George R. R Martin fala para EW, parte I

Imagem HBO, via EW
Esse post é a tradução de uma entrevista excelente concedida por George à James Hibberd da EW. Nesta entrevista ele comenta sobre a escrita dos livros, o final da série, a comparação dele à Tolkien e também sobre as mudanças feitas na adaptação dos livros para a série da HBO. Pelo tamanho, achamos melhor dividi-la em duas partes.  
ATENÇÃO: Não contém SPOILERS do livro 5 “A Dance with Dragons”, porém pode conter SPOILERS dos quatro livros anteriores, bem como da primeira temporada de Game Of Thrones.
Você foi avisado!


EW entrevista: George R.R. Martin fala sobre “A dance with dragons”
Após seis anos de ansiosa espera por George Martin, A dance with dragons chega com brilhantes críticas. A EW reuniu-se com o autor em seu escritório de Santa Fé para uma conversa profunda sobre a sua fantasticamente popular série “A song of ice and fire”. A seguir, ele examina o porquê de o livro 5 ter demorado tanto, dá sua impressão sobre a série da HBO e sobre a morte de personagens queridos, entre outros tópicos. […]
[AVISO: Não há spoilers do livro A Dance with dragons, mas há dos anteriores.]
ENTERTAINMENT WEEKLY: Você disse antes que o primeiro livro, Game of Thrones, foi em parte uma reação ao tipo de narrativa que você não podia fazer como um escritor de TV nos anos 80. Qual foi o verdadeiro momento que inspirou Thrones?
Martin: Eu só queria fazê-lo grande. Por tanto tempo eu ouvi: “É grande demais, caro demais, perde os personagens e os cenários.” Voltando à prosa, eu poderia fazê-lo tão grande quanto quisesse, tão grande quanto a minha imaginação. Ele realmente veio do nada. Em um sentido amplo, eu sabia que queria escrever uma fantasia épica desde que, ainda criança, passei a amar [J.R.R.] Tolkien. Mas, eu não tinha idéias específicas para isso. No verão de 1991, eu estava em Hollywood, mas não tinha nenhum contrato na TV. De repente, eu obtive o primeiro capítulo, no qual encontram os filhotes de lobos gigantes- estava lá. E eu apenas soube que tinha que escrevê-lo.
Pode até ser uma questão boba, mas: Quando você pensou o mundo que criou, em que as estações duram anos, onde ele ficava? É em outro planeta?
O que Tolkien escreveu foi “O mundo secundário”. Não é outro planeta. É a Terra. Mas não a nossa Terra. Se você quisesse fazer algo semelhante a ficção científica, poderia chamá-lo de Mundo alternativo, mas isso soa ficção científica demais. Tolkien realmente foi precursor com a Terra Média. Ele colocou algumas coisas vagas sobre vínculos com nosso passado, mas isso não teve continuidade. Constantemente, as pessoas me escrevem com teorias de ficção cientifica sobre as estações do ano- “ É um sistema de estrelas duplas com um anão negro e isso explicaria”- Isso é fantasia, cara, é mágico.
Você acha que é divertido escrever?
Eu acho. Sim. No âmbito em que tudo é divertido em escrever. Sou um daqueles escritores que dizem: “Eu gostaria de ter escrito”. Há dias em que eu realmente aprecio escrever e outros em que odeio. Posso enxergar tudo em minha cabeça e as palavras não vêm. Tento pô-las na página e elas parecem duras e tolas e isso é estúpido. Escrever é um trabalho difícil.
Em seu blog você diz jogar muitas coisas fora.
Eu jogo. Talvez mais do que deveria, especialmente com esses livros, à medida que nos aprofundamos. Não sei se é porque estou ficando velho, ou se a série está ficando mais complicada. Acho que estou sendo influenciado por minhas próprias críticas positivas. Tantas pessoas tem me dito que é a maior fantasia desde Tolkien ou até melhor. Isto desperta em mim um desejo de não estragá-la.

Existe algo de que você se arrepende nas séries?
A maior coisa com o que estou disputando é a cronologia. Quando surgi com personagens jovens, a minha intenção era de que elas crescessem durante as séries. Pensei que teria um capítulo. E que o próximo seria um mês mais tarde. E então o próximo seria dois meses depois. E no final do livro, um ano teria passado. Mas não faz sentido que uma personagem leve dois meses para responder a algo que aconteceu. Então você termina o livro e muito pouco tempo passou. Após o terceiro livro eu imaginei que pularia cinco anos a frente, então as crianças estariam mais velhas. Isso era parte do atraso. Tentei escrevê-lo com uma diferença, mas não funcionou, então eu acabei descartando tudo isso.
Você sabe como termina?
Eu sei o final no sentido geral. Não conheço cada pequena mudança e volta que me levará ao fim, e não sei o final de cada personagem secundária. Mas o final e as personagens principais, sim. E [os produtores de Game of thrones] David Benioff e Dan Weiss sabem parte disso também, no caso de os fãs estarem muito preocupados em eu ser atropelado por um caminhão.
Há um ponto nas series em que você sente como se estivesse lendo um monte de histórias separadas. 


Com o final de “Dance”, você sente como se os fios estivessem começando a se juntar. Isso está correto?
Esta certamente é e sempre foi a intenção. Tolkien foi meu grande modelo pra muito disto. No entanto, eu difiro dele em aspectos importantes, eu não perco pra ninguém em meu respeito por ele. Se você olhar para O Senhor dos Anéis, verá que começa com um firme foco e que todas as personagens estão juntas. E então, lá pelo final do primeiro livro, a sociedade se divide em diferentes aventuras. Eu fiz o mesmo. Todas as personagens estão em Winterfell no começo, exceto Dany, e depois elas se dividem em grupos, os quais, finalmente, também se dividem. A intenção era espalhá-los e então voltar e deixá-los juntos. Encontrar o ponto em que essa volta começa tem sido um dos problemas com o qual mais tenho lutado.

Se você tivesse escrito “Senhor dos Anéis”, Gandalf teria continuado morto após as minas de Moria.
Sim, ele teria. Eu tenho muito crédito por matar minhas personagens, mas Tolkien realmente fez isso primeiro em alguns aspectos que me inspiraram. E então Tolkien fez isso de novo no fim do segundo livro, quando ele, aparentemente, mata Frodo, apesar de ter sido uma simulação.
Há uma linha no livro 5 em que uma personagem diz: “Os deuses são bons.” Jamie pensa: “ Continue acreditando nisto.” Você fala muito sobre religião nas histórias, mas qual o seu ponto de vista?
Acredito que eu seja um Católico lapso. Você me consideraria um ateísta ou agnóstico. Eu acho a religião espiritualmente fascinante. Eu gostaria de acreditar que esse não é o final e que há algo a mais, mas não posso convencer a parte racional de mim que isso faz algum sentido. É o que Tolkien deixou de lado- não há sacerdócio, nem templos, nem alguém adorando algo em “Anéis”.
Existem poucos atos de bondade em seus romances. Se alguém está por conta própria, ou enfraquecido, pode perfeitamente esperar que todos tentem tirar vantagens ou tratá-lo terrivelmente.. Obviamente, Aslan não salvará o dia, mas seus livros são céticos em relação a natureza humana?
Acho que os livros são realistas. Sempre gostei de personagens cinzas. E quanto aos deuses, nunca me satisfiz com as respostas que são dadas. Se realmente há um deus amoroso e benevolente, por que o mundo está cheio de estrupo e tortura? Por que sentimos sempre dor? Fui ensinado de que a dor é para sabermos quando nosso corpo está se destruindo. Bem, por que não poderíamos ter uma luz? Como uma luz de painel? Se a Chevrolet poderia fazer isso, por que não deus? Por que a agonia é uma boa maneira para lidar com as coisas?
Quando os fãs reclamam sobre um personagem morto, o que você diz para eles?
Em alguns casos, eu compreendo. É difícil matar personagens, elas são as minhas crianças. Obviamente algumas foram marcadas para morrer no começo, como Ned. Há uma quantidade enorme de livros lá fora para fãs que querem uma leitura confortante, que querem apreciar uma história excitante com nada para deixá-los tristes ou perturbá-los. É engraçado ir para um filme de Indiana Jones e vê-lo matar 40 Nazis, mas há espaço para a Lista de Schindler também. O heroismo de Schindler ressoa mais para mim do que o de Indy- um é divertido, mas o outro é profundo e diz algo sobre a natureza humana. Não sei estou conseguindo, mas é pelo que eu estou lutando. Acho que a fantasia pós Tolkien tornou-se Idiana Jonies. Estão copiando muito da literatura de Tolkien sem capturar o espírito dele. Seus livros não são todos felizes e divertidos.
Amanhã postaremos a segunda parte da entrevista traduzida! Para ler na íntegra em inglês clique aqui.

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