Resenha do episódio 9: “Baelor” – [COM SPOILERS]

Pobre garoto.

Muito tristes? Não fiquem. Ned Stark, seja ele real ou fictício, foi um grande homem e deixou um grande exemplo. Devemos honrar sua memória em vez de lamentar sua ausência. WINTERFELL!

Admita, essa série mexeu com você. Deixou você irritado, te fez vibrar com o anão, com irmãos ou com inimigos, te deixou triste em alguns momentos… não é um mero drama. É um tanto mais que isso. Você sabe que são fictícias, mas nem por isso as personagens são menos humanas. Você vê as falhas, qualidades, ímpetos e desvios. Você pode não perdoar, mas sabe que algumas coisas ruins e boas acontecem. Falar da natureza humana dessa forma faz dessa série não só ambiciosa, mas grandiosa, por estar cumprindo bem o papel.

Logo na abertura, temos uma novidade: mais uma sequência nos é apresentada, mostrando as gêmeas (The Twins), travessia de domínio dos Frey.

Esse episódio, de longe, foi o melhor que vi. Instigante, cheio de informações, excitante, excelentes atuações. Entretanto, devo confessar: há um pouco de injustiça em se avaliar episódio por episódio. Existem episódios que preparam o ambiente, então se você for olhar só pra ele, a dinâmica é um pouco diferente e uma avaliação episódio a episódio o prejudicaria. Mas vamos às críticas com spoilers!

Logo na primeira cena, temos uma ótima participação do Lorde Varys, conversando com o exausto Ned Stark. O Sean Bean aqui (e mais adiante) soube mostrar muito bem o cansaço psicológico do personagem. E independente do Lorde Varys estar certo ou errado, ser sincero ou mentiroso, ele quase me convenceu. A história de ele precisar ser inescrupuloso pra fazer o que é certo… querendo ou não, ele o faria por uma questão de princípios, e nesse ponto o Varys seria igual ao Ned. Aí fica a dúvida: ele se indentifica com o Ned nesse instante pra tentar manipulá-lo? Eu realmente não sei dizer. Por Varys, sabemos do levante de Robb e do temor de Cersei a Stannis Baratheon, irmão de Robert. E que Cersei deseja que ele confesse a traição, que Robb abaixe a espada e que proclame Joffrey como Rei.

Varys tem uns olhares, uma expressões… excelente ator. Esse personagem, na série, me cativou muito mais do que nos livros, muito embora eu já gostasse dele nos livros.

Você cresceu com atores, aprendeu bem seu ofício. Mas eu cresci entre soldados. Aprendi a morrer há muito tempo.
(Eddard Stark)

A última tentativa de Varys é apelar à família de Ned. E assim sai Varys da masmorra, carregando com ele a última luz do Lorde de Winterfell.

A seguir, vemos os homens de Robb às portas das Gêmeas (aliás, retratadas adequadamente!), interceptando as mensagens de Walder Frey. Robb é impetuoso e não muito esperto, mas homens de confiança estão ao seu lado para sábios conselhos. E Catelyn para negociar por ele.

Walder Frey é um homem que, como há no livro, pode tirar um exército das calças. Os filhos, netos e bisnetos amontoam-se. O velhinho não tem vergonha mesmo. Apalpa a sua oitava esposa (de apenas 15 anos!), além de aquecer as partes íntimas como bem lhe apetece, tudo isso na frente da Senhora do Norte, além dos comentários pouco oportunos. As intenções de Frey são claras: ele quer casar os filhos e filhas, e não se livrar deles. E vê nessa negociação com Catelyn uma oportunidade de ver seus filhos bem casados. Walder Frey, personagem muito cativante, uma pena sua participação ser tão breve no episódio.

Na Muralha, Jon recebe das mãos de Jeor Mormont a espada Garralonga (Longclaw), espada da família, de aço valiriano, o que explica como ela pode durar 500 anos. E ficamos sabendo que Alliser Thorne, o cara que vive praticando bullying no pobre do Snow foi pra Porto Real, em nome da Patrulha da Noite, levando a mão do morto-vivo que não está mais vivo (e que, no livro, ainda se mexia). E Sam segreda para Jon que seu irmão Robb está marchando para o Sul, e Jon sente que deveria ir. Infelizmente, nada é esclarecido sobre os mortos-vivos.

Mas como todos sabiam que Jon ia ganhar aquela espada? Isso é do livro.  Certamente algum armeiro teve que fazer a modificação na espada de Jeor Mormont, e aí o rumor se espalhou.

Catelyn retorna da negociação com Walder Frey. Depois de prometer casamentos de Arya e Robb e a recepção de um escudeiro pessoal para Robb (além de dois protegidos em Winterfell, de acordo com o livro), a travessia pelas Gêmeas é garantida, além de homens dos Frey. Eu confesso, nas duas vezes que Theon riu, eu ri junto. Algo que não está no livro, mas faria todo o sentido estar lá.

Rapazes podem brincar com espadas, mas era preciso ser um senhor para fazer um pacto de casamento com a consciência do que ele significava.
(Catelyn Stark)

Deve ser mencionado, contudo, que é nessa cena que Walder Frey diz a Catelyn que planejava enviar dois netos seus para Lord Arryn, mas este rejeita e diz que tem em mente enviar seu herdeiro, o lamentável Robert Arryn, para ser criado como protegido de Stannis Baratheon.

Meistre Aemon solicita a ajuda de Snow pra alimentar os corvos. Vemos aqui uma importante lição sobre os homens da Patrulha. O celibato, o abandono do laço familiar, tudo é intencional: os homens de Negro não devem possuir essas fraquezas.

O amor é a morte do dever.
(Aemon Targaryen)

Aemon Targaryen confronta Jon a respeito de Ned: o que ele faria ao ter que decidir entre família e honra. Esse gancho foi muito bem colocado. E Snow percebe que ele não é o único com decisões difíceis. Vemos uma outra face de Aemon, dolorida e sofrida, mais uma excelente interpretação.

A cena a seguir é com os Dothraki. Ligando-se ao episódio anterior, vemos Drogo cambaleando sobre o cavalo. Ele está tão mal em decorrência do ferimento sofrido em Lhazar, e aqui cabe um parêntese bem grande.

Analisando os fatos, Drogo está mal por causa de um pequeno ferimento ou da Mirri Maz Duur? Porque, a impressão que eu tive ao ver a série é que a maegi fez algo para deixar o Khal naquele estado. No livro, paira a dúvida até certo ponto. Mas, além disso, a curandeira limpa o ferimento de Drogo, que era consideravelmente mais grave que o retratado na série e ainda alerta para evitar o leite de égua fermentado  e não remover o curativo. Drogo rejeita o conselho e diz que bebe o que quiser e que ignora a dor. Ele remove o emplastro aplicado por que coçava e isso causa a infecção grave. Bem mais plausível.

Ok, vocês podem achar que é um tanto de preciosismo. Até certo ponto, talvez. Mas vocês acham mesmo que um ferimento daquele ia deixar um Khal que certamente já deve ter se ferido mais gravemente muitas outras vezes tão mal assim?

Ao ver Drogo cair, Dany ordena que montem acampamento, enfrentando protestos. A queda de Drogo é tanto literal quanto metafórica: um khal incapaz de montar não é khal.

No acampamento Lannister, vemos um importante comentário: de que, nas Gêmeas, a tropa dos Stark move-se para sul. Essa é uma meia verdade. Apenas 2 mil homens foram para sul, e não todos os 20 mil nortenhos. Essa informação vem do batedor exibido no episódio anterior. Tywin Lannister também informa a Tyrion que ele deverá comandar sua horda de selvagens na vanguarda. Basicamente, a vanguarda é morte certa e, apesar dos protestos de Tyrion, nada muda nos planos. Uma diferença importante dessa cena em relação aos romance é que Tyrion não comanda a vanguarda; em vez disso é Gregor Clegane.

Conhecemos Shae, roubada por Bronn de… alguém. No livro, ela é mais nova e inocente do que na série, que apresenta uma moça bem mais madura e sagaz, mas eu gostei mesmo assim. Após alguma negociação (bem, por tanto ouro, até eu teria aceitado), Shae e Tyrion “selam os votos”.

De volta ao acampamento Dothraki, Drogo está muito mal e Jorah garante que ele não estará vivo até o anoitecer. Mormont também chama Dany para fugirem para Asshai, pois uma khaleesi grávida de um khal morto é um alvo. Mirri Maz Duur volta a atender Drogo, mas pouco pode ser feito. Após algum confronto com um irmão-de-sangue de Drogo, Dany recomenda a Jorah que use sua armadura. Desesperada, Dany pede à maegi que tente alguma magia.

Os mortos vão dançar aqui esta noite.
(Mirri Maz Duur).

A feiticeira inicia um feitiço de sangue, em que o cavalo de Khal Drogo deve ser sacrificado. Achei essa cena muito bem feita, ou o cavalo de mentira é muito real, ou o cavalo de verdade foi muito bem treinado! Nessa hora, todos saem da cabana e não devem entrar.

No livro, a reação do khalasar é mais cruel com Dany, com pedras, palavrões e insultos. Além disso, as sombras que gemem foram substituídas por gritos e rugidos que, na minha opinião, estavam à altura. A luta dos irmãos-de-sangue também é muito mais enfática no livro, e a luta de Jorah com o irmão-de-sangue é interessante por remeter a um comentário feito anteriormente pelo próprio Jorah: o arakh não é apropriado para se lutar contra um homem com armadura.

Dany entra em trabalho de parto e é levada para dentro da cabana onde o feitiço é conduzido pela maegi, já que as parteiras se recusam a atender Dany por ela supostamente estar amaldiçoada.

Novamente, vemos um recurso da série de contar histórias dos personagens através de diálogos informais. Dessa vez foi um jogo de beber e ficamos sabendo de Tysha, com quem Tyrion foi casado sem saber que se tratava de uma prostituta, e a quem ele teve que ver vários soldados usarem. Uma grande diferença, entretanto, é que, por imposição de Tywin Lannister, Tyrion a usou também, depois de todos os soldados.

Pela manhã, Bronn acorda Tyrion, pois a guerra está às portas. Veste a armadura e convoca os seus selvagens (aliás, bradando com uma voz que não parece nada com a voz normal dele!). Mas, aqui, temos uma mudança significativa em relação aos livros. Apesar de anão, ele até que sabe manejar um machado mas, na série, isso não é passado, com nosso meio-homem tomando uma acidental martelada e caindo desacordado. Só levanta ao final da luta, numa cena ao melhor estilo Gladiator. Impossível não ter lembrado disso aqui!

Mas os informantes estavam errados, não havia 20 mil nortenhos, mas 2 mil, contra toda a tropa Lannister. Como Tyrion se questiona, onde estão os outros 18 mil?

Uma coisa que foi totalmente deixada de lado pela produção da série: em Correrrio, Jaime estava acampado quando fora surpreendido por Robb e seus homens 18 mil homens, na Batalha do Bosque dos Sussurros. Com poucas baixas, o exército do Norte captura o Lannister e o fazem de prisioneiro. Há, aqui, um importante momento no livro, em que nos é informado que dois filhos de Lord Karstark foram mortos por Jaime. O Regicida também não faz nenhuma menção a um combate pessoal entre ele e Robb Stark. Os nortenhos imaginam ser uma excelente moeda de troca na negociação por Ned e as meninas Stark.

– Eu enviei dois mil homens para a tumba essa noite.
– Os bardos cantarão músicas por seu sacrifício.
– Mas os mortos não ouvirão.

Infelizmente, a HBO foi bastante esquivas nas batalhas. Tanto no acampamento Lannister quanto em Correrrio, essas cenas foram quase que totalmente ignoradas, sendo que a menção à batalha de Correrrio se deu exclusivamente pela espera ansiosa de Catelyn. É exigir demais da imaginação dos telespectadores, produção.

Na tomada final, as coisas ficam bastante parecidas com o livro. Acompanhamos quase que exclusivamente o ponto de vista de Arya. Sobrevivendo numa dieta à base de pombos, a menina que roubava tortas de limão da cozinha do seu castelo agora implora por uma. A estranha movimentação das pessoas chama sua atenção e os transeuntes lhe dizem que a Mão do Rei é levada ao Septo de Baelor.

Há, no centro da praça, uma grande estátua de Baelor. Uma coisa muito interessante é que essa cena está exatamente igual como eu imaginei quando li o livro, e creio que isso deva ter acontecido com muitos de vocês. Agarrada à escultura, Arya tem uma visão privilegiada da cena. Uma novidade é que Ned vê Arya, diferente do livro. E aqui, Ned manda Yoren, um patrulheiro, ir até Arya. Durante a Via Crucis de Ned, eu creio que as pessoas poderiam ter sido mais hostis. Sansa, apesar de tudo, está contente em rever seu pai. E começa a falsa confissão de Ned.

Uma coisa que eu observei neste momento foi como o clima de morte já estava anunciado. Quando ele começa a falar, o silêncio é absoluto e um celo melancólico já nos prepara na música de fundo. Um celo solitário, não existe instrumento mais lamurioso!

Joffrey ainda nos dá uma trolada, falando que a rainha deseja que Ned fosse para Muralha e cita a apelação de Sansa. Enquanto desejo uma morte lenta e dolorosa para Joffrey, devo aqui dar os meus sinceros parabéns ao ator Jack Gleeson. O moleque é brilhante. O olhar que ele dá para Sansa… você sabe precisamente o que ele está pensando.

 

Sor Illyn, traga-me a cabeça dele!
(Joffrey Baratheon)

Eu acho interessante observar umas coisas aqui na série que acrescentam aos livros. Enquanto Sansa esperneia e Cersei fala a Joffrey, Varys corre em direção ao Rei com um ar desesperado. Illyn desembainha Gelo, a espada de Ned. Varys encara Mindinho violentamente, enquanto este tem uma face tranquila e até esboça um sorriso. Todos os sons ficam mudos e percebemos o torpor de Ned. Os sons se confundem e desvanescem. Só sua respiração é ouvida. Vemos nosso bom homem abaixar a cabeça e se entregar: já  chega de tudo isso.

Apenas duas coisas são ouvidas: a respiração de Ned e o tilintar da espada. Depois, só a respiração de Arya. E, de novo, o celo.

Claro, fãs do Ned, como eu e tantos outros que acreditam que a honestidade e a honra são valores a serem perpetuados e praticados, estavam em negação até o momento último. Ao ler, eu quis alimentar a esperança de que ele ainda estava vivo, que Varys tinha armado alguma, que tudo era uma grande conspiração, qualquer coisa. Ned é uma personagem muito cativante e é impossível não amá-lo. Um homem valoroso, que criou filhos valorosos (exceção pessoal: Sonsa) e que mantém um domínio de forma justa. Ele não foi inocente – a um homem que mata na guerra não é dado esse direito. Ele não foi burro ou imaturo – ao protetor do Norte não é dado esse direito. Mas ele errou em acreditar que as outras pessoas fossem tão honradas quanto ele.

Imagens: HBO Baelor Slide Show, Lidiany
Referências: Westeros.org book spoilers

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  • Primeiro eu fiquei chocada com a morte dele, depois revoltada…desisti de assistir a série e depois desisti de desisti. Mas o que me deixa mais indignada foi a confissão, já que ele tinha que morrer, já que o autor é um idiota, pelo menos que ele falasse a verdade na frente de todos, além de ter morrido como um traidor ele é um idiota, porque ele teve todas as chances de vencer a Cersei…affff….muito decepcionada!

  • Nayara por favor não desista!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!