibilidade, quanto da preferência de cada telespectador.
Como prometemos, fizemos uma pesquisa sobre a dublagem de Game Of Thrones feita para a HBO Brasil, nesse post apresentamos uma entrevista com a tradutora Dilma Machado que nos deu alguns detalhes de como foi seu trabalho e de como foi o contato com Game Of Thrones.
Peço que vocês leiam a entrevista inteira antes de comentar!
Para quem não acompanhou nenhum episódio da série dublada, neste vídeo há uma amostra da dublagem do primeiro episódio. Caso tenham mais vídeos compartilhem os links nos comentários!
O que você achou da série.
Depois de ler sobre o autor da série, achei ainda mais interessante!. Já li várias opiniões contrastantes sobre a série, onde alguns a odiaram e outros a amaram. Eu amei! Nada mais compensador que receber um trabalho que lhe dá vontade de continuar traduzindo, que lhe deixa curioso para saber o que acontecerá a seguir.
Clique no link para ler a entrevista na íntegra.
A dublagem no Brasil ainda é vista com certo preconceito, mesmo sendo um trabalho bastante complicado, qual a sua opinião sobre isso?
Quando pego um trabalho para traduzir, seja série, filme, documentário, desenho, etc., procuro pesquisar na internet tudo sobre aquele material antes de começar a tradução. Acho importante o tradutor se ambientar com o que vai traduzir, pois ele vai se deparar com assuntos diferentes o tempo todo. O que nos diferencia de um tradutor técnico ou juramentado, por exemplo, é que nunca pegamos um trabalho no qual o vocabulário se repete. Então é preciso se atualizar o tempo todo e em todas as áreas, justamente por isso. O tradutor de dublagem é um tradutor de todas as áreas ao mesmo tempo. Tudo é uma caixa de surpresas.
A dublagem no Brasil é vista com preconceitos por aqueles poucos privilegiados que sabem falar outra língua (geralmente o inglês) e que dizem preferir ouvir o produto no original, ou no máximo ler a legenda. Não sou contra nada disso, apenas acho que todos têm o direito de assistir o mesmo produto da maneira que lhes convém. É preciso haver opções. Agora só se fala de áudiodescrição, e acho que é mais uma conquista no audiovisual, mas é também mais um motivo para se defender a dublagem! O deficiente visual não vai assistir somente produtos brasileiros, vai? Os produtos estrangeiros precisam estar dublados para serem áudiodescritos!
A dublagem brasileira é considerada a terceira melhor do mundo, perdendo para Itália e França. Os méritos dos dois países começam logo na primeira etapa que é a tradução.
Na Itália, por exemplo, não existe o “tradutor” como o tradutor aqui no Brasil que faz tudo: tradução, adaptação, minutagem, marcação de loops.
O que eles chamam de tradutor, faz apenas uma “tradução bruta” (rough translation) que significa traduzir o texto sem se preocupar com detalhes, mas destacando os fonemas principais de cada frase. Este tradutor recebe menos para fazer o trabalho, justamente por não se ater a detalhes. Depois vem a segunda etapa que é o que chamam de “dialog writer “ – escritor dos diálogos, que fará, junto com o diretor de dublagem, toda a adaptação (tamanho da frase) , sincronismo labial (procurando palavras com fonéticas parecidas), e colocará todas as reações que aparecerem (riso, choro, suspiro) além das indicações de letreiros que possam aparecer ( exemplo: uma placa que aparece na tela, o nome de um local, etc.)
Exemplo: na frase “I love you”, “you” termina com o som fechado (fonética fechada da letra U no português). Enquanto na legenda, geralmente é traduzido por “eu amo você”, na dublagem isso não caberia porque em “você”, a vogal “ê” é semifechada. Obviamente, “Eu te amo” cabe perfeitamente. Esse tipo de preocupação, é dever do “dialog writer” e do diretor.
A terceira etapa cabe ao “assistente” que fará todas as marcações de tempo: entrada e saída das falas. Sendo que essa marcação é diferente daquela feita aqui no Brasil, onde dividimos as falar por loops de aproximadamente 20 segundos.
Além disso tudo citado acima, ainda existe a diferença nos prazos para todo o trabalho que é muito maior e o preço, que é surreal comparado ao pagamento que o tradutor brasileiro recebe. Infelizmente, trabalhamos demais, fazemos o trabalho que não deveria ser nosso e não recebemos nenhum centavo a mais por isso.
Até me perguntaram por que não digo não para um trabalho, já que pagam tão mal. Amo o que faço, e faço com a maior dedicação possível. Não estou ali pensando no dinheiro que ganharei com o trabalho, mas na qualidade que darei ao meu trabalho. Se não faço, outro tradutor fará. Como não trabalhamos diretamente com a distribuidora, não existe uma exigência na qualidade da tradução. Diretores e dubladores até reclamam de certas traduções, mas não cabem a eles exigirem a qualidade, e a empresa de dublagem, apesar de tentar contratar bons tradutores, também não exige muito, pois não existe controle de qualidade. Essa exigência deveria vir do distribuidor, mas ele não está interessado nisso. O que importa é que o produto saia o mais barato possível para ele. Nem por isso vou deixar de lutar para que haja uma melhoria na qualidade dos tradutores de dublagem. Eles precisam ser orientados e para isso, é preciso um curso, da mesma maneira que existem cursos para legendagem.

Além disso, gostaria de saber quais as dificuldades que você teve em traduzir a série, em relação a nomes, lugares, até mesmo a língua Dothraki, como tanta coisa nova e complicada afetou o seu trabalho?
Traduzir GoT deu trabalho , mas foi compensador, pois aprendi muito. Passava horas na internet lendo sobre a série no site oficial, blogs, e tudo relativo a ela. Como o distribuidor não exigiu uma homogeneidade com o livro, não o li, então não sei se os nomes ficaram iguais. (confesso que só soube do livro depois de traduzir o primeiro episódio e daí já era tarde demais.) Entrei em contato com alguns fãs da série e que leram o livro para me ajudarem.
Um exemplo da diferença na tradução foi no termo “hand of the king”, que ficou traduzido literalmente como “mão do rei”, mas eu optei por “conselheiro do rei”. Houve controvérsias com o pessoal do blog, pois disseram que o rei tinha outros conselheiros, mas acompanhando a série, você distingue muito bem o conselheiro do rei daqueles que são conselheiros do reinado, por assim dizer. Na verdade, “hand of the king” seria mais o “braço direito do rei”. São decisões complicadas de se tomar, mas o tradutor precisa decidir por uma opção e não tem como voltar atrás. Os lugares, procurei manter no original, a não ser que uma tradução fosse relevante. As cenas dos Dothraki eram muito difíceis. Os dubladores tiveram que dublar a língua no original e quando não havia as falas no script, era preciso escrever a fonética do que estava sendo dito. Infelizmente o distribuidor teve a triste ideia de optar por uma narração em português do que era falado em dothraki, em vez da legenda. Achei que ficou péssimo.
Todas as dificuldades que enfrento em novos trabalhos sempre são compensadoras, pois vou aprendendo cada vez mais. O tradutor nunca sabe o suficiente. É preciso estudar muito, ler muito, ter contato com outros tradutores de outras áreas , participar de fóruns e congressos, enfim, procurar sempre outras fontes de conhecimento e não se ater ao que já sabe, pois tudo fica obsoleto rapidamente. 
Você acompanhou a história da primeira temporada? O que você achou da história inteira? Qual (ou quais são) seu personagem favorito?
Meu personagem favorito na primeira temporada foi Ned Stark, que morreu, infelizmente. Mas Tyrion (o anão) é intrigante.
Você leu ou pretende ler os livros?
Pretendo ler os livros porque fiquei muito curiosa para saber o que vai acontecer de agora em diante. Rsrsrs.
Em relação a equipe de dublagem, você tem contato com eles? Gostaria de saber também o que eles acharam desse trabalho.
Tenho contato com alguns dubladores da série, pois são meus colegas de dublagem, e fiquei feliz com os comentários deles, não só elogiando a série como também a tradução. Isso é compensador.
Também sou dubladora e isso é um fator importantíssimo para se traduzir. O tradutor que dubla, ou que tem noções de dublagem, certamente fará um trabalho melhor. Aconselho meus alunos da PUC a fazerem um curso de dublagem para se familiarizarem com o processo da dublagem.
Como alguns me disseram que são “boicotados” quando ligam para pedirem informações, pois a primeira exigência dos cursos é que a pessoa seja ator profissional, ou seja, tenha o DRT(número do registro do ator na Delegacia Regional do Trabalho), pretendo dar um curso de “noções de dublagem para tradutor”, como complemento do curso de “Técnica de tradução para dublagem” que ministro na PUC-RJ.
A equipe de dubladores incluiu José Augusto Sendim (Ned), Felipe Goulart (Bran), Carla Pompílio (Catelyn), Isaac Bardavid (Rei Robert), Ricardo Schnetzer (Jaime), Renan Freitas (Jon).
Sei que nem todos gostam de dublagens, mas lembrem-se que um trabalho como esse é bastante complicado, por isso pedimos que compartilhem suas opiniões nos comentários respeitando todos os envolvidos.
Na segunda parte desse post, traremos uma entrevista realizada com o dublador de Eddard, José Augusto Sendim. Fiquem atent@s! 
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